"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

sábado, 20 de março de 2010

Volevo un gatto nero !


Tenho um amigo que volta e meia usa a seguinte frase: “Eu quero agora e é de morango!” para designar aquelas pessoas que solicitam alguma coisa em tom de exigência e ainda escolhem o sabor. Como meninos caprichosos.

O mundo está pleno de pessoas assim. Posso listar algumas que se quer evoluíram do egocentrismo infantil. Costumo brincar com meu filho: olhe ao redor do seu umbigo e veja se há algum planeta girando em torno dele !

Tudo bem que com sua vibrante imaginação ele consiga até ver detalhes e contornos de algum astro fictício na órbita de seu lindo ubiguinho. O perigo é ele crescer e continuar acreditando nisso.

No toma lá dá cá da vida, encontramos muitos de nós com a prática do só faço isso se você fizer aquilo. E perdem a essência do vivenciar junto. O desapego, o fazer por fazer. A troca espontânea é rara. É obvio que as pessoas se relacionam porque pressupõe trocas. Mas a exigência é perigosa.

Aprender a dizer não é tão difícil quanto a digerir um não. Compreender que certas parcerias não são possíveis, simplesmente porque não satisfazem amplamente os lados. E nem por isso outras parcerias não serão concretizadas, até entre as mesmas partes.

Lembro-me que quando era bem pequenina, uma prima distante veio me visitar nas férias. Brincamos juntas como siamesas até o momento em que ganhamos presentes iguais, mas de cores diferentes. Um era rosa, cor que as duas, embora meninas, abominavam. A outra, objeto do nosso desejo, azul. Nossa linda amizade se desfez naquele verão porque colocamos todo o nosso querer e gostar em uma simples espreguiçadeira de plástico comprada nas Lojas Americanas.

Foram dias até que o bico se desfizesse. Tenho que confessar que a errada era eu, a quem o destino havia reservado, na escolha, a espreguiçadeira cor de rosa. Hoje rio da história, embora, como qualquer ser humano, ainda cobice e relute em aceitar as parcerias não possíveis.

Para ilustrar esta nossa incapacidade, deixo este delicioso clip italiano com uma graciosa cantiga infantil.






Un coccodrillo vero,
Un vero alligatore
Ti ho detto che l'avevo
E l'avrei dato e te.
Ma i patti erano chiari:
Il coccodrillo a te
E tu dovevi dar
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Mi hai dato un gatto bianco
Ed io non ci sto più.
Volevo un gatto nero, nero, nero,
Siccome sei un bugiardo
Con te non gioco più.

Non era una giraffa
Di plastica o di stoffa:
Ma una in carne ed ossa
E l'avrei data e te.
Ma i patti erano chiari:
Una giraffa a te
E tu dovevi dare
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Mi hai dato un gatto bianco
Ed io non ci sto più.
Volevo un gatto nero, nero, nero,
Siccome sei un bugiardo
Con te non gioco più.

Un elefante indiano
Con tutto il baldacchino:
L'avevo nel giardino
E l'avrei dato e te.
Ma i patti erano chiari:
Un elefante a te
E tu dovevi dare
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Mi hai dato un gatto bianco
Ed io non ci sto più.
Volevo un gatto nero, nero, nero,
Siccome sei un bugiardo
Con te non gioco più.


I patti erano chiari:
L'intero zoo per te
E tu dovevi dare
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Invece è un gatto bianco
Quello che hai dato a me.
Volevo un gatto nero,
Ma insomma nero o bianco
Il gatto me lo tengo
E non do niente a te.

sábado, 13 de março de 2010

Você tem Índice de Valor Humano?





A cena está no filme e no livro Caçador de Pipas. O patriarca, Omar, sai literalmente no braço com o dono de uma quitanda de um bairro do subúrbio novaiorquino. O motivo? Omar não compreende como o comerciante se recusa a lhe vender fiado, já que é seu freguês de todos os dias, e lhe pede que faça a compra com cartão de crédito.

Omar é imigrante ilegal. Homem de muitas posses em seu país, veio para os Estados Unidos fugindo da guerra civil no Afeganistão. Em Cabul, todos os comerciantes vendiam a ele apenas na confiança, certos de que o pagamento viria no final de cada semana.

Minha avó dizia, que seu avô contava, que no tempo deles também era assim. O homem honrado e seu fio de bigode valiam mais do que qualquer papel registrado em cartório.

Hoje, os códigos de conduta não se baseiam mais na palavra empenhada. Tanto que em uma pesquisa realizada pela ONU em 2009, muitos dos brasileiros entrevistados citaram os valores morais como um dos principais itens que precisariam mudar no país para melhorar a vida do cidadão.

Em São Paulo, os valores ficaram em primeiro lugar entre todas as respostas. Por isso, a ONU decidiu fazer uma pesquisa específica para identificar que valores são esses.

A pesquisa vai até o final de maio de 2010. Os resultados vão criar um novo parâmetro para as Nações Unidas: o IVH, Índice de Valor Humano.

Então, vamos tirar as teias de aranha daquele “Livro das Virtudes, que em algumas famílias costumam passar de geração a geração, e que ainda pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo, e começar a pensar quais valores você acha que não podem faltar em sua vida.

Na minha lista, o primeiro deles é o respeito. Sempre achei que respeitar o próximo, a vontade do próximo, o momento de silêncio e de euforia do outro (Sem que isto signifique sua negação pessoal, é claro), é o principal alicerce para qualquer tipo de relação.

E não podem faltar a verdade, a honestidade, a solidariedade, o companheirismo, a compaixão. São palavrinhas capazes de revelar o caráter de quem você convive e que vão formar o seu Índice de Valor Humano.

Bom, não sei bem como a ONU vai mensurar isso, e também não sei bem que utilidade prática isso terá. Mas achei interessante essa presença de espírito dos tais pesquisadores. Demonstra, no mínimo, sensibilidade.

Um brinde aos valores. Que sejam renovados, relembrados, e, sobre tudo, praticados.

domingo, 7 de março de 2010

Para relembrar e pensar



Imagino como serei eu, uma jovem senhora aos 63 anos. Não penso em subir aos palcos. Prefiro permanecer longe dos refletores e me esconder atrás das letras, enquanto isso me der prazer e ainda for capaz de inspirar alguém para a minha leitura.


Mas confesso que saber amadurecer é uma arte dolorosa. O corpo se esvai, a mente ganha outros contornos e desafios.

Um corpo preso aos valores ditados pelos profissionais da beleza inspira falsidade. Porém, atire a primeira pedra quem não compraria o elixir da eterna juventude.


Em 23 de agosto de 1945, nascia na cidade de Turim, Itália, aquela que viria a ser um desses sucessos internacionais indiscutíveis. Gostando ou não, quem está neste planeta desde os anos 60 e 70, em algum momento curtiu Datemi um martello.

Quebrando tabus, a menina de cabelos ruivos escandalizou o mundo ao assumir o romance com seu produtor e descobridor, o cantor italiano Teddy Reno. Teddy era casado na época com Livia Protti e não existia divórcio na Itália até 1970. Em 1971 Rita e Teddy se casaram oficialmente.


Estes dias, recebi de uma amiga um vídeo com aquela que seria a última apresentação oficial de Rita Pavone.


Em 2006, aos 63 anos, Rita fez seu show de despedida, revelando um corpo belíssimo para a idade e com uma qualidade vocal invejável.


O que mais me surpreendeu nesta mulher, não foram os contornos lapidados clinicamente e cobertos pelo provocante vestido preto. Antes, me inspira a força de sua interpretação, revelando uma energia vital invejável.


Talvez aos 63 anos eu prefira estar bem mais recatada do que Rita, não sendo a minha a mesma natureza que a dela. Talvez prefira observar os pássaros e cantar antigas canções enquanto preparo um bolo para o lanche dos netos, quem sabe.


Embora não me incomodem algumas rugas que irão surgir no meu rosto, as quais não pretendo esconder, espero estar com saúde e com alguma beleza aos olhos do meu espelho e de quem ainda comigo conviver.


Quero, no entanto, guardar com carinho a vitalidade de Rita e nela me inspirar para novos recomeços.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mercado de sonhos


2010 chega com todas as reticências permissíveis a um livro aberto. Nós, brasileiros, temos a licença do Carnaval. Parada para pensar em nada. Ou pensar em tudo.

Enquanto guardo os confetes, para um outro ano, quem sabe, quando resolva cair na folia, penso como foi bom meu Carnaval. Adoro Carnaval. Uma festa democrática para se fazer tudo o que se quiser, sem padrões. É perfeito para mim, uma pessoa nada convencional.

Caí na folia dos amigos. Encontros, livros, curti o deus-Sol, as irmãs estrelas no aconchego do lar. Ao longe uma leve batucada, muito bem-vinda. Nenhum funk, nenhum bloco, silêncio nas casas vizinhas. Paz e tranqüilidade de mosteiro. Parece heresia? Tudo é possível na festa de Momo, não?

Hoje sacudi as cinzas e sorvi cada minuto, aproveitando o tempo até a última gota.

Amanhã o ano enfim terá início com gosto de Semana Santa. E eu começo a apreciar a delicada arte de reinventar os caminhos. Já que o improvável é sinal de vida nas veias.

Não é preciso consenso sobre a arte,
É preciso antes o gostar interior,
para se ter a certeza do aceitar e rejeitar o que a vida nos oferece
As sombras das escolhas são próprias da adolescência
Vivo o gosto do tempo maduro, do não-medo, bem propício a novas realizações.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O tempo, as lembranças e as coisas não vividas

Pintura: Pessoa na Janela, por Salvador Dali

Eu tenho que admitir, em matéria de mudar e marcar, famoso artigo de Airton Luiz Mendonça, publicado no Estado de São Paulo, o ano de 2009 foi bem apropriado para vencer desafios e sair do lugar comum.

Para quem tem filhos, como eu, já conta com um grande aliado no quesito quebrar rotinas. Doença de filho tira a gente do sério. Este ano, a H1N1 teve o papel de nos deixar em pé de alerta ao sinal de qualquer resfriado ou febre.

A dengue até perdeu o seu destaque de musa do verão. No meu caso, ainda somaram-se enormes reviravoltas no trabalho em um cenário político de montanha russa. Nada, absolutamente nada, que eu pudesse controlar.

Em seu texto, Airton explica que a sensação de que o tempo passa mais rápido está diretamente relacionado com o nosso tempo de vida. Diga-me quantos cajus você possui (expressão nordestina para se contar a idade) e eu te direi o quanto o relógio pode estar acelerado no seu dia-a-dia.

O nosso cérebro mede o tempo observando os movimentos que nos cerca. Por isso a expressão, também nordestina (ou quiçá lusitana) usada tão deliciosamente por Elomar:
“Nos encontraremos novamente na quadra certa da lua”.

E se ela não chegar, é porque não era para ser. O mundo é cíclico porque nós o compreendemos assim.

Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem portas ou janelas e sem relógio, você começará a perder a noção do tempo. Sem a noção exterior dos movimentos, você passará a medir o tempo pelos seus movimentos internos, como os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea.

Um cérebro adulto registra entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Para que você não enlouqueça, ele evita processar a mesma informação duas vezes.

Por isso, por mais belo que seja um por do sol, se você tem o privilégio de morar em uma ilha paradisíaca e vê-lo todos os dias, você passa a não ”enxergá-lo”.

Então, Airton nos ensina uma receita de eterna juventude: O Mude e Marque, ou como ele charmosamente chama de M&M. E 2009 me proporcionou isto, sem que precisasse fazer muitos esforços. Este foi um ano de provas e expiações kardecistas. Tudo o que foi programado, premeditado, não colheu frutos. A rotina fez as malas e saiu sem rumo.

A sensação de não estar no controle é desagradável até o momento em que nos entregamos a ela. Não há o que fazer, não há o que semear, como disse Clarrisa Pinkola Estés, em O Jardineiro que tinha fé. Vamos arar o terreno e esperar as sementes que o vento nos trará.

Tenho algumas pessoas a agradecer nesta jornada. Paulo, meu companheiro, um sábio que tem a medida exata da arte do saber esperar e do saber agir, ao meu filho, que todos os dias me ensina uma nova maneira de ver a vida, e me mostra o quanto ainda preciso soltar minhas amarras e simplesmente me entregar ao sentimento.

E algumas sementes que começaram a germinar no meu jardim. Deborah, duas Andréas, Polyana, Júlio, Soraya, Vilma, Robert, Regina, Isis, Bruno, Carolina, Francine...

Outras que vieram há mais tempo e que já são pequenas mudas. Cleide, Kelly, Aline, Tereza, Serginho, Fernando, Raul, Marilise, Pollyana, Dora, Ramon, Letícia, Marco...

No meu jardim também há árvores frondosas que há algum tempo não saboreava seus frutos e que neste ano eu pude colher alguns. Meu reencontro com Silvia foi assim, como se nunca houvesse separação. Porque na verdade não há.

Também tiveram pessoas que vieram e passaram, mas que deixaram seu registro, como a doce Jesane, que nunca sequer saberá que citei seu nome por aqui.

Em um universo tão místico, sigo minha caminhada. Não há certezas, não há sequer estradas traçadas. Apenas a vontade de semear e de me superar. Aliás, essa é a melhor parte.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A Santa e os Minaretes



O ano era o de 1969 e o Museu de Arte Sacra, em Salvador, iria receber uma valiosa imagem de Santa Bárbara, conduzida com todo esmero em um saveiro que saíra de Santo Amaro da Purificação. O diretor do Museu foi pessoalmente ao cais do porto para recepcionar a Santa. No entanto, Oiá-Iansã tinha outros compromissos inadiáveis em sua estada na capital baiana.

Remexendo suas ancas, a Santa deu uma levantada em sua veste e saiu pelas ruas da Bahia à procura de sua protegida, a jovem Manuela.

Este é um pouco do que vem à minha memória do romance de Jorge Amado, O Sumiço da Santa (1988 - cem anos da Abolição da Escravatura no Brasil), e que fatos recentes me fizeram recordar.

O escritor que, ao longo de sua obra, soube descrever tão bem o sincretismo religioso presente na cultura brasileira, não está sozinho. No livro de Dias Gomes, Santa Bárbara também é a personagem principal do imbróglio entre Zé do Burro, a igreja católica e o candomblé.

O Pagador de Promessas foi parar nas telas de Cannes e Santa Bárbara (Anselmo Duarte), ganhou a Palma de Ouro – único filme brasileiro a receber o maior prêmio do cinema francês até os dias de hoje.

Um amigo me disse que o Brasil mantém, ainda, um título inusitado: seria o exclusivo país do mundo em que os mulçumanos acumulam as rezas a Meca durante o dia para fazê-las em um só horário. Não duvido.

Quem fizer uma visitinha à rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, não vai se espantar em ver um árabe legítimo tomando um chopp bem gelado, enquanto manuseia o seu misbaha e conversa alegremente com seu amigo Isaac.

O Brasil é mesmo uma benção! A literatura nos revela, no entanto, que sua fama de tolerância religiosa é bem frágil. Zé do Burro que o diga. E também tantas pessoas perseguidas por acreditarem em espíritos, por exemplo. Mas existe sim uma maleabilidade incomum. Uma mistura inusitada e cativante.

Há poucas semanas, a Suíça, país considerado como um dos santuários dos direitos humanos, entrou em conflito com a colônia islâmica ali existente, ao proibir a construção de minaretes em suas mesquitas.

As pequenas torres nos templos mulçumanos servem exatamente de local para adoração a Meca e estão presentes na arquitetura de diversos países europeus.

A decisão teve aprovação de 57% dos votos da população. O vaticano teme represárias violentas às igrejas católicas no Oriente Médio. A medida foi proposta pelo Partido do Povo (SVP), considerado de extrema direita, sob a alegação de que as torres simbolizavam uma “islamização” do país.

O Islã na Suíça é professado por cerca de 350.000 pessoas de acordo com o último censo realizado no país, sendo equivalente a 5% da população total (em 1990 eram 2,2% e em 2000 eram 4,3%), o que faz do Islã a terceira maior religião na Suíça.

O conflito carece de mais atenção por não ser esta a única medida autoritária que o governo suíço toma recentemente. Fico me perguntando se uma votação democrática tem o direito de decidir sobre como uma minoria deva ou não processar o seu credo.

Em que pesem todas as críticas pessoais que eu possa ter ao islamismo, práticas religiosas cristãs fundamentalistas e pentecostais entre outras, o lugar comum entre todas as ditaduras (muitas vezes trajadas por um ato democrático), é a intolerância às diferenças.

Penso como fez bem Santa Bárbara / Iansã, ao deixar seu confortável andouro para socorrer sua afilhada. Penso como fazem bem os ateus que respeitam a fé do outro, embora esta lhe pareça insana.

Penso em todo o capítulo de A a Z escrito por Saramago em Evangelho Segundo Jesus Cristo, dos que morreram em nome do Cristo, penso como são tolos os que adotam uma verdade única e não sabe o quanto elas (as verdades) gostam de mudar de forma nas múltiplas mentes que habitam o planeta.

Ai de mim que em nada creio, a não ser na força das águas, na beleza das flores e na inocência das crianças que dão novo colorido aos dias cinzentos e iguais de minha existência. Ai de mim que tenho como exercício diário o olhar e compreender o outro, deixando de lado, por vezes, as minhas vontades. Ai de mim que busco acordar e adorar o sol como se fosse o primeiro ou talvez o último. Não tenho religião, mas tenho a fé dos tolos que insistem na felicidade.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Todas as cartas de amor

Todas as cartas de amor são ridículas. Menos as de Pablo Neruda. O poeta chileno abusa de seu talento, embriaga os sentimentos. Ninguém sai em vão de sua leitura. Talvez porque com ele nos sentimos especiais. E o que buscamos a não ser a certeza de sermos singulares entre todas as criaturas?

No amor, mais do que elogiados, queremos ser escolhidos. Não por qualquer um, mas por alguém que julgamos especial diante dos outros. Alguém capaz de conquistar qualquer pessoa e que, magicamente, nos escolhe. Só somos capazes de amar, desejar, quem admiramos.


O primeiro passo do amor é o objeto de Narciso. E ao sucumbir ao reflexo das águas, embaralhamos tudo e descobrimos quem não somos. E pior, o que somos. 

Um olhar, apenas. Basta um olhar e o estrago estará feito para todo o sempre. Amamos pelos detalhes. Não é o olhar, mas aquele olhar, uma luz específica que bate no corpo, desvelando uma cena única e uma lembrança eterna. Quando perguntamos o que amamos nele (nela), o que nos vem à cabeça é o detalhe. É claro que as causas e as razões do amor não são a pele sob a luz, mas, sem aquela pele sob aquela luz sob aquele ângulo, não há razões nem causas para o amor!

Não há quem duvide do divino torpor que a paixão nos provoca. Suave embriaguez que nos deixa levitando por segundos, horas, dias, meses. Até que a chuva passe em Macondo e o mundo nos resgate ao cotidiano.

Se a paixão se esvai, o amor se enraíza. A primeira imagem, um charmoso figurino original, some em névoas por tantos afazeres. Fica a mão, a certeza do aconchego, das diferenças toleradas, das semelhanças reforçadas. O roçar dos braços enquanto se prepara o peixe, como revelou Coralina. Se a admiração acaba, o amor também acaba. Sherazade sabia disso e reinventou o amor em mil e uma noites de intimidades entre histórias e prazer.



O fogo, este é necessário reinventar. Na surpresa do ato, ainda ser capaz de elevar o ser amado a condição de especial. Isso, após o território conquistado, é o eterno desafio.



De Los versos Del capitán
Eu te nomeei rainha.
Existem mais altas que tu, mais altas.
Mais puras do que tu, mais puras.
Mais belas do que tu, mais belas.
Mas tu és a rainha.
Quando vais pelas ruas
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a coroa de cristal, ninguém vê
o tapete de ouro vermelho
que pisas por onde passas,
o tapete que não existe.
E apenas apareces
cantam todos os rios
em meu corpo, as campanas
estremecem o céu,
e um hino enche o mundo.
Somente tu e eu,
somente tu e eu, amor meu,
o escutamos.