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| Foto: Júlio César Ferreira |
Restos de velas encontrados constantemente na escadaria do portão enferrujado não deixavam dúvidas aos pequenos. Embora este fato não se configure como nenhuma prova irrefutável, fazia todo o sentido às crianças do bairro.
Os fantasmas, achávamos, eram seres deliciosamente perigosos. O gosto pela aventura, pelo proibido rendia a todos nós sonhos que preferíamos esquecer ao amanhecer e horas de conversas arquitetando planos para capturar as criaturas aladas.
Retiro as teias de aranha do meu pensamento e redescubro o prazer de aprender coisas novas. Em meu coração continuo guardando com carinho a vontade pelo não-saber.
Desafios são o alimento da vida. O medo e o desejo caminham juntos na infância e continuam a nos instigar por toda a vida como um poderoso elixir da juventude.
Por onde andarão as crianças e suas lembranças do velho casarão? Foram tantas em tantas gerações. Não sei se a velha casa, cansada de guerra, ainda abriga seus fantasmas ou se cedeu lugar a algum prédio frio e sem sonhos.
Por um instante imagino os fantasmas sem teto em um balé acrobático pelas ruas da Tijuca, procurando desesperadamente os olhos curiosos de suas eternas crianças.
E nós não estávamos mais lá.
Restarão para eles as nossas lembranças e as deles guardadas com carinho em dimensões distintas no tempo e no espaço.
Esta noite, sonharei com meus fantasmas queridos e farei a eles uma oração de até breve.






