"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Crianças necessárias

Uma relação de pais e filhos construída pelo significado do gesto
Outro dia assistia uma palestra na escola do meu filho, onde também estava presente minha mais nova amiga, Nina Veiga. E foi dela que ouvi pela primeira vez a expressão crianças necessárias. 


O termo foi a melhor definição encontrado por Nina para descrever o envolvimento da criança no contexto familiar. 


Responsável por cursos de formação de professores e cursos de acolhimento para pais, Nina desenvolve estudos sobre a participação efetiva da criança nas tarefas diárias do mundo que a cerca.


Após a segunda guerra, as crianças começaram a ser percebidas de outra maneira em seus lares. Pela primeira vez elas foram ouvidas.


Dentro deste cenário, a humanidade iniciou um processo de valorização e de preservação da infância. Assim, o combate ao trabalho infantil passou a ser um dos pilares dessa nova visão de mundo. 


“A educação pedagógica está se especializando na infância, tendo esta fase como um momento importante do ser. Porém, tudo tem o seu efeito colateral. Não sabemos como lidar com esta criança”. 


Para a educadora, o cuidar da infância nos dias de hoje resumiu-se ao entretenimento do tempo infantil. “Não podemos preencher a vida de alguém, se esse preenchimento não tiver um sentido, um significado do ato”.




Ou seja, colocar o seu filho em aula de inglês, informática, judô, balé e futebol é realmente preencher a vida dele? Ou será que estamos apenas cumprindo agendas para ocupar nossos filhos enquanto fazemos coisas mais importantes e não sabemos o que fazer efetivamente com eles dentro do nosso tempo?


Qual é realmente o papel desta criança dentro da família?


Minha mãe, uma senhora de quase 77 anos, diz que proibir crianças de trabalharem é uma coisa muito burra. E aí vem todo o discurso de que ela cresceu trabalhando e que por isso ela aprendeu a gostar.


E não é que ela está certa? Aqui ninguém vai fazer apologia ao trabalho infantil em canaviais ou de vender balas nas esquinas. Mas e o trabalho dentro de casa, dentro do contexto familiar?




Colocar um caixote na beira da pia para que seu filho lave a louça enquanto você faz o almoço pode ser uma experiência muito gratificante para ambos.


E o que dizer da alegria indescritível de ver seu filho fazendo pequenos consertos com o pai ou fazendo um caramanchão no quintal?




Crianças aprendem com a imitação. E com o significado do gesto. É outra coisa que Nina me exemplificou muito bem quando conversamos. 


Imagine agora que você está me vendo sentada em uma cadeira olhando para frente. O que eu estaria fazendo? Lendo um livro? Assistindo TV? Checando e-mails? Não é possível decifrar, não é mesmo?








E agora, se eu estiver mexendo os braços como a varrer ou a pintar ou fazendo a massa de um bolo? Mais fácil imitar esse gesto, não?





O que a revolução pós Segunda Guerra nos ensinou é a preciosidade da infância. Agora, vemos uma adolescência e uma juventude com um sentimento de não pertencimento familiar. 


Nós pais as ensinamos a ficar distantes porque não eram necessárias. E agora, quem não é mais necessário?


A maternidade nos ensina a duras penas que precisamos ceder. E como cedemos. Não é mais todo programa que podemos participar, quantos livros abrimos mão de ler, quantos filmes, quantas conversas.


Porém, os filhos não enxergam esses gestos. Eles enxergam às vezes que sentamos ao chão e brincamos com eles, os livros que lemos juntos, as vezes que andamos de bicicleta junto com eles, quando costuramos ou bordamos uma roupa especial para uma fantasia.







Ou seja, quando ocupamos o nosso tempo com o tempo deles em um tempo de vida viva juntos.


O que precisamos é reaprender a curtir cada momento no seu tempo, para preencher as nossas vidas e as vidas de nossos filhos de boas e eternas lembranças.



sábado, 11 de dezembro de 2010

Desconectada.com

Retrato da ansiedade

Entra ano e sai ano é a mesma correria.

Recebi um e-mail de uma amiga outro dia, dizendo que este consumismo desenfreado típico do fim de ano é coisa do demo para nos afastarmos do verdadeiro espírito de Natal. Sabe de uma coisa, eu não duvido.

Mas por eu estar na estatística dos 2 % da população mundial para quem comprar apenas pelo prazer do consumo não está com nada, ainda me resta vivenciar toda a inquietação do que chamo de “Sídrome do 31 de dezembro”.


Até lá, todos os relatórios devem ser devidamente preenchidos, todos os projetos finalizados, confirmar a participação em inúmeros amigos-ocultos, confraternizações e etc e tal.

Este ano não está sendo diferente. E, no ramo em que atuo, eu não só participo de muitas confraternizações, mas as organizo.


Não que eu não goste do que eu faço.  Porém, só neste mês, a lista de afazeres inclui:

- um culto ecumênico
- uma missa
- um vídeo
- dois tipos de cartões para serem devidamente etiquetados e enviados
- brinde de fim de ano
- festa beneficente
- árvores para arrecadação de brinquedos em agências bancárias da cidade
- tudo isso com a devida divulgação e cobertura de texto e de foto 
- encerrando a temporada com um informativo interno.

Bacana né? Eu adoro. Gosto mesmo. Mas cansa.

E sei que não sou privilegiada neste festival de ansiedade. Em todos os empregos, em todos os lares, os relógios enlouquecem e correm como loucos.


E tudo o que eu queria era ficar em casa com os meus, deixar os pés descalços neste calor dos trópicos, tomar algo refrescante e ouvir uma boa música.

Por isso há dias tento não ligar o computador na minha casa, tento não falar ao telefone e só ligo a TV para o noticiário da manhã. É uma espécie de exílio de sobrevivência. 


Precisei ficar exilada até das coisas que mais gosto, como este blog e dos blogs dos amigos, para preserva a minha vida particular e dar a devida atenção à família.

Bom, acho que este é o verdadeiro espírito de Natal, não é mesmo?

Para exemplificar o que estou querendo dizer (embora tenha a absoluta certeza de que não seja preciso, mas fica apenas como um aconchego poético), cito Adélia Prado:

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo
.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Minha idéia é meu pincel - A festa do boi manhoso

Antônio Poteiro - Bumba-Meu-boi

- Meu boi, meu boi, vamos dançar?
- Dançar na chuva?
- Aí é que é bom.
- Tem muita gente.
- Eu gosto de gente. Gente colorida, alegre.
- Gente sem dente, gente mal vestida.
- Meu boi, meu boi, essa gente, é o nosso povo! Sou eu, sou você.
- Eu não! Eu sou Rei!
- Você, meu querido, é rei deste povo!
- Gosto não. Crianças remelentas ficam ralando a mão em mim
- Mas te enfeitam com flores, brocados de ouro, manto dourado a te cobrir    
   com capricho.
- E esses jacarés, o que fazem na minha festa?
- São seus guardiões, meu Rei!
- Tem violeiro?
- Um montão.
- Então eu vou. Só porque gosto de música.


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Este quadro me deu imenso prazer em descrevê-lo. Salve mestre Poteiro! A mistura de costumes da tradição oral vindas das terras lusitanas, unidas à realidade brasileira de negros e índios, nos deixa como herança este colorido. Um retrato da nossa cultura formada de tantos povos, traduzida nas ruas de tantas cidades. Minha ideia é meu pincel. Quer participar? Vá ao blog da Glorinha de Lion e entre nesta brincadeira!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Minha idéia é meu pincel - Frida Kahlo

Frida Kalo - Auto-retrato

Este é meu retrato. Homem e mulher.

Personagem andrógeno, um enigma.

Mas, não. Não perca tempo tentando me desvendar.


Entre as matas intransponíveis deste meu antigo México, também sou eu indecifrável.

Sou muitas, sou muitos, sou mito transgressor.

Mergulho em uma realidade fantástica.


Para os outros.


Para mim, tudo o que me cerca é passível da mais pura verdade.

Em perfeita harmonia declaro amor eterno à irreverência.

A normalidade do meu ser é não ter parâmetros que me reduza.

Adoro meu mundo caótico e pragmaticamente imprevisível.

Dentro do meu universo inventado, tudo percorre na mais perfeita desordem.

Auto-retrato.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Infinitudes

Evoco o dicionário em nome da sonoridade que algumas palavras me provocam

Gozo, sorver, parideira, alumiar, cortesã, febre terçã, afago,chamego,fagueira 
provar, gotejar, orvalho, botica, patuá, à lenha, riacho, tacho, caritó, aluada, aroma, manjerona, cromático, bica d´água, pororoca, iguapé, pirilampo, potiguá, pimenteira, incrustado, costados, arrecifes, marola, ventarola, piquenique, argumento, sinfônica, beijo, opaco, conta-gotas, bergamota, laranja-cravo, tangerina, santidade, pecadora, açucarada, apimentada, doce, esguia, pincelada, avoada, amendoeira, corredeira, abricó, pharmácia, tortilha, serena, perdigueira.

É com gosto que permito que saiam de minha mente, um cortejo harmônico, promovem uma corredeira de emoções, evocam sentidos. Um bem-falar, um bem-me-quer. 

O experimento da letra acaricia meus desejos, aquieta o coração. Às vezes penso, teria eu um caminho diferente do que tecer parágrafos para todo o sempre? O ato de escrever me é dolorosamente inerente.

Oratio vultus animi est, "O discurso é o rosto da alma"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Minha idéia é meu pincel - Mulheres azuis

Edgar Degas Les Danseuses Bleues
Elas eram todas iguais.
Sensualmente iguais
Sensualmente azuis

Corpos esguios
Peles sedosas

Cabelos presos em delicados e irretocáveis coques
Como convêm aos mais belos corpos de baile

Ousadia de olhares
Precisão de movimentos

Desprovidas de vergonhas
Despidas de vontades

Apenas azuis

Perfeitamente intocáveis
Perfeitamente inatingíveis

Como convém a um corpo de baile

Após o espetáculo, a menina que nunca suportou a mesmice do rosa,
Bordou um rosado em seu tule e sai para o mundo

Desfrutando o prazer de ser curva, desengonçada, autenticamente mulher.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dias de colheita

Minha relação com a água já ficou evidente por aqui.
Mas tenho que dizer. De tanta chuva, estou de alma renovada.

Há muitos anos passei por um momento profissional difícil.
Era aquele tempo em que estamos no começo de carreira e precisamos provar a todo instante a nossa capacidade.

Nesta época, falava sempre para mim mesma: o mundo gira e a lusitana roda. Este era o meu mantra de todos os dias e de todas as horas.

Não sei bem o significado dessa expressão, mas soa como dizer, tudo muda, tudo passa. E passou.

Estes dois últimos anos também têm sido de muita indefinição no meu cotidiano.


Tanto que, não tendo muito por onde extravasar, vim parar aqui na blogosfera.

Escrever, então, era como se eu abrisse uma janela no 15º andar de um prédio e gritasse para todo mundo minhas angústias e dissabores.

E veio o período das chuvas e com ele a renovação dos meus caminhos e desejos.


De repente, vários sonhos guardados na gaveta começam a ganhar força e todo o universo conspirar a meu favor.

Ainda existem muitas angústias sem respostas, mas algumas coisas lindas começam a se concretizar.

E eu fico pensando, como somos pessoas de pouca fé. Não, não a fé religiosa, mas a fé no pensamento. Fé no plantar e no colher.

É impressionante como tudo que mentalizamos ganha contorno e sentido. Às vezes não do jeitinho que imaginávamos, mas, de repente, o que pensávamos ser impossível, se realiza.

Esta colheita de vontades demora. Até porque o nosso querer também demora a ser compreendido e por nós mesmos confirmado.

O mundo gira, a lusitana roda. Quando não encontramos mais saída, devíamos sempre pensar assim. Mas quem em pleno olho do furacão pode ser tão sensato?!

E, para falar a verdade, como é bom esse desespero pujante de vida.
É como briga de amor, quando se resolve.

Hoje estou em dias de nuvens brancas e suaves. Dançando e brindando meus dias de trégua.