"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.
A ausência de dias neste blog me faz pensar o quão efêmera é a nossa existência.
Não chegou há um mês, mas os amigos, pela educação de não invadir o meu espaço, ainda não mandaram chamar a polícia. Que bom, porque o caso era mais para médico.
Odeio o inverno. Odeio com todas as forças do mundo. Odeio ter crises de sinusite e ficar sem forças para nada.
Gostaria de ter nascido urso e hibernar até a primavera. Ele está chegando, o senhor do frio. E minha cidade fica coberta de uma névoa branca enquanto a minha cabeça dói. O corpo dói. O peito fica sem ar e eu totalmente inerte ao ciclo do vírus maldito.
É claro que junto com a sinusite haveria uma gripe. E chás de limão, mel, remédios, e muita falta de paciência e improdutividade.
Bom, como não há mal que tanto dure, estou de volta. Ou quase.
Em um lugar indefinido - Estrada (caminho) do campo, com árvore, á noite (Route à la campagne, avec arbre. Soir) - dois amigos se encontram: Estragon e Vladimir. A primeira frase dita na peça, por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar:"nada a fazer" (rien à faire)... Aparece um garoto anunciando que Godot não viria hoje, talvez amanhã. Pensam em se enforcar na árvore, mas desistem, ante a impossibilidade do ato ser simultâneo. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:
Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?) (Well, shall we go?)
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.) (They do not move.)
De tempos em tempos o mundo gira, as coisas mais ou menos se modificam, as pessoas também. Ou não.
Quando entro em períodos de entressafra, aqueles espaços na nossa vida em que só nos resta a paciência para o desenrolar dos acontecimentos, trago à minha mente a lembrança de Samuel Beckett e seu Teatro do Absurdo. A imagem do teatro de Beckett ainda hoje é em mim tão forte que chego a expressar com amigos, quando me perguntam como vou: Estou esperando Godot.
Godot, God, foram vários a fazer esta analogia do francês para o inglês. O fato que esperar Godot para mim não é uma coisa confortável. A espera me causa ansiedades. E náuseas. E ganas de explodir. No entanto, é preciso meditar. Então, escrevo.
Esperar Godot é um ato que foge ao controle, e, principalmente, Godot nunca vem do jeito que queremos (como se houvesse um jeito perfeito capaz de atender as angústias do ser humano).
Calejada por alguns anos de vida bem vividos, percebo claramente os dias em que Godot não virá. E, também, os dias que ele, enfim, chega, de uma maneira totalmente diferente da qual eu esperava.
E então busco em meus gurus a imagem da serenidade para finalmente agir e modificar, da maneira que posso, a minha realidade. Moldar Godot. É isso que eu gosto de fazer. Porque ficar parada, não está na minha essência.
Ir ao médico é como consultar um sarcedote, um mediador entre os homens e a Divindade, capaz de orientar sobre os males do corpo e da alma. Assim a profissão foi forjada e assim ainda impera em nossa sociedade, mesmo que o paciente seja totalmente ateu.
Ele, o médico, detém um conhecimento que você não tem. Por isso só te resta a condição de entrega e de ser... paciente.
É como a relação de filho e mãe. Eu mando, você obedece. No entanto, qual é o filho que ao crescer não descobre que todo o saber de seus progenitores tem falhas? Ao tomarmos consciência de nossas imperfeições, encontramos, enfim, o livre arbítrio.
E diante a peregrinação a alguns consultórios, descubro revoltada que meus sarcedotes não são deuses! Começo a ouvir frases antes impensadas: “Não sei”, “vamos ter que investigar”, “virose”, “é hereditário”. Mas a pior e mais indefinida das respostas, aquela que dói na alma feminina é ouvir de quem quer que seja: “São os hormônios”.
Mulher é sinônimo de vulcão em atividade. Quem pensa que eles, os “hormônios”, aquietam-se após a menopausa, se engana. Então, desde que entra em seu primeiro ciclo menstrual, a mulher está fadada a ouvir: “são os hormônios”. Com se isso fosse o bastante, como se isso acalmasse e respondesse nossos humores.
Quem sabe são eles, “os hormônios”, os responsáveis pela nossa feitiçaria? Chorar, brigar, entrar em uma grande melancolia, achar que vai morrer e um segundo depois perceber-se como a mais poderosa dos mortais na face da Terra.
Essa constante montanha russa assusta não só os homens, caros companheiros, mas às mulheres também. Insegura, irritada, mal-humorada, amável, sensível, pegajosa. Todos os papéis me cabem no espaço de trinta dias.
Enquanto a ciência continuar a se furtar em nos esclarecer termos como “viroses” e “hormônios”, a nós, homens e mulheres, restará aquela palavrinha irritante: resiliência. Perdoem-me o baixo calão, mas F..., porque, como diz uma amiga minha, depois de uma certa idade, não existe TPM, existe TPS – Tensão Para Sempre. E aí? Como fica, doutor?
Aviso da lua que menstrua / Elisa Lucinda
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Nesta data, eu tinha apenas cinco anos de idade a serem completados no mês de setembro. Mas vivi aqui no Brasil à sombra de uma ditadura. Pouca idade, mas a mente atenta, ainda percebi muitas coisas. Ouvia conversas entrecortadas dos adultos, o silêncio velado nas multidões. Era proibido pensar.
Minha homenagem ao povo português e a todos os que viveram e vivem sobre ditaduras. Ditaduras silenciosas, camufladas de democracia, ditaduras assumidas, religiosas, econômicas. Por vezes, os olhos de criança enxergam mais, quando os adultos estão cansados da labuta. Por vezes, os olhos experientes dos mais velhos servem para orientar aos mais novos o perigo que não é tão aparente. Este é o ciclo da vida.
A história precisa ser lembrada, sempre. Por isso, hoje dedico cravos a todas as lutas pelo bem comum. Como disse Pessoa, Tudo vale a pena...
Assista acima ao trecho do filme Hanna e suas irmãs e veja ao final do post a versão musicada do poema de E.E. Cummings por Zeca Baleiro
Mesmo que eu adore ler e escrever, não posso negar. Eu como o mundo é com os olhos. Sou da geração do cinema e ainda peguei filas para conferir bons filmes em salas gigantes do meu saudoso Rio de Janeiro (Hoje a maioria transformada em templos religiosos.)
Ontem fui assistir “Rio” com minha família e amigos. E não é que me deparei com filas novamente? São os tempos do 3D que andam levando centenas de volta à telona. Mas, tirada a sensação dos óculos que nos permitem a sensação do tridimensional, onde estão os filmes que sacudiam o nosso pensamento?
Antes de continuar, preciso dizer que Rio é um bom filme para o que se pretende. Meu filho de sete anos adorou. Ponto.
Tenho saudades do tempo em que saíamos de casa para assistir ao último filme do Wood Allen. Não importava a temática. Importava o autor. Hoje saímos de casa para assistir a sequencia de algum filme que deu certo na versão I, II, III = resultado certo de bilheteria.
A audácia ficou restrita ao século XIX? Por onde anda o prazer e o gozo pelo experimento?
É tudo milimetricamente calculado: o filme, a venda casada com brinde da avezinha do filme (deste eu escapei!), o combo de pipoca + refrigerante. Eu saí de casa para assistir cinema, onde está escrito que eu teria que ingerir pipoca transgênica com um big copo de refrigerante??? Ver as pessoas repetindo os mesmos atos trouxe à minha mente a imagem Tempos Modernos, do imortal Charles Chaplin.
Na minha adolescência era proibido entrar com comida nas grandes salas. Não ficarei espantada se daqui a alguns dias for instituído o intervalo nas seções para venda de mais comida. Talvez façam isso com os jogos de futebol, a exemplo do que acontece com o basebol norte-americano.
Voltando ao tema principal, por onde andam os grandes diretores do cinema? Chaplin, Fellini, Vittorio de Sica, Win Wenders. Pessoas que eram odiadas ou amadas, mas nunca indiferentes.
O cinema autoral acabou. Não há espaço para novas fórmulas.
Ando carecendo de pensamentos oxigenantes, pessoas inteligentes e papos criativos. Bem humorados, sempre, mas de crítica avinagrada, este é o gosto de quem lhes escreve.
Caio o pano por aqui. Vou dar um giro pelos blogs amigos em busca de vida sagaz. Infelizmente, fui ao cinema e voltei com falta de ar. Acho que foi o ar condicionado do Shopping. Tenho alergia às obviedades.
Poema de Edward Estlin Cummings por Zeca Baleiro
somewhere i have never travelled, gladly beyond
somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose
or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
O Buteco do Lufe está completando um aninho e, para marcar a data, o proprietário nos convida a recordar a nossa infância e marcar presença com fantasia do nosso personagem inesquecível.
Foram tantos. Não posso esquecer da Turma da Mônica que ainda hoje gosto de ler e ver com o meu filho, do Sítio do Picapau Amarelo, que quando foi lançado o DVD da primeira versão da TV Globo rendeu lágrimas a mim e minha cunhada por um tempo bom que já se foi.
Daniel Azulai! Algodão doce pra você! Vila Césamo, passeio na Feira da Providência no Rio de Janeiro procurando o gigante Garibaldo, Fantasminha Pluft e, minha primeira leitura infanto juvenil, Peter Pan.
Ainda há espaço para relembrar do bisavô dos Power Rangers, o Ultraman e do desenho animado Carangos e Motocas (Wheelie and the chopper bunch), onde o personagem mais marcante era a lambretinha que infernizava seu líder com o jargão: “Eu te disse, não te disse?” E como o mundo parava para eu assistir a corrida espetacular com Speed Race.
Mas a minha primeira lembrança ao desafio laçado pelo Lufe foi para o inesquecível Capitão Asa. Era mágico vê-lo na TV Tupi. Era como se fosse possível tocar as estrelas. Era real a promessa de um mundo de paz.
Estranho dizer isso de um personagem criado em plena ditadura militar cuja interpretação era feita por um policial civil da época? Sim, é, no mínimo, curioso.
O Capitão veio a falecer em 3 de Maio de 2003, com 75 anos, vítima de seu terceiro enfarte.
Eu corria para frente da TV, ainda em preto e branco, para ouvir a chamada do programa e fica imaginando que seria possível viajar além do planeta azul. Este homem com óculos que mais pareciam olhos de uma enorme mosca foi um dos que me fez acreditar em sonhos.
Rudolf Steiner diz que na primeira e na segunda infância a mensagem que deve ser resguardada às crianças é de que o Mundo é Bom e de que o Mundo é Belo. Se alguma coisa deve ser sagrada neste mundo, é a inocência infantil. Pois elas, as crianças, terão todo o resto da existência para árduas jornadas.
Agradeço aqui a todos que fizeram da minha infância um mundo cheio de imaginação. Se sou hoje uma pessoa otimista, forte o bastante para dar a volta por cima quando a vida nos dá aquela rasteira inevitável, devo aos heróis da minha infância. Pais, tios, primos, vizinhos e os encantados personagens da televisão e dos livros.
Hoje vou vestir meu macacão de astronauta, entrar em minha nave espacial, chegar rasgando o céu de Belo Horizonte e aterrizar no Buteco do Lufe. Lá vou tirar meu capacete e pedir uma dose de Absinto.
Parabéns, Lufe, e obrigada por me permitir este doce resgate da minha memória.
Querido Wilson Vianna, alô, alô, onde você estiver, por este espaço sideral, receba um abraço de sua eterna fã.
Acalanto é um som que nos acolhe como colo de mãe. Vem suave, encanta os ouvidos.
Acalanto é um gesto feminino. Enxuga pranto, escuta, se cala.
Acalanto é o céu laranja do outono. A sensação do frio que não se instala, do calor conciso que ainda aquece. E quando o sol se põe, fica um vazio, um medo íntimo de que é hora de se recolher.
Lá fora a tarde cai, já anunciando que é hora de hibernar. Aqueço meu coração com um vermelho intenso. Pensamentos ardem como fogo em madeira boa.