"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pensar Saramago


Pensar, Pensar
"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma". 

R
evista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008.


A notícia me pegou já tarde da sexta-feira. Aos 87 anos, faleceu Saramago. Fiquei triste. Porque a humanidade perde um grande pensador. Fiquei alegre, por ele ter deixado um legado em que podemos inspirar nosso pensamento.

Saramago sabia escrever e tinha o dom de falar e questionar a atualidade. Talvez a sabedoria dos anos, talvez a inquietude do Ser que nunca permitiu o apagar de sua chama. Morreu e não foi para o céu, visto que era ateu. Mas tenho certeza de que será recebido por Deus, pelos bons serviços prestados à humanidade.

Catorze de Junho

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.


Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os morangos que não mofaram

Outro dia eu e um amigo combinamos de comer manga ubá no quintal de minha casa. 

Será numa tarde com gosto de aula cabulada. Bem no meio da semana.

Ele vai chegar e tocar o sino que serve de campainha.
Melhor seria se pudesse chegar e ir entrando, anunciando-se ao som de palmas.

Antes que alguém me pergunte, as mangas, infelizmente, não nascem no meu quintal. Este é o trato. Eu entro com o lugar, ele com as mangas.
O tempo passou e ainda aguardo o dia desse encontro marcado. As agendas nem sempre permitem honrar compromissos importantes como estes. E a vida vai passando de janeiro a janeiro e cotidianamente adiamos a felicidade.


Na casa da minha avó a porta sempre estava entre aberta até o anoitecer. Até o dia em que roubaram um filtro de barro da casa vizinha e as chaves e trancas passaram a ter serventia em sua cidade.


Mesmo depois disso, o entra e sai de amigos era gostoso de se ver. Um dia, sem avisar, um primo chegou de carro trazendo um tucano que ganhara de um amigo. Tempos em que as leis do país não eram tão precisas quanto a guarda de animais silvestres.


Um dia era um tucano, no outro era um violeiro, era tanta gente que se chegava, trazendo frutas, feijão, galinha, ovos, e amizade.
E os verões eram mais alegres e os invernos mais acolhedores.


Outro dia meu amigo me ligou e me disse todo animado: vou promover a Festa do Morango em Alfredo Vasconcelos e eu, toda alegre com a notícia, logo emendei: então, já que não é tempo de manga, que venham os morangos.


Nesta deliciosa expectativa, fico esperando que o dia de fazer gazeta chegue logo, pois sei que nesta amizade não há o amargor dos morangos de Caio Fernando Abreu, mas apenas a correria das cidades grandes e das almas pequenas.

domingo, 6 de junho de 2010

Marítima


Para cada pessoa existe um refúgio especial. O meu é Paraty. 

Não bastasse toda a magia dos casarios do velho centro, Paraty ainda mantém a ousadia de ter como extensão de suas ruas as águas salgadas que vão além de onde a vista alcança.

Talvez o meu refúgio seja mesmo o mar com sua promessa de mil aventuras, sendo Paraty o meu cadinho de seguridade.

A primeira vez que lá estive, meu coração bateu forte, como se reconhecesse o lugar de toda a minha existência. Desde então, preciso deste ar de maresia mesclado com as tintas dos ateliês e das possibilidades inusitadas que surgem de suas linhas e teares.

Nas vielas, o som de um saxofone convive em harmonia com zamponhas, chocalhos e violas.

Quem é do mar não esconde
Pensamento flutua por entre a espuma branca
A mente um grão que germina
Mansitude, tempestade
Rebeldia, calmaria
Solidão, solitude.
Encontro de peles, temperatura alta
Sem pressa, sem hora, sem demora.
Completamente imersa.

De um lado o mar inebriante, do outro a mata com cenários de jaguatiricas, cachoeiras e alambiques.

Deixo minha Pasárgada com sentimento de amantes que se separam.
No coração o desejo ardente de um breve reencontro.

Parto como um marinheiro sem mar.
Sou um náufrago ao contrário.
Exilada de meu prazer maior, definho até a última gota de sal,
quando é tempo de regressar.




Alto Mar
Intérprete: Ceumar
Composição: Dante Ozzetti

Olhou o mar,
A imensidão,
Mas não desanimou
Deixou o cais
Na embarcação
Remou, remou, remou
Depois cansou
Mas ao tomar
A brisa em alto mar
Sentiu prazer e não voltou, jamais.
O humor do mar
Vigor do sal
O entra e sai
Do anzol
Água
Que deságua em água
Água
Tudo igual
E um barquinho pontual
Fez seu lar
Seu ninho lá
Sozinho ao léu
No chão do céu

Sol a sol
E a lua
Toda noite
Toda sua
Deu ao mar
O que é do mar
O dom de errar
O deus dará
Pau a pau
Pra quê lutar?
Seu lugar é o vão do bote
O mar não pode ali entrar

domingo, 23 de maio de 2010

Cittá Slow - O movimento do Caracol




Se você é um adepto dos grandes centros e amante do agito das metrópoles, com certeza está mais para a lebre da fábula infantil do que para a tartaruga.
Mas saiba que, em 1999, 32 cidades italianas e uma croata resolveram levar uma vida lenta de caracol. Confuso? Eu explico.
Imagine viver em uma cidade em que o número máximo de moradores permitidos é de 50 mil habitantes e onde a preocupação maior seja com a qualidade de vida.
Além do limite no número de moradores, esta cidade segue rigorosamente 55 princípios que valorizam e incentivo o consumo de produtos locais, a preservação do patrimônio histórico, a política ambiental, a sustentabilidade urbana, infra-estrutura, hospitalidade e senso de comunidade.

Nesta cidade, o coeficiente de aproveitamento para novas construções respeita, antes de tudo, o bem-estar de todos. Uma cidade ideal, onde as tecnologias de ponta são bem vindas, mas um lugar onde a identidade local é valorizada e preservada.

Antes da virada do século XXI nascia um movimento inspirado no slow food – aquele contrário à lógica das refeições rápidas próprias dos que passam a existência correndo atrás de tudo.

Passar por uma estrada e não observá-la é vazio. Quantas horas passamos ao lado de colegas de trabalho, colegas de academias de ginástica, vizinhos e parentes e nada deixamos, como nada levamos?

A Cittá Slow ou Slow City agrega pessoas que pensam que a vida vai além de um shopping center com lojas cheias de lugar comum, comidas rápidas com gosto de isopor e relações superficiais.

Essas pessoas prezam pelas tradições e acreditam que dar bom dia não é um mero padrão convencional de educação.

Essas cidades estão repletas de pessoas que resolveram levar a vida mais lentamente e dar mais utilidade e prazer aos seus dias neste planeta.

Rosiska Darcy Oliveira em seu livro Reengenharia do Tempo já me despertou o interesse pelo tema. Alguns meses após esta leitura, um amigo me intrigou ainda mais com a afirmação de que a próxima revolução da humanidade está na relação do espaço-tempo. E não é isto que vivenciamos cotidianamente na internet ?

Reengenharia do Tempo fala em suas entrelinhas da sociedade de consumo que transformou o tempo em mercadoria. Até aí nenhuma novidade, não fosse o fato da autora propor um debate sobre o sentido da vida e dar um cheque-mate no feminismo questionando a real necessidade da tripla jornada das mulheres.

Calma, a proposta não é dizer que queimar soutiens em praça pública não tenha sido uma boa idéia. Mas, após tantas conquistas, não seria o momento de repensar certos caminhos tanto para homens quanto para mulheres?

A organização do tempo é a exteriorização de um debate íntimo que começa a percorrer o imaginário coletivo.



San Potito Ponnitico

Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Espanha, Itália, Holanda, Noruega, Nova Zelândia, Reino Unido, Polônia, Portugal, Suécia, Suíça e Turquia. Estes são os países que já aderiram ao movimento.

No Brasil ele ganhou o nome de Bem-Viver e, até o presente momento, duas cidades buscaram certificação: Tiradentes, em Minas Gerais e Antônio Prado, no Rio Grande do Sul.


Tiradentes


Antônio Prado
Para se tornar uma Cittá Slow, a minha cidade teria que se dividir em várias, múltiplas. Então, para mim este sonho não é possível. Porém, acredito que, dos 55 requisitos, alguns poderiam ser considerados. Já seria um começo.










Para ser uma Cidade Caracol:





A. Política Ambiental: Prevê o controle da qualidade do ar, distribuição de águas,


poluição sonora, luminosa e eletromagnética; aplicação de novas tecnologias de


reciclagem; incentivo ao uso de fontes alternativas de energia; aplicação do regulamento EMAS ou ISO14000; participação na Agenda 21.


B. Política de Infra-estrutura: Presença de áreas verdes; arquitetura sem barreiras para deficientes; horários alternativos de acesso aos setores públicos e existência de plano de horários para o exercício comercial coerente com a exigência dos cidadãos; presença de um Relações Públicas (“URP” – Ufficio Relazioni con il Pubblico).


C. Qualidade Urbana: Restauração dos centros históricos e/ou obras de valor cultural e histórico; controle do uso de alarmes sonoros; controle do lixo e incentivo aos recicláveis;sensibilização para arquitetura biológica; existência de plano de desenvolvimento da cidade e programa de valorização dos centros históricos.


D. Valorização da produção autóctone: Censo da produção típica (no Brasil, poderíamos associar ao instrumento Registro Cultural), programa de valorização e conservação da manifestação cultural local; programa de sensibilização quanto à biotecnologia natural; proteção aos produtos e as manufaturas tradicionais da cidade.


E. Hospitalidade: Sinalização internacional; treinamento turístico; existência de um plano para o desenvolvimento de iniciativas coerentes com o movimento Cittaslow.


F. Informação: Difusão das atividades do movimento na mídia nacional; programa para facilitar a vida familiar, através do lazer, da assistência residencial a idosos e doentes crônicos; programa de aplicação dos requisitos.


Além das cidades Cittaslow, as empresas também podem se inscrever e certificar no movimento, cumprindo assim com requisitos peculiares ao porte e atividade empresarial desenvolvida, com alguns itens interessantes, como o cuidado com a qualidade do ambiente de trabalho e a opção, quando possível e desejado for, pelo Teletrabalho.





domingo, 16 de maio de 2010

Omnia transit


Há alguns meses ganhei um livreto de uma amiga. O texto, a transcrição de uma palestrar realizada em Madrid no ano de 1990. O autor, Jorge Angel Livraga Rizzi.

De toda a palestra, umas palavras me tocaram em especial e as transcrevo agora:
"As coisas materiais caem, se quebram e se vão. "Omnia transit", tudo passa, tudo caminha, tudo vai ao mar, como as águas dos rios. Tudo tem um destino.

As águas mais puras são aquelas que se golpeiam mais sobre as pedras, aquelas que caem em cascatas e arrebentam em grandes pompas de espuma branca;

as outras, as águas covardes, que ficam quietas em remanso, terminam por entrar em putefração e nenhum ser vivo pode nelas habitar".


Dê você a definição que quiser para destino. O fato é que tudo se esvai. E só faz sentido porque vivenciamos. Por vezes nos sentimos tristes pelas coisas não realizadas, sentimentos e vontades que parecem que ficaram suspensos no tempo. Mas isso também passa.


Há dias estou em estado de suspensão de sonhos. Não que eles não existam em minha mente, mas as águas andam meio paradas pelas bandas de cá. Ando em um estado latente, disperso. Contudo, já percebo uma pequena revolução emergindo em meu sangue.

E eu que sou amante dos rios, já procuro vontades de um mergulho profundo em cachoeiras barulhentas. O burburinho ainda é recatado. Ora cessa, ora desanda a me revolver. Sinto que a energia fugiu de mim, mas o simples ato de estar aqui novamente é sinal de recuperação.

Aos amigos, Ominia transit, acreditem.

sábado, 24 de abril de 2010

Uma pitada, apenas


E dos tempos imperiais herdamos o hábito de sentar-se à mesa e simplesmente quedar até o entardecer.

Até hoje, famílias de cidades pequenas mantêm o hábito de deixar a mesa posta do café da manhã para o almoço, do almoço para o lanche da tarde, em um sucessivo requinte gastronômico em que é preciso alimentar a prole como se fossem lobos esfomeados.

Recusar? Uma ofensa digna de confessionário. Dez Aves Marias e 30 Pai Nossos, no mínimo!

Cozinhar é fazer amor por dentro. Ouvi esta frase de um amigo carioca, para quem todo o problema do arroz estava nos mineiros. O arroz, dizia ele, foi feito para acompanhar os pratos. Mas aí vieram os mineiro e inventaram o arroz com alho. Bom, não sei se a invenção é das terras de Guimarães, mas o fato é que mineiro come arroz até com macarronada. E gosta.

E para fazer amor por dentro é preciso lavar bem as mãos e a alma, estar sem pressa. Sabedoria dos ciganos.

Ouvir uma boa música, tomar uma boa taça de vinho e, se você tiver a sorte de ter um pequeno canteiro de ervas, terá o privilégio de colher cada folha poucas horas antes do preparo do prato principal.

Cozinhar é um estado de espírito. Não gosto do dia-a-dia, gosto do extraordinário, da surpresa. Um dia acordo com gosto de tomate na boca e remexo minhas panelas.

O feitiço vai tomando forma e, de repente, você descobre que alecrim vai muito bem com carnes vermelhas, que não existe nada mais instigante do que a sabedoria mediterrânea de misturar manjericão com massas e que gengibre e peixes são almas gêmeas.

No canteiro da minha casa são poucos os que já saborearam meus temperos. É magia contida, porque o que muito se dissemina, perde a graça.

Não. Não é nada disso. É que a feiticeira aqui só cozinha em ano bissexto, ou quase isso.

E, quem tiver a sorte, pode chegar no dia em que o cheiro da cepa seja para mim inspirador, a porta vai estar aberta e você vai poder entrar.

Não muito se admire se te colocar uma faca não mão e umas batatas. Afinal, dividir o fogão é sempre mais delicioso.

domingo, 18 de abril de 2010

Surrealidade passageira


No final da década de 70, recém chegado a Paris, onde até hoje reside, Juarez Machado se inscreveu em um concurso de novos talentos na pintura, conquistando o primeiro lugar daquela mostra. Os críticos de arte parisienses trataram logo de classificar sua pintura: “Surge um promissor pintor surrealista”, apontaram diante do quadro vencedor que retratava pessoas andando de bicicletas e guarda-chuvas.

Mal sabiam eles que esta cena tão improvável era lugar comum das lembranças de infância do pintor na cidade de Joinville, Santa Catarina, onde as pessoas iam trabalhar nas fábricas de bicicleta e, nos dias de chuva, lançavam mão do artefato.

Juarez Machado é por si só um personagem inusitado. Mas a cena, revelada no programa Conexão Roberto D´Ávila, fez voltar minha mente para o que é possível a cada um. Conheço pessoas estranhas – leiam isso como pessoas que fogem ao padrão estabelecido – e confesso ter facilidade para compreender e penetrar no mundo desses seres fora de rotulações. Afinal, a normalidade é um parâmetro que varia de cultura, humor e clima.

Tudo está bem quando você está bem e quando nossos atos não ferem ninguém. Comer abacate com açúcar é algo possível, a priori, apenas no Brasil. E que mal há? E que delícia descobrir a famosa iguaria mexicana – o guacamole. Sombrancelhas verdes estão na moda? Eu dispenso, mas para alguém elas devem fazer um sentido enorme e remeter, quem sabe, a infância em alguma uma tribo indígena?

Não julgarás para não ser julgado, este deveria ser o 11° mandamento. Antes, prefiro me deliciar com a diversidade do planeta. Conhecimento oxigena a alma. Talvez o propósito deste blog seja para que eu possa extravasar minhas pequenas observações sobre o mundo e também um exercício de manter meu cérebro como uma antena captadora de novos aprendizados.

Espero continuar me deslumbrando e absorvendo olhares diferenciados de um mesmo tema e, desta forma, manter acesa a chama de prazer pela vida. E se por acaso meu novo amigo usar um piercing esquisito, minha bagagem histórica não me permite achar que esta seja uma descoberta fantástica da humanidade, mas não me afastarei deste novo personagem que, tenho certeza, traz consigo outras e mais interessantes habilidades.

Afinal, estranho, são os outros.