"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Telhado de vidro e os guardiões da alma



Há dias em que a angústia pela vida não vivida me abala terrivelmente. 

Tenho me pego assim por muitas vezes, com uma nostalgia do que não me permiti e não me permito ser. 

Nem sempre consigo ser tão otimista, embora saiba perfeitamente que este estado de espírito dependa exclusivamente do meu olhar sobre os acontecimentos.

Ver na varanda o orvalho escorrendo das árvores nem sempre me mata a sede, por vezes me aguça, por vezes me desfalece. 

Excesso de paz deprime, o que me leva a ter uma imagem não tão fascinante do céu.

Quando menina, sonhei em ser monja e viver para sempre ao som de cantos gregorianos. Aí conheci Rolling Stones e tudo mudou. 

Percebi que a paz precisa ser abalada de vez em quando.

Então invento moda de domingo, troco móveis de lugar, saio sem rumo, mudo trajetos e exorcizo rotinas.

Não dá para segurar a vida sendo totalmente sã. 

Não dá para ser normal na normalidade.

É preciso me perder para me reencontrar.









sábado, 15 de janeiro de 2011

Dias tristes





Não há palavras para dizer o quanto ando triste esses dias.

Quando menina, a estação mais esperada era a estação das férias, o que para quem mora abaixo da linha do Equador significa o Verão.

Um verão festivo dividido entre praias cariocas e a casa da avó no interior de Minas Gerais.

Também me recordo da chuva. Algumas muito fortes e que causavam mortes.

Mas não me recordo de verões com tantos enterros.

Me recordo de outras campanhas de solidariedade – inúmeras.


E também me lembro - com muito pesar - de descarados desvios de dinheiro, de roupas e de mantimentos promovidos por homens cuja moral é tão curta quanto a memória dos eleitores de nosso país.

Outro dia mesmo ouvi um rapaz dizendo que não compreendia como algumas pessoas se preocupavam em salvar baleias mesmo morando em cidades onde se quer existe um mar.


Quer saber, não dei resposta alguma. Qualquer argumentação me pareceu inútil para conversar com alguém tão raso de compreensão da coletividade.

Mais uma vez a solidariedade humana irá ajudar a reerguer centenas de famílias.


E com tal ambudância de amor e provimentos que milhares deles serão usurpados de seu nobre destino. (Acreditem em mim, alguns comprimidos para dormir fariam toda a diferença nesta cesta-básica.).

Mas isso na verdade não importa. Importante é o ato solidário que salva. O ato de coletividade.

E mais uma vez seguimos à reboque dos acontecimentos.

A chuva, as encostas, os desmatamentos, os asfaltos, os bueiros, as leis permissivas que possibilitam a regularização de construções irregulares, os coeficientes de construção modificados contribuindo para o densamento urbano, o dinheiro.


E depois, apenas as lágrimas. Os mortos. A vida interrompida.


Para ajudar os desabrigados da região serrana no Rio de Janeiro


Para ajudar os desabrigados da região serrana em São Paulo


Fotos: Portal Terra e G1

sábado, 8 de janeiro de 2011

O menino do final do beco


Franzino e de olhos assustados,

Ele não fazia parte do time da rua, 

não tinha bolinhas de gude e não subia em árvores.

Nunca molhou os pés nas poças formadas pelas chuvas.

Eu me encontrava com ele todos os dias na padaria no final da tarde.

Eu comprando pão. Ele balas.

Eu esperava um sorriso. Ele sempre distante.

Um dia o menino chegou não tão menino.

Tinha um jeito diferente e pela primeira vez ousou me olhar.

Senti sua respiração em meus cabelos enquanto falava comigo.

Não sei o que ele disse, nem me lembro o que respondi. 

Apenas repeti palavras desconexas.

O menino sorrindo,

O sorriso dourado.

Levei três meses, quatro dias e cinco noites 
para ter coragem de olhá-lo novamente.

Levamos seis anos, oito meses e sete dias para nos falarmos.

Então, começou a chover. 

E com pés descalços, descemos a Rua Direita de mãos dadas.

Crescer, às vezes, leva tempo. Às vezes, nunca acontece.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ano Novo de novo

Feliz 2011

E com suas mãos pequenas enroscada nas minhas,
me conduz até seu esconderijo secreto e me mostra sua mais nova invenção.


Ela, a máquina, era composta de um relógio do Bem 10, fixado em uma bancada de madeira com uma ampulheta de brinquedo cuidadosamente equilibrada no relógio.


Funciona assim: Ele aperta o relógio, vira e equilibra a ampulheta. A areia desce para a outra extremidade ao som do pequeno relógio alienígena.


Que legal! Digo, realmente encantada com a sua criatividade. O que essa máquina faz? Há, faz mil coisas!!!


E eu fico a imaginar com seria bom uma máquina de fazer mil coisas. 


E, como é ano novo, me pego pensando na lista de mil desafios que me proponho todos os anos e das quais me despeço antes que o ano acabe. 


Não porque eu seja indisciplinada, mas simplesmente porque me dá preguiça fazer planos tão longos.



De repente me vejo com lápis na mão planejando 2011. Mas dessa vez de uma maneira (inovadora??). 


Escrevo apenas três desafios a serem cumpridos até junho: Emagrecer, é óbvio que este seria o primeiro item desta lista feminina; aprender a meditar e aprender a andar de bicicleta.


Ganhei uma bicicleta neste Natal. Papai Noel não está atrasadinho, ganhei a primeira aos oito anos de idade em um concurso na minha escola, mas minha mãe a vendeu com medo de eu me machucar. Nunca aprendi. 


O dinheiro da bicicleta foi usado para comprar malas para minha primeira viagem fora do Brasil.


Meu filho deu a idéia: Pai, vamos comprar uma bicicleta de Natal para a mamãe? 


E agora não tem jeito, vou ter que aprender ou ouvir gozação o resto da vida.


Então, eis-me aqui neste início de ano fazendo promessa. 


Não vou planejar mais do que dependa apenas de mim. 


A vida anda me ensinando que planos que envolvem terceiros podem se tornar totalmente imprevisíveis.


Vou seguindo o curso do rio, sem muitas expectativas. Apenas com alguns sonhos bem guardadinhos e semeados. Estes eu não conto, ainda.


E volto a pensar na máquina de fazer mil coisas. 


Aquela que não está à venda pelo Shop Time, mas que construímos dentro do peito e ressurge a cada janeiro.





quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

De onde eu advenho?


Nesta época do ano reza a tradição que haja troca de presentes e que promovamos infindáveis encontros comemorativos. Mas o que bem comemoramos nesses dias? 


A sobrevivência de mais um ano? Um pacote de promessas pela paz mundial, que ela realmente venha a partir de primeiro de janeiro como um passe de mágica? 


Buscando um pouco além da boa cerveja gelada e do indispensável panetone, o que fica para você, meu amigo? Uma sensação de dever cumprido no ano que se finda? 


Espero, profundamente, que sim.  Que este seja um momento para você se orgulhar de tudo o que fez em seu ano, mesmo que nem tudo tenha saído do jeito que você gostaria. 


O mais importante é a sua postura diante dos momentos que atravessou.


Para os religiosos, estamos vivenciando os dias que antecedem o advento, a vinda do Cristo. 


Aquele que trouxe até o mundo ocidental a promessa de amor ao próximo, a idéia do perdão e de ser perdoado. 


E você, de onde você advém? Como anda exercitando este amor e este perdão?


Em nossas limitações sensoriais, carnais e emotivas, cada um de nós temos lá o nosso bocado de bons momentos.


Todos nós temos nossas virtudes que merecem ser destacadas e valorizadas. 


E temos os nossos defeitos que merecem ser trabalhados e superados em nome das nossas virtudes. 


Para que o que há de melhor em nós possa sempre ser mais evidenciado do que nossas atitudes não tão santas. 


Não para que sejamos apontados com bons meninos e boas meninas, mas para que possamos ver nascer em nós um sentimento sincero de pertencimento à humanidade.


E quero deixar esta diferença marcada pelo sentimento, aquele, que um dia, declamou Adélia Prado:


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Um feliz Natal !

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Crianças necessárias

Uma relação de pais e filhos construída pelo significado do gesto
Outro dia assistia uma palestra na escola do meu filho, onde também estava presente minha mais nova amiga, Nina Veiga. E foi dela que ouvi pela primeira vez a expressão crianças necessárias. 


O termo foi a melhor definição encontrado por Nina para descrever o envolvimento da criança no contexto familiar. 


Responsável por cursos de formação de professores e cursos de acolhimento para pais, Nina desenvolve estudos sobre a participação efetiva da criança nas tarefas diárias do mundo que a cerca.


Após a segunda guerra, as crianças começaram a ser percebidas de outra maneira em seus lares. Pela primeira vez elas foram ouvidas.


Dentro deste cenário, a humanidade iniciou um processo de valorização e de preservação da infância. Assim, o combate ao trabalho infantil passou a ser um dos pilares dessa nova visão de mundo. 


“A educação pedagógica está se especializando na infância, tendo esta fase como um momento importante do ser. Porém, tudo tem o seu efeito colateral. Não sabemos como lidar com esta criança”. 


Para a educadora, o cuidar da infância nos dias de hoje resumiu-se ao entretenimento do tempo infantil. “Não podemos preencher a vida de alguém, se esse preenchimento não tiver um sentido, um significado do ato”.




Ou seja, colocar o seu filho em aula de inglês, informática, judô, balé e futebol é realmente preencher a vida dele? Ou será que estamos apenas cumprindo agendas para ocupar nossos filhos enquanto fazemos coisas mais importantes e não sabemos o que fazer efetivamente com eles dentro do nosso tempo?


Qual é realmente o papel desta criança dentro da família?


Minha mãe, uma senhora de quase 77 anos, diz que proibir crianças de trabalharem é uma coisa muito burra. E aí vem todo o discurso de que ela cresceu trabalhando e que por isso ela aprendeu a gostar.


E não é que ela está certa? Aqui ninguém vai fazer apologia ao trabalho infantil em canaviais ou de vender balas nas esquinas. Mas e o trabalho dentro de casa, dentro do contexto familiar?




Colocar um caixote na beira da pia para que seu filho lave a louça enquanto você faz o almoço pode ser uma experiência muito gratificante para ambos.


E o que dizer da alegria indescritível de ver seu filho fazendo pequenos consertos com o pai ou fazendo um caramanchão no quintal?




Crianças aprendem com a imitação. E com o significado do gesto. É outra coisa que Nina me exemplificou muito bem quando conversamos. 


Imagine agora que você está me vendo sentada em uma cadeira olhando para frente. O que eu estaria fazendo? Lendo um livro? Assistindo TV? Checando e-mails? Não é possível decifrar, não é mesmo?








E agora, se eu estiver mexendo os braços como a varrer ou a pintar ou fazendo a massa de um bolo? Mais fácil imitar esse gesto, não?





O que a revolução pós Segunda Guerra nos ensinou é a preciosidade da infância. Agora, vemos uma adolescência e uma juventude com um sentimento de não pertencimento familiar. 


Nós pais as ensinamos a ficar distantes porque não eram necessárias. E agora, quem não é mais necessário?


A maternidade nos ensina a duras penas que precisamos ceder. E como cedemos. Não é mais todo programa que podemos participar, quantos livros abrimos mão de ler, quantos filmes, quantas conversas.


Porém, os filhos não enxergam esses gestos. Eles enxergam às vezes que sentamos ao chão e brincamos com eles, os livros que lemos juntos, as vezes que andamos de bicicleta junto com eles, quando costuramos ou bordamos uma roupa especial para uma fantasia.







Ou seja, quando ocupamos o nosso tempo com o tempo deles em um tempo de vida viva juntos.


O que precisamos é reaprender a curtir cada momento no seu tempo, para preencher as nossas vidas e as vidas de nossos filhos de boas e eternas lembranças.



sábado, 11 de dezembro de 2010

Desconectada.com

Retrato da ansiedade

Entra ano e sai ano é a mesma correria.

Recebi um e-mail de uma amiga outro dia, dizendo que este consumismo desenfreado típico do fim de ano é coisa do demo para nos afastarmos do verdadeiro espírito de Natal. Sabe de uma coisa, eu não duvido.

Mas por eu estar na estatística dos 2 % da população mundial para quem comprar apenas pelo prazer do consumo não está com nada, ainda me resta vivenciar toda a inquietação do que chamo de “Sídrome do 31 de dezembro”.


Até lá, todos os relatórios devem ser devidamente preenchidos, todos os projetos finalizados, confirmar a participação em inúmeros amigos-ocultos, confraternizações e etc e tal.

Este ano não está sendo diferente. E, no ramo em que atuo, eu não só participo de muitas confraternizações, mas as organizo.


Não que eu não goste do que eu faço.  Porém, só neste mês, a lista de afazeres inclui:

- um culto ecumênico
- uma missa
- um vídeo
- dois tipos de cartões para serem devidamente etiquetados e enviados
- brinde de fim de ano
- festa beneficente
- árvores para arrecadação de brinquedos em agências bancárias da cidade
- tudo isso com a devida divulgação e cobertura de texto e de foto 
- encerrando a temporada com um informativo interno.

Bacana né? Eu adoro. Gosto mesmo. Mas cansa.

E sei que não sou privilegiada neste festival de ansiedade. Em todos os empregos, em todos os lares, os relógios enlouquecem e correm como loucos.


E tudo o que eu queria era ficar em casa com os meus, deixar os pés descalços neste calor dos trópicos, tomar algo refrescante e ouvir uma boa música.

Por isso há dias tento não ligar o computador na minha casa, tento não falar ao telefone e só ligo a TV para o noticiário da manhã. É uma espécie de exílio de sobrevivência. 


Precisei ficar exilada até das coisas que mais gosto, como este blog e dos blogs dos amigos, para preserva a minha vida particular e dar a devida atenção à família.

Bom, acho que este é o verdadeiro espírito de Natal, não é mesmo?

Para exemplificar o que estou querendo dizer (embora tenha a absoluta certeza de que não seja preciso, mas fica apenas como um aconchego poético), cito Adélia Prado:

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo
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