"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.
Há alguns meses ganhei um livreto de uma amiga. O texto, a transcrição de uma palestrar realizada em Madrid no ano de 1990. O autor, Jorge Angel Livraga Rizzi.
De toda a palestra, umas palavras me tocaram em especial e as transcrevo agora:
"As coisas materiais caem, se quebram e se vão. "Omnia transit", tudo passa, tudo caminha, tudo vai ao mar, como as águas dos rios. Tudo tem um destino.
As águas mais puras são aquelas que se golpeiam mais sobre as pedras, aquelas que caem em cascatas e arrebentam em grandes pompas de espuma branca;
as outras, as águas covardes, que ficam quietas em remanso, terminam por entrar em putefração e nenhum ser vivo pode nelas habitar".
Dê você a definição que quiser para destino. O fato é que tudo se esvai. E só faz sentido porque vivenciamos. Por vezes nos sentimos tristes pelas coisas não realizadas, sentimentos e vontades que parecem que ficaram suspensos no tempo. Mas isso também passa.
Há dias estou em estado de suspensão de sonhos. Não que eles não existam em minha mente, mas as águas andam meio paradas pelas bandas de cá. Ando em um estado latente, disperso. Contudo, já percebo uma pequena revolução emergindo em meu sangue.
E eu que sou amante dos rios, já procuro vontades de um mergulho profundo em cachoeiras barulhentas. O burburinho ainda é recatado. Ora cessa, ora desanda a me revolver. Sinto que a energia fugiu de mim, mas o simples ato de estar aqui novamente é sinal de recuperação.
Edos tempos imperiais herdamos o hábito de sentar-se à mesa e simplesmente quedar até o entardecer.
Até hoje, famílias de cidades pequenas mantêm o hábito de deixar a mesa posta do café da manhã para o almoço, do almoço para o lanche da tarde, em um sucessivo requinte gastronômico em que é preciso alimentar a prole como se fossem lobos esfomeados.
Recusar? Uma ofensa digna de confessionário. Dez Aves Marias e 30 Pai Nossos, no mínimo!
Cozinhar é fazer amor por dentro. Ouvi esta frase de um amigo carioca, para quem todo o problema do arroz estava nos mineiros. O arroz, dizia ele, foi feito para acompanhar os pratos. Mas aí vieram os mineiro e inventaram o arroz com alho. Bom, não sei se a invenção é das terras de Guimarães, mas o fato é que mineiro come arroz até com macarronada. E gosta.
E para fazer amor por dentro é preciso lavar bem as mãos e a alma, estar sem pressa. Sabedoria dos ciganos.
Ouvir uma boa música, tomar uma boa taça de vinho e, se você tiver a sorte de ter um pequeno canteiro de ervas, terá o privilégio de colher cada folha poucas horas antes do preparo do prato principal.
Cozinhar é um estado de espírito. Não gosto do dia-a-dia, gosto do extraordinário, da surpresa. Um dia acordo com gosto de tomate na boca e remexo minhas panelas.
O feitiço vai tomando forma e, de repente, você descobre que alecrim vai muito bem com carnes vermelhas, que não existe nada mais instigante do que a sabedoria mediterrânea de misturar manjericão com massas e que gengibre e peixes são almas gêmeas.
No canteiro da minha casa são poucos os que já saborearam meus temperos. É magia contida, porque o que muito se dissemina, perde a graça.
Não. Não é nada disso. É que a feiticeira aqui só cozinha em ano bissexto, ou quase isso.
E, quem tiver a sorte, pode chegar no dia em que o cheiro da cepa seja para mim inspirador, a porta vai estar aberta e você vai poder entrar.
Não muito se admire se te colocar uma faca não mão e umas batatas. Afinal, dividir o fogão é sempre mais delicioso.
No final da década de 70, recém chegado a Paris, onde até hoje reside, Juarez Machado se inscreveu em um concurso de novos talentos na pintura, conquistando o primeiro lugar daquela mostra. Os críticos de arte parisienses trataram logo de classificar sua pintura: “Surge um promissor pintor surrealista”, apontaram diante do quadro vencedor que retratava pessoas andando de bicicletas e guarda-chuvas.
Mal sabiam eles que esta cena tão improvável era lugar comum das lembranças de infância do pintor na cidade de Joinville, Santa Catarina, onde as pessoas iam trabalhar nas fábricas de bicicleta e, nos dias de chuva, lançavam mão do artefato.
Juarez Machado é por si só um personagem inusitado. Mas a cena, revelada no programa Conexão Roberto D´Ávila, fez voltar minha mente para o que é possível a cada um. Conheço pessoas estranhas – leiam isso como pessoas que fogem ao padrão estabelecido – e confesso ter facilidade para compreender e penetrar no mundo desses seres fora de rotulações. Afinal, a normalidade é um parâmetro que varia de cultura, humor e clima.
Tudo está bem quando você está bem e quando nossos atos não ferem ninguém. Comer abacate com açúcar é algo possível, a priori, apenas no Brasil. E que mal há? E que delícia descobrir a famosa iguaria mexicana – o guacamole. Sombrancelhas verdes estão na moda? Eu dispenso, mas para alguém elas devem fazer um sentido enorme e remeter, quem sabe, a infância em alguma uma tribo indígena?
Não julgarás para não ser julgado, este deveria ser o 11° mandamento. Antes, prefiro me deliciar com a diversidade do planeta. Conhecimento oxigena a alma. Talvez o propósito deste blog seja para que eu possa extravasar minhas pequenas observações sobre o mundo e também um exercício de manter meu cérebro como uma antena captadora de novos aprendizados.
Espero continuar me deslumbrando e absorvendo olhares diferenciados de um mesmo tema e, desta forma, manter acesa a chama de prazer pela vida. E se por acaso meu novo amigo usar um piercing esquisito, minha bagagem histórica não me permite achar que esta seja uma descoberta fantástica da humanidade, mas não me afastarei deste novo personagem que, tenho certeza, traz consigo outras e mais interessantes habilidades.
Há muitos anos um grupo de moças resolveu procurar um cigano que viajava pela região e que há tempos fazia parada em sua cidade. Na mão lida de uma das meninas, a revelação de que muitas viagens ainda seriam feitas. A moça, de origem humilde, fez ares de cética. E a turma, como era de se esperar, voltou para casa naquele dia sonhando com o futuro revelado pelo enigmático vidente.
Algum tempo depois, a moça recebeu um convite para morar em uma cidade maior. Era o início de que a profecia seria cumprida. Um dia, encontrou-se a jovem com uma mulher mais madura que lhe revelou um amor proibido. Ela havia se apaixonado por um cigano e sua família coibiu o namoro. Desde então, a mulher decidiu-se a não se casar.
A moça ouviu a história e perguntou: “Você sabe por onde ele anda?” “Nunca mais soube dele”. E a menina se calou. Não disse nada aquela mulher. Não disse que o cigano que morava agora em sua cidade era o mesmo cigano por quem ela era apaixonada. Não disse que ele vivia aparentemente só. Não disse uma palavra.
Terá sido sábia a menina por não querer intervir no destino dessas almas? Teria mudado alguma coisa na vida destes dois apaixonados se ela revelasse o seu segredo?
O certo é que a profecia se cumpriu. Minha mãe até hoje cumpre a sina desvelada pelo cigano de ser uma eterna viajante, descobridora de novos caminhos e novas histórias. Mantém a mesma discrição de não comentar o que escuta – sabedoria de quem viaja e conhece muito da vida. Cresci no meio dessas e outras memórias e, por vezes, me pego pensando como poderia ter sido mágico (ou não) o reencontros desses amantes.
Destruição
Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Um se beija no outro, refletido. Dois amantes que são? Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se, e como o que era mundo volve a nada.
Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma que os passeia de leve, assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre. deixaram de existir, mas o existido continua a doer eternamente.
Todo início de outono me lembra o Rio de Janeiro. É aquele tempinho ameno, o sol se despedindo, um calor gostoso e suportável. Época boa para se ler um bom jornal à beira da praia tomando água de coco.
O Rio é cidade democrática. É possível realizar passeios inesquecíveis com poucas moedas. Ainda é assim, porque a natureza não cobra do observador.
Em caminhadas matinais pela Floresta da Tijuca, é possível sentir o cheiro de café feito nas casas dos administradores logo cedo, fumaça saindo pela chaminé, cenário improvável. Nas curvas da mata, caminhos nos convidando a se perder para o todo sempre.
Esqueça o Cristo. E pelo amor de Deus, esqueça os shopping centers !!!
Para compreender bem o que disse no parágrafo anterior, o Cristo para o carioca é uma benção constante. Não precisamos visitá-lo. Ele nos visita a cada instante, enquanto percorremos a cidade.
Vá mais à adiante, fuja do lugar comum. Veja de um ângulo só seu. O por-do- sol mais bonito que você vai encontrar no Rio, não está em Ipanema, mas saboreando um chopp no Garota da Urca.
Passear pelo centro do Rio em um fim de semana é outro programa a parte. Ande pelas ruas olhando para cima. Todos os anos de império e da velha república ainda estão lá, acredite.
E se você for até Realengo, Vila Isabel, Campo Grande, ainda vai encontrar por lá casas com quintais repletos de frutas no pé.
Domingo na Lapa famílias inteiras ainda se reúnem para a tradicional macarronada. Quer saber aonde? Elas juntam as mesas nas calçadas para o grande banquete.
Os casarios do Bairro Peixoto e do Cosme Velho são um capítulo à parte. Santa Tereza também é.
Espere um pouco. Santa Tereza não. Isto é pouco para este lugar tão especial, tão único. Santa é um livro inteiro de possibilidades. Talvez a cidadezinha do interior mais cosmopolita do planeta.
A vista da Avenida Niemeyer à noite é inebriante. Uma noite por lá também pode ser. Quem conhece, sabe do que estou falando.
Posso eternamente preencher páginas sobre o Rio e seus lugares secretos. Mas o que me interessa dizer é que existe uma cidade preciosa por entre carros e poeira, prédios e concreto. Ela ainda está lá. Exuberante, para quem tem olhos de ver e fome de sentimentos.
Do meu avó paterno, herdei o gosto pelas coisas míticas, pela arte em madeira, um banquinho e um velho baú.
O banquinho sumiu no meio dos meus anos sem deixar rastro. O baú, ainda cumpre o discreto papel de guardar segredos.
Dele posso tirar um vestido preto que só a mim revela lembranças inconfessáveis. A primeira roupa do meu filho, um álbum antigo de fotos de família, uma caixa aonde guardo antigas cartas desde o tempo de colégio.
O baú de meu avô tem tesouros só meus, como pedrinhas retiradas do riacho, lembrança do dia mais feliz de minha infância na fazenda – o primeiro banho de cachoeira sem biquíni aos oito anos de idade.
De um lado do rio, mulheres e crianças, do outro, os homens. Entre eles, uma montanha intransponível vigiada pelos mais velhos com rigor de quem guardava as muralhas da China. Milho assado na fogueira, passeio a cavalo, coisas do interior.
Cada peça me remete a outra fração da minha memória. A primeira vez no leme de uma embarcação, as cachoeiras de Teresópolis, verão em Ibitipoca, outono em Abrolhos, aonde fiz meu primeiro mergulho noturno, inverno em Ouro Preto, todas as estações com toques de primaveras.
Lembro da cada passagem com carinho. As boas e as más. Engraçado como que com o passar dos anos essas últimas vão se desbotando e as primeiras ganham uma tintura especial. E as ruas vão ficando maiores, os rios mais cheios e as pessoas da nossa caminhada se tornam únicas.
Ao mexer neste baú, fico pensando se meu avô, quando deixou este legado, imaginava o quanto esta peça utilitária de tempos em tempos revolveria a minha alma.
E como Augustine no filme Uma vida iluminada, descubro que revolvemos a alma pela simples razão da existência dos acontecimentos. Objetos, imagens, renovam o prazer de se sentir viva.
Tenho um amigo que volta e meia usa a seguinte frase: “Eu quero agora e é de morango!” para designar aquelas pessoas que solicitam alguma coisa em tom de exigência e ainda escolhem o sabor. Como meninos caprichosos.
O mundo está pleno de pessoas assim. Posso listar algumas que se quer evoluíram do egocentrismo infantil. Costumo brincar com meu filho: olhe ao redor do seu umbigo e veja se há algum planeta girando em torno dele !
Tudo bem que com sua vibrante imaginação ele consiga até ver detalhes e contornos de algum astro fictício na órbita de seu lindo ubiguinho. O perigo é ele crescer e continuar acreditando nisso.
No toma lá dá cá da vida, encontramos muitos de nós com a prática do só faço isso se você fizer aquilo. E perdem a essência do vivenciar junto. O desapego, o fazer por fazer. A troca espontânea é rara. É obvio que as pessoas se relacionam porque pressupõe trocas. Mas a exigência é perigosa.
Aprender a dizer não é tão difícil quanto a digerir um não. Compreender que certas parcerias não são possíveis, simplesmente porque não satisfazem amplamente os lados. E nem por isso outras parcerias não serão concretizadas, até entre as mesmas partes.
Lembro-me que quando era bem pequenina, uma prima distante veio me visitar nas férias. Brincamos juntas como siamesas até o momento em que ganhamos presentes iguais, mas de cores diferentes. Um era rosa, cor que as duas, embora meninas, abominavam. A outra, objeto do nosso desejo, azul. Nossa linda amizade se desfez naquele verão porque colocamos todo o nosso querer e gostar em uma simples espreguiçadeira de plástico comprada nas Lojas Americanas.
Foram dias até que o bico se desfizesse. Tenho que confessar que a errada era eu, a quem o destino havia reservado, na escolha, a espreguiçadeira cor de rosa. Hoje rio da história, embora, como qualquer ser humano, ainda cobice e relute em aceitar as parcerias não possíveis.
Para ilustrar esta nossa incapacidade, deixo este delicioso clip italiano com uma graciosa cantiga infantil.
Un coccodrillo vero, Un vero alligatore Ti ho detto che l'avevo E l'avrei dato e te. Ma i patti erano chiari: Il coccodrillo a te E tu dovevi dar Un gatto nero a me.
Volevo un gatto nero, nero, nero, Mi hai dato un gatto bianco Ed io non ci sto più. Volevo un gatto nero, nero, nero, Siccome sei un bugiardo Con te non gioco più.
Non era una giraffa Di plastica o di stoffa: Ma una in carne ed ossa E l'avrei data e te. Ma i patti erano chiari: Una giraffa a te E tu dovevi dare Un gatto nero a me.
Volevo un gatto nero, nero, nero, Mi hai dato un gatto bianco Ed io non ci sto più. Volevo un gatto nero, nero, nero, Siccome sei un bugiardo Con te non gioco più.
Un elefante indiano Con tutto il baldacchino: L'avevo nel giardino E l'avrei dato e te. Ma i patti erano chiari: Un elefante a te E tu dovevi dare Un gatto nero a me.
Volevo un gatto nero, nero, nero, Mi hai dato un gatto bianco Ed io non ci sto più. Volevo un gatto nero, nero, nero, Siccome sei un bugiardo Con te non gioco più.
I patti erano chiari: L'intero zoo per te E tu dovevi dare Un gatto nero a me.
Volevo un gatto nero, nero, nero, Invece è un gatto bianco Quello che hai dato a me. Volevo un gatto nero, Ma insomma nero o bianco Il gatto me lo tengo E non do niente a te.