"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.
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sábado, 5 de maio de 2012

Histamina

Definitivamente tenho uma incompatibilidade com tapetes. Falo daqueles grandes, felpudos, que decoram o chão em baixo da mesa de jantar.
Por de baixo do tapete sempre se esconde alguma coisa não muito agradável.
Restos de comida, poeira mal varrida, chão arranhado. O cheiro de casa fechada é mais forte quando se há tapetes espessos.Tapetes são como pessoas obscuras. Acumulam sujeiras e me causam alergia.
Tenho alergia crônica à falsidade.

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal aprovando a interrupção da gravidez de anencéfalos me deu vontade de escrever e pensar sobre o assunto. Há anos sou ativista do parto humanizado e do respeito ao direito da mulher escolher o seu parto. Digo isso porque, misteriosamente, embora pesquisas apontem que cerca de 70% a 80% das mulheres brasileiras desejam um parto normal para os seus filhos, apenas uma média de 10% conseguem. Veja artigo publicado no site Guia do Bebe.

A mulher do século XXI, vivendo no mundo ocidental, ainda sofre muita violência. E existe um tipo de violência pouco discutida e pouco difundida em nossa sociedade. Todos os dias, centenas de mulheres são violentadas no momento que lhe deveria ser mais sagrado, o momento do nascimento de um filho. E o mais absurdo ainda, a grande maioria nem chega a ter consciência desta violência. Outras acreditam que é assim mesmo que deve ser.

No Brasil de hoje, se uma grávida tem um plano de saúde e tiver condições financeiras para um parto particular, pode contar que será levada a ser submetida a uma cesariana. Ótimo, se este for o desejo da futura mamãe. Mas o que dizer da enorme estatística que inicia uma gestação sonhando com um parto normal que não se realiza? Enquanto isso no SUS, mulheres são moralmente agredidas com frases do tipo ”na hora de fazer, você não pensou na dor, agora aguenta”. Achou forte? Mas é bem mais comum do que o leitor imagina. E não para só por aí.

O que tem de comum entre a decisão do Supremo e o desejo feminino de se ter um parto normal? Direito de escolha. Este é o ponto. E quando este direito é negado, seja legalmente, seja por desculpas mal dadas que levam milhares de mulheres a uma cirurgia cesariana todos os dias, este é sim também um ato de violência.

Sobre a falsidade, quero apenas dizer que parabenizo médicos cesaristas que deixam claro na primeira consulta que não fazem parto normal. Eles, pelo menos, dão a gestante a oportunidade de saírem de seus consultórios e buscarem (sabe lá aonde ainda existam) profissionais dispostos a apoiá-las em suas escolhas.

Em tempo, cesariana é muito bem-vinda. Apenas em casos de verdadeira necessidade.

domingo, 29 de agosto de 2010

Beleza Áurea

Foi Marcos Vitrúvio Polião, arquiteto e engenheiro romano que viveu no século I a.C. quem primeiro concebeu a idéia da Proporção Áurea.

Denotada pela letra grega φ (phi) e com o valor arredondado a três casas decimais de 1,618, este é chamado o número da perfeição, freqüente em pinturas renascentistas. Leonardo da Vinci representou a descoberta de Vitrúvio em seu famoso desenho intitulado Homem Vitrúvio.




A Proporção Áurea está envolvida com a natureza do crescimento. Phi pode ser encontrado na proporção das conchas, seres humanos (o tamanho das falanges, ossos dos dedos, por exemplo), até na relação dos machos e fêmeas de qualquer colméia do mundo, e em inúmeros outros exemplos que envolvem a ordem do crescimento. 

O fato de ser encontrado através de desenvolvimento matemático é que o torna fascinante.

Este pequeno vídeo de Cristóbal Vila acaba de chegar no meu e-mail acoplado a um outro que mostra a beleza de um parto humanizado usando uma técnica de relaxamento e contato com a criança através da emissão de sons pela mãe em toda a gestação e durante todo o trabalho de parto.

Cristóbal nos remete à beleza da perfeição matemática presente na natureza capaz de construir com bilhões de células que multiplicadas de maneira exponencial irão gerar uma espiral que dará forma a uma simples concha. A mesma Proporção Áurea está presente nas asas de uma libélula.

A beleza e o mistério da vida sempre irá fascinar a humanidade, no que diz respeito às pessoas que têm olhos para ver e sentidos para seguir se surpreendendo com os pequenos milagres que nos rodeiam.

O vídeo Nascimento Encantador, fala de uma matemática ainda mais improvável, de horas de espera em um mundo em que a agilidade dos fatos nos faz acreditar que qualquer espera é inútil 


(como se na natureza tudo não fosse uma espera constante até que novas vidas tomem forma, até que as estações cumpram o seu ciclo milenar). 

Nascimento Encantador fala do respeito à mulher por suas escolhas. Este acontecimento não é um modelo a seguir, mas uma química possível.

Depois de assistir aos dois vídeos, veio à minha mente um pequeno texto de Jorge Luís Borges que reproduzo abaixo.


ARGUMENTUM ORNITHOLONGICUM

Fecho os olhos e vejo uma banda de pássaros.
 A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema intercala o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros eu vi.

 Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, contudo não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros.


Vi um número entre dez e um que não é nove, oito, sete, seis, cinco etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Para alguém muito especial

Pintura Guilherme de Faria

Tenho um admirador mirim. Ele tem apenas 5 anos e hoje me ofereceu flores. Precisamente um infinito de flores e 1, que é mais do que o infinito, em suas primeiras noções de matemática.

Existe algo mais bonito do que um filho amando sua mãe? O mundo é belo, porque eu existo para esta criaturinha.

A responsabilidade é proporcional ao tamanho deste amor, ou seja, no meu caso, o infinito e 1.

A maternidade é um acontecimento que não se explica, se vivencia. Existem mães de todos os tipos e cores. Mães que não queriam ser, mães que querem ser, mas não sabem como ser, mães que abrem mão de tudo só para serem mães, mães que não querem abrir mão de nada.

No fundo, somos todas exageradamente erradas, como definiu Freud. Mas amadas. Pelo menos até a pré-adolescência e o primeiro grito de liberdade: “Eu te odeio!” Sinceramente, espero não ouvir isto com muita intensidade e nem com muita freqüência.
Ah, doce ilusão.

Minha gravidez foi daquelas bem programadas. Esperamos pouco tempo e logo ele veio. O parto seria um parto, não uma cirurgia eletiva.

No entanto, este capítulo foi retirado do meu controle, e, como tantas mulheres (brasileiras ou não), desavisadas e crentes em uma medicina que deveria respeitar as suas escolhas, acabei em um centro cirúrgico, sem saber que aquele ato era completamente desnecessário.

Depois foi a retirada do bebê dos meus braços.

Nada de amamentação na primeira hora de vida, nada do pai acompanhando o nascimento do filho. Todo um sonho por terra.

E algumas pessoas acreditam que poderia ter sido diferente, se o meu empoderamento fosse maior. Faltou conhecimento e forças. Mas como culpar uma gestante fragilizada no momento em que deveria estar sendo mais amparada pelos profissionais de saúde?

Outras acham tudo uma bobagem, afinal, o que vale é ter o filho com saúde, não é mesmo?

Muitos nunca irão compreender este dilema, mas há um grito silencioso em inúmeras mulheres pelo mundo, que tiveram seus direitos violados na hora em que deveria lhes ser a mais sagrada. Um infinito e 1 de mulheres.

A amamentação foi a minha revanche. A vitória veio com o aleitamento materno até os dois anos e um mês. Nós precisávamos desse aconchego. Eu estava de novo no comando das escolhas e, desde então, tudo vem correndo bem. Conflitos, dúvidas, angústias, amor.

A dor do parto contido vai ficando velada, distante, diante de cada conquista deste menino, cada aprendizado que ele me traz. Juntos, vamos reinventando o mundo, descobrindo que a roda gira, que a vela é mágica, que uma caixa de papelão pode virar um touro, ou um barco, ou um ninho. Ainda dói. Vai doer sempre. Mas a vida continua.