Meu filho de nove anos, aos quatro,
estudava em uma escola onde pela primeira vez conheceu um menino negro. Ele não
me falou sobre este fato. Até que um dia, dentro do carro, soltou: “Olha ali
uma porção de Antoninhos!”. Senti em sua voz um tom de que não estava sabendo
lidar com aquela informação. Em poucos
minutos, pensei tanta coisa. Pensei nos anos de preconceito no mundo. Pensei na
Tia Anastácia e no livro “As Belas Histórias”, pensei em minha avó e seu preconceito
velado tão próprio da mineiridade.
Rapidamente roguei aos deuses
que acontecesse quase o impossível em um país tão miscigenado como o Brasil.
Que passasse por ali um menino loiro indo para a escola como iam os Antoninhos.
E passou. No mesmo ato, falei: “Olha ali, um Rafaelzinho!”. Ele se incomodou: “Mamãe,
ele não se chama Rafael”. “Nem tão pouco aqueles meninos são Antoninhos, meu
filho”.
Segregar, distanciar, rejeitar
o novo, o diferente. Todos os dias convivemos com isso. Neste instante, enquanto escrevo,
penso. Meu texto é uma crônica? A necessidade de uma forma e de uma fôrma. A necessidade
humana da classificação
Sempre fui amante do novo,
aberta ao diferente, curiosa pelos segredos guardados na caixa da vida.
Entrelaço ideias, misturo, reinvento e só assim encontro o colorido que me
encanta. Para logo depois ir em busca de um outro começo. A vida só tem sentido
na eterna descoberta.
Meu filho ainda tem em sua essência
a desconfiança pelo desconhecido. Sejam sapatos novos, viagens, sabores. Espero
ter sempre a iluminação necessária para guiá-lo enquanto ele precisar. Hoje, alguns
de seus melhores amigos são negros. E para dizer a verdade, isso já não faz a
menor diferença.
(Escrito durante a oficina", ministrada por na programação do Sesc Literatura, promovido pelo Sesc Juiz de Fora.
(Escrito durante a oficina", ministrada por na programação do Sesc Literatura, promovido pelo Sesc Juiz de Fora.
