"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

sábado, 17 de julho de 2010

As cidades e seus lugares secretos

Os sites na internet estão repletos de dicas de onde devemos ir quando conhecemos uma nova cidade.  

O roteiro para as melhores compras, os mais saborosos restaurantes, tudo devidamente rastreado para cada tipo de gosto.

Isto garante uma boa estadia em qualquer lugar, não há dúvidas. Mas onde fica o espaço para o improviso?

Sabe aquele gosto de burlar a fila da excursão, fugir do grupo e descobrir sozinho aquele restaurante tailandês? Fazer uma caminhada e, de repente, deparar com aquela cachoeira que não consta no mapa da reserva?

A melhor parte da viagem é o desbravamento, é sentir-se como os antigos navegadores ou como um bandeirante saído dos livros de história.

A tequila sorvida de um bar mexicano enfronhado numa rua sem saída de um bairro inglês, o anúncio de Vende-se Cuscuz, pregado em uma casa solitária do subúrbio de Curitiba.

Cada cidade, por menor que seja, tem seu encantamento e, se estamos abertos a ela, ela te mostrará um labirinto de possibilidades.

Recantos ardilosos, singelos, sujos, sombrios, sofisticados, acolhedores, lugares onde podemos nos sentir em um centro cosmopolita ou perdidos no meio da poeira de uma cidadezinha esquecida pelo censo do IBGE e pelas antenas de telefonia. 

Não importa qual, esses lugares podem transformar nosso DNA humano.

Ando cansada de viagens programadas. Jogo minha moeda na fonte mais próxima na esperança de que caminhos inusitados me sobressaltem.

domingo, 11 de julho de 2010

A travessia do Rubicão

No ano 49 a.C. precisamente no mês de janeiro, Caio Júlio César tomou uma decisão que mudou para sempre os caminhos de Roma. Alea jacta est. O curso d´água marcava a divisa entre a província da Gália Cisalpina e o território da cidade de Roma (posteriormente, a província da Itália). Uma vez percorrido o Rubicão, Júlio César sabia que não teria volta. Foi uma declaração de guerra civil contra Pompéia, que detinha poder sobre Roma.

E a sua coragem lhe rendeu o que viria a ser o Império Romano

Atravessar o Rubicão é uma metáfora de se lançar ao desconhecido com vigor e sedento de novas conquistas. A passagem do Rubicão é usada para exemplificar as mudanças que acontecem com crianças aos nove anos de idade.

Por volta desta época, a criança começa a ver pai e mãe não mais como exemplos da perfeição idolatrada, mas seres imperfeitos, não tão bonitos, não tão absolutos.

E aí dá aquele medo do desconhecido, aquela vontade de voltar a dormir na cama dos pais e não ter que se preocupar com absolutamente nada, ao mesmo tempo em que somos tomados por uma curiosidade eterna que nos impulsiona a seguirmos o nosso curso. Alea jacta est.

Mas não é só no universo infantil que vencemos o Rubicão. Por quantas vezes em nossa existência realizamos essas travessias?

Mergulhar no improvável é uma essência da alma humana.
Existe uma fase da vida ainda mais instigante, quando nos permitimos mergulhar novamente em águas já conhecidas, contudo com um olhar totalmente inusitado.
 


E simplesmente você se dá conta de que ipês amarelos florescem no inverno, o que torna esta estação do ano mais afável. E que o céu é de um frio azul, mesclado com um carmim dissoluto em uma névoa distante. Nas estradas, a poeira e o intenso vermelho das queimadas.

E nesta minha sexta travessia, músicas esquecidas nas gavetas apuram seus tons e antigos poetas pedem para serem revisitados.

Com certeza já não mergulho neste rio tão afoita como a menina de outrora, porém, o olhar das (re)descobertas forjam em mim sentimentos mais profundos que me permitem alcançar a outra margem com uma singularidade silenciosa.
 

Eternidade


Enquanto criava letras, observava os pássaros
Enquanto lavava a louça, observava os pássaros
Enquanto buscava lenha, observava os pássaros
Lia, observando os pássaros
Chorava, brigava, sorria, amava.
Um dia virou pássaro e avôou.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Pimentas

Dedo-de-moça, malagueta, rosa, do reino, calabresa, branca, cambuci, chili, cumari, habanero, de bode, de cheiro, jalapeno, tabasco. Escolha a pimenta melhor para cada ocasião e tempere a sua vida.

Sim, tempere a vida. Não existe vida sem um tempero mágico, especial, marcante e, acima de tudo, original. O segredo de um bon vivant é que sempre mistura o azedume de uma situação com uma boa pimenta, que faz toda a diferença na sua existência

Descobrir esta receita não basta. É preciso praticá-la. Na primeira vez que fiz terapia aprendi que ninguém faz nada para nós, nós é que damos a medida para que os acontecimentos nos absorvam, ou não. 

Até o momento não precisei demasiado de novos encontros com psicólogos, embora ache que sejam extremamente salutares.

Saber o limite da entrega ao bom vinho e do dia propício à abstinência é uma arte da alquimia que persigo alcançar.

Por vezes dá certo, em outras circunstâncias deixo meus dias completamente sem pimenta. Outros, seguem demasiadamente apimentados, o que me obriga a dias e dias absorvendo água e apagando incêndios provocados.

Entre as vontades de bater com a cabeça na parede e de me achar a mais sábia das criaturas terrestres, vou tentando me lembrar do quanto um bom tempero é essencial. Particularmente, digo que estou bem longe da perfeição ou da santidade, mas precisamente em harmonia com a vontade de ser feliz.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pensar Saramago


Pensar, Pensar
"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma". 

R
evista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008.


A notícia me pegou já tarde da sexta-feira. Aos 87 anos, faleceu Saramago. Fiquei triste. Porque a humanidade perde um grande pensador. Fiquei alegre, por ele ter deixado um legado em que podemos inspirar nosso pensamento.

Saramago sabia escrever e tinha o dom de falar e questionar a atualidade. Talvez a sabedoria dos anos, talvez a inquietude do Ser que nunca permitiu o apagar de sua chama. Morreu e não foi para o céu, visto que era ateu. Mas tenho certeza de que será recebido por Deus, pelos bons serviços prestados à humanidade.

Catorze de Junho

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.


Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os morangos que não mofaram

Outro dia eu e um amigo combinamos de comer manga ubá no quintal de minha casa. 

Será numa tarde com gosto de aula cabulada. Bem no meio da semana.

Ele vai chegar e tocar o sino que serve de campainha.
Melhor seria se pudesse chegar e ir entrando, anunciando-se ao som de palmas.

Antes que alguém me pergunte, as mangas, infelizmente, não nascem no meu quintal. Este é o trato. Eu entro com o lugar, ele com as mangas.
O tempo passou e ainda aguardo o dia desse encontro marcado. As agendas nem sempre permitem honrar compromissos importantes como estes. E a vida vai passando de janeiro a janeiro e cotidianamente adiamos a felicidade.


Na casa da minha avó a porta sempre estava entre aberta até o anoitecer. Até o dia em que roubaram um filtro de barro da casa vizinha e as chaves e trancas passaram a ter serventia em sua cidade.


Mesmo depois disso, o entra e sai de amigos era gostoso de se ver. Um dia, sem avisar, um primo chegou de carro trazendo um tucano que ganhara de um amigo. Tempos em que as leis do país não eram tão precisas quanto a guarda de animais silvestres.


Um dia era um tucano, no outro era um violeiro, era tanta gente que se chegava, trazendo frutas, feijão, galinha, ovos, e amizade.
E os verões eram mais alegres e os invernos mais acolhedores.


Outro dia meu amigo me ligou e me disse todo animado: vou promover a Festa do Morango em Alfredo Vasconcelos e eu, toda alegre com a notícia, logo emendei: então, já que não é tempo de manga, que venham os morangos.


Nesta deliciosa expectativa, fico esperando que o dia de fazer gazeta chegue logo, pois sei que nesta amizade não há o amargor dos morangos de Caio Fernando Abreu, mas apenas a correria das cidades grandes e das almas pequenas.

domingo, 6 de junho de 2010

Marítima


Para cada pessoa existe um refúgio especial. O meu é Paraty. 

Não bastasse toda a magia dos casarios do velho centro, Paraty ainda mantém a ousadia de ter como extensão de suas ruas as águas salgadas que vão além de onde a vista alcança.

Talvez o meu refúgio seja mesmo o mar com sua promessa de mil aventuras, sendo Paraty o meu cadinho de seguridade.

A primeira vez que lá estive, meu coração bateu forte, como se reconhecesse o lugar de toda a minha existência. Desde então, preciso deste ar de maresia mesclado com as tintas dos ateliês e das possibilidades inusitadas que surgem de suas linhas e teares.

Nas vielas, o som de um saxofone convive em harmonia com zamponhas, chocalhos e violas.

Quem é do mar não esconde
Pensamento flutua por entre a espuma branca
A mente um grão que germina
Mansitude, tempestade
Rebeldia, calmaria
Solidão, solitude.
Encontro de peles, temperatura alta
Sem pressa, sem hora, sem demora.
Completamente imersa.

De um lado o mar inebriante, do outro a mata com cenários de jaguatiricas, cachoeiras e alambiques.

Deixo minha Pasárgada com sentimento de amantes que se separam.
No coração o desejo ardente de um breve reencontro.

Parto como um marinheiro sem mar.
Sou um náufrago ao contrário.
Exilada de meu prazer maior, definho até a última gota de sal,
quando é tempo de regressar.




Alto Mar
Intérprete: Ceumar
Composição: Dante Ozzetti

Olhou o mar,
A imensidão,
Mas não desanimou
Deixou o cais
Na embarcação
Remou, remou, remou
Depois cansou
Mas ao tomar
A brisa em alto mar
Sentiu prazer e não voltou, jamais.
O humor do mar
Vigor do sal
O entra e sai
Do anzol
Água
Que deságua em água
Água
Tudo igual
E um barquinho pontual
Fez seu lar
Seu ninho lá
Sozinho ao léu
No chão do céu

Sol a sol
E a lua
Toda noite
Toda sua
Deu ao mar
O que é do mar
O dom de errar
O deus dará
Pau a pau
Pra quê lutar?
Seu lugar é o vão do bote
O mar não pode ali entrar