"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Histórias não tão distantes de uma cidade distante – O Cigano


Há muitos anos um grupo de moças resolveu procurar um cigano que viajava pela região e que há tempos fazia parada em sua cidade. Na mão lida de uma das meninas, a revelação de que muitas viagens ainda seriam feitas. A moça, de origem humilde, fez ares de cética. E a turma, como era de se esperar, voltou para casa naquele dia sonhando com o futuro revelado pelo enigmático vidente.

Algum tempo depois, a moça recebeu um convite para morar em uma cidade maior. Era o início de que a profecia seria cumprida. Um dia, encontrou-se a jovem com uma mulher mais madura que lhe revelou um amor proibido. Ela havia se apaixonado por um cigano e sua família coibiu o namoro. Desde então, a mulher decidiu-se a não se casar.

A moça ouviu a história e perguntou: “Você sabe por onde ele anda?” “Nunca mais soube dele”. E a menina se calou. Não disse nada aquela mulher. Não disse que o cigano que morava agora em sua cidade era o mesmo cigano por quem ela era apaixonada. Não disse que ele vivia aparentemente só. Não disse uma palavra.

Terá sido sábia a menina por não querer intervir no destino dessas almas? Teria mudado alguma coisa na vida destes dois apaixonados se ela revelasse o seu segredo?

O certo é que a profecia se cumpriu. Minha mãe até hoje cumpre a sina desvelada pelo cigano de ser uma eterna viajante, descobridora de novos caminhos e novas histórias. Mantém a mesma discrição de não comentar o que escuta – sabedoria de quem viaja e conhece muito da vida. Cresci no meio dessas e outras memórias e, por vezes, me pego pensando como poderia ter sido mágico (ou não) o reencontros desses amantes.

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente
.


Carlos Drumond de Andrade

sábado, 27 de março de 2010

Mil objetos em um baú de madeira

Do meu avó paterno, herdei o gosto pelas coisas míticas, pela arte em madeira, um banquinho e um velho baú.

O banquinho sumiu no meio dos meus anos sem deixar rastro. O baú, ainda cumpre o discreto papel de guardar segredos.

Dele posso tirar um vestido preto que só a mim revela lembranças inconfessáveis. A primeira roupa do meu filho, um álbum antigo de fotos de família, uma caixa aonde guardo antigas cartas desde o tempo de colégio.

O baú de meu avô tem tesouros só meus, como pedrinhas retiradas do riacho, lembrança do dia mais feliz de minha infância na fazenda – o primeiro banho de cachoeira sem biquíni aos oito anos de idade.

De um lado do rio, mulheres e crianças, do outro, os homens. Entre eles, uma montanha intransponível vigiada pelos mais velhos com rigor de quem guardava as muralhas da China. Milho assado na fogueira, passeio a cavalo, coisas do interior.

Cada peça me remete a outra fração da minha memória. A primeira vez no leme de uma embarcação, as cachoeiras de Teresópolis, verão em Ibitipoca, outono em Abrolhos, aonde fiz meu primeiro mergulho noturno, inverno em Ouro Preto, todas as estações com toques de primaveras.

Lembro da cada passagem com carinho. As boas e as más. Engraçado como que com o passar dos anos essas últimas vão se desbotando e as primeiras ganham uma tintura especial. E as ruas vão ficando maiores, os rios mais cheios e as pessoas da nossa caminhada se tornam únicas.

Ao mexer neste baú, fico pensando se meu avô, quando deixou este legado, imaginava o quanto esta peça utilitária de tempos em tempos revolveria a minha alma.

E como Augustine no filme Uma vida iluminada, descubro que revolvemos a alma pela simples razão da existência dos acontecimentos. Objetos, imagens, renovam o prazer de se sentir viva.