"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Porão de ideias


De vez em quando é bom fazer faxina. Limpar a casa é um ótimo remédio para nos sentirmos de bem com a vida. Sabe aquela arrumada nas gavetas, jogar papéis fora, tirar aquele sujinho da tomada atrás da porta que ninguém vê, que sempre te incomoda, mas que você sempre deixa para depois? E aí vem aquele merecido banho, gostoso e relaxante, de quem está em harmonia com o universo.

Mas fazer faxina é cansativo, dá preguiça, é chato. Até que começamos e nos entregamos ao estado de espírito de limpeza profunda da alma. E é nesta entrega que os pensamentos vagam entre uma poeira e outra. Os pensamentos fluem. Chegam e vão, por vezes trazem correntes atormentadas, por vezes leves plainando no ar, por vezes com lágrimas, por vezes com euforia. Mas seja qual for a roupagem, eles chegam, eles vão, pois necessitam dar espaço ao ato de tirar o pó, lavar o chão, limpar e limpar, deixando tudo mais claro. E de alguma maneira este mecanismo de fazer e pensar nos estabiliza por um tempo.

Até que chega a hora em que temos que descer ao porão e enfrentar o que vivemos e o que deixamos de viver. Este é o meu tempo hoje. Necessito ávidamente de retirar toda poeira das minhas veias. Necessito de vida. E de repente me vejo em uma correria louca para realizar todos os projetos que um dia sonhei e deixei, com se não houvesse mais tempo.

Toda dor vale a pena. A minha, a sua. Não preciso de julgamentos nem de perdões. A minha dor é a dor da humanidade. Não há nada de errado comigo e, ao mesmo tempo, há tudo de errado. E simplesmente preciso percorrer este caminho, com sede, fome, cansaço, desânimo.

Que bom seria que tudo fosse fluido como um rio tranquilo. Como o dia em que fazer faxina nos dá prazer (nem sempre). E talvez seja esta a busca do equilíbrio. É preciso encarar a preguiça e o medo de mexer nas coisas lá dentro, mais profundas da minha alma.

Talvez eu volte a fechar a porta. Talvez eu jogue tudo para fora e comece a limpar. Talvez.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sem rótulos, nem certezas

Foto - Malu Machado
Ainda bem que estava atenta aos sinais.

Quando percebi que não havia espaço para mais ninguém no jardim.
Quantas vezes nos sentimos forasteiros na terra onde vivemos?

Foi assim comigo quando me mudei da minha cidade natal. De uma cidade grande para uma pequena. Não tão pequena, mas formada por pequenas redes impenetráveis de amigos de infância, intermináveis almoços nas casas de avós com todos os primos e primas. Bem diferente da democracia das praias de Ipanema onde era só chegar e se enturmar.

Foram anos de convivência informal, cultivando um sentimento de não pertencimento.
E então, a cidade começou a ser invadida. Uma onda de migrantes vinda de cidades gigantescas, pessoas em busca de uma vida menos atribulada, mas que garanta um certo acesso à cultura, lazer e modernidades.
E, de repente, éramos mais de dez, vinte, cem, os forasteiros, vindos de diversas capitais brasileiras e, diante do estranhamento desta mineirice acabrunhada, fomos formando o nosso canteirinho, sem rótulos, sem cercas, com espaço para todos os sonhos e vontades.

E hoje posso dizer que, da casa onde ergui minha vida, cada vaso de planta, cada amigo que chega, é com se abrisse as cortinas e estivesse exatamente aonde gostaria de estar. Na verdade, pouco importa a terra. Aprendi a viajar no tempo e a ser feliz com minha eterna falta de contexto. 

Não sou o tipo de peça se que encaixa em um só quebra-cabeça. Antes, necessito germinar em diferentes quintais, necessito de enxertos contínuos aprimorando a minha espécie. Deixando em outros um pouco do meu sal, levo comigo a semente de muitos para um novo amanhecer, seja ele aonde for.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dia de domingo




Vou contar uma história de um dia de calor intenso.
Água de coco, ventilador ligado, um céu azul que há muito não viam.
Caminhar abraçados, criança brincando.

Preparar o almoço juntinhos, dia de descanso. Dia comum, que acontecimento!
Apenas pequenas coisas feitas, pequenas e significativas.
Apenas um olhar para se compreenderem.

E quem achava que a razão havia se perdido, bastou um dia de silêncio e de paz para confirmar que tudo está ali, ao alcance das nossas mãos. Precisamos apenas nos entregar à simplicidade do ato.

Dá gosto viver assim.

"Loves is old, love is new, love is all, love is you."

domingo, 22 de janeiro de 2012

Universidade de Pés Descalços



Acabei de ler no perfil do grupo Chiquinha Gonzaga no facebook, um material postado pela minha amiga Maristela Rocha. Na velocidade da informação pertinente à nossa contemporaneidade, nem sei bem o porquê que este grupo foi formalmente criado, mas acredito que o espírito da coisa seja para difundir e debater o pioneirismo do presente e do passado. Bom, mulheres não precisam de muito para se comunicar. Por vezes bastam os gestos, não é mesmo, Bunker Roy?
 
O fato é que o texto postado pela Maristela e que reproduzo abaixo, veio aparecer na minha vida logo após eu ter assistido o vídeo acima. E fazer a conexão do pioneirismo de um com o outro foi um pulo:

 
A frágil feminilidade tinha que ser manifestada no comportamento, na educação, no vestuário. O "Jornal do Século" traz o registro de duas mulheres agredidas, em 1911, por usarem saia-calça. O fato ocorreu às 17 horas na calçada em frente à redação do "Jornal do Brasil": "Duas mulheres não identificadas, trajando jupes-culotte (saias-calça), moda lançada em Paris no mês passado, pararam o trânsito na Avenida Central e escaparam de ser linchadas graças a dois delegados..."

 
A palestra do indiano Bunker Roy mostra pessoas mudando paradigmas através de práticas cotidianas. Eles reinventam um cenário usando os elementos que têm. As mulheres ganham um destaque à parte. O vídeo não mostra propriamente mudanças de costumes, embora elas vão acontecendo lenta e gradativamente e isso fica claro no relato final. Mas a sutileza da proposta é a transformação que as pessoas podem promover nas comunidades onde vivem com que cada um já traz em seu interior.

 
Há alguns anos aqui no Brasil tivemos a novela “O Clone” em que a personagem de Letícia Sabatela demonstrava toda a artimanha feminina necessária às mulheres marroquinas para conseguirem seus objetivos junto aos homens de suas famílias. Sempre achei fabulosa a construção da personagem Latiffa. Fica claro como em muitas culturas as mulheres continuam não tendo o direito de defenderem diretamente seus pontos de vista, e por isso, lançam mão de subterfúgios, pequenas mentiras, armadilhas e tramas, como as mulheres ocidentais de séculos passados que necessitavam escutar na alcova da casa o que os homens falavam na sala principal.

 
Mas a força feminina é universal. Vamos combinar, mulher é acima de tudo um bicho falante! Se não podemos nos comunicar com a voz, usaremos as mãos e a face, se esconderem nosso rosto, usaremos o olhar ou os passos miúdos ou ligeiros serão a nossa expressão. Ou ainda o cuidar dos filhos, o fazer a comida, varrer o quintal. Sempre encontraremos uma maneira de compartilhar.


 
Fiquei fascinada pela experiência da Universidade dos Pés Descalços. É como se naquele lugar alguém tivesse aberto um baú de destroços e descoberto que poderia construir uma nova história com tudo o que estava dentro dele. Acho que a Grace Olsson seria uma forte candidata a contribuir com este lugar, que agora já avança em outros continentes.

 
Hoje me lembrei da minha avó que sabiamente colhi ervas nas quadras certas da lua e não plantava em meses com a letra erre. No mais, conflitos deveriam ser sempre resolvidos com fantoches, vocês não acham?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Dé jà vu

E como se entrasse em um beco à luz de antigas luminárias, apenas o som dos sapatos a esconder a batida de meu coração, como a censurar meus sentimentos. O vazio do caminho é proporcional ao vazio de alma. A mente reprova cada detalhe pela retina cansada de tantos ângulos já registrados.

Nada me comove ou pelo menos nada me faz sentir prazer novamente em caminhar. O paladar perdido, as horas passadas sem nexo, a música não cantada, a dança guardada, as noites sem rastros.
 
Este é o risco de viver a vida no rascunho, o guardar emoções em um pote secreto para o dia certo deixá-las sair. Se tivesse hoje o poder de abrir a caixa de Pandora, abriria sem pensar e gozaria cada alegria. O guardar das coisas cria mofo e agonia.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sobre a mudança, o renascer das coisas e aquilo que não pode morrer nunca



Conto adaptado do livro O Jardineiro que Tinha Fé, de Clarissa Pinkola Estés.

"Vou lhes contar uma história sobre o tempo da paz e o tempo das cinzas, sobre como os jovens e os velhos aprendem sobre aquilo que não pode morrer nunca. Era uma vez, há muito, muito tempo, um pinheirinho que, embora pequeno em estatura, era imenso em espírito. Ele vivia nas profundezas de uma floresta e ouvia a história de que as
árvores cortadas de tempos em tempos naquele lugar eram levadas para um lugar maravilhoso, chamado casa. Ali, uma família inteira de pessoas se reunia ao seu redor e enfeitavam a árvore com belos objetos e depois cantavam e se alegravam em uma data muito especial para os humanos.

Com o passar do tempo, muitas árvores haviam sido retiradas da floresta e o pinheirinho teve bastante espaço para receber a luz do sol e assim ele foi crescendo, crescendo, até ficar muito mais alto do que antes. No fim do ano, chegaram os cavalos puxando um trenó com o pai, a mãe e crianças risonhas. 

Os cavalos empertigados passaram direto pelo pinheirinho. "Espere", gritou uma das crianças, "aquele ali atrás, aquele ali sozinho. Ah, olhem como os galhos são cheios de vida" E o pinheirinho começou a tremer de esperança. E o pai apanhou seu machado no trenó. Com o primeiro golpe, o pinheiro sentiu a maior dor de toda a sua vida e desmaiou.
 
Muito mais tarde, o pinheiro voltou a si, diante de um chalé coberto de neve, onde moravam um senhor e uma senhora bem idosos. Mergulharam o tronco cortado da árvore num balde de água fresca que aliviou grande parte da sua dor. E quando apagaram os lampiões, o pinheiro, que amava a profunda escuridão da floresta, começou a amar também a escuridão daquela casa.
 
Bem cedo na manhã do dia seguinte, as pessoas começaram a enfeitar a árvore com enfeites coloridos. As crianças gritavam e corriam ao redor, enquanto outros tocavam e cantavam. 

Os dias se passaram e uma a uma as pessoas foram deixando a casa. O pai, então, entrou com passos pesados e tirou todos os enfeites do pinheiro, guardando-os em caixas com camadas de enchimento de algodão. Depois, arrastou de maneira descuidada a árvore pela escada de madeira acima e a jogou dentro de um sótão escuro. E ali o pinheiro ficou muitos dias e muitas noites.
 
Certa noite, porém, com o canto do olho, o pinheiro viu quatro pontos vermelhos reluzentes. Eram os olhos de dois ratinhos minúsculos que ocupavam as paredes do sótão. "Ah, minhas senhoras, sabem-me dizer quando virão me buscar, quando voltarei para a sala especial?” "Querida árvore, sei que você sentia ter nascido para essa vida, tanto que não desejava que ela mudasse. Essa época já terminou. 

Mas agora começa um tempo diferente. Uma nova vida, um tipo de vida diferente sempre se segue à antiga.” E os dois camundongos fizeram companhia à árvore a noite inteira. Contaram histórias e cantaram todas as músicas que conheciam.
 
Pela manhã, a porta do sótão foi aberta com violência, e o pai, usando um gorro de lã e um sobretudo, agarrou o pinheiro e o arrastou pela longa escada abaixo, pela porta, até o quintal. Ali. Deitou o pinheiro num toco velho e ergueu muito alto um machado enorme, cortando a árvore em pequenos pedaços.
Muito tempo depois, o pinheiro acordou novamente no canto da sala especial. Nas poltronas diante da lareira, viu o velho casal que conhecera quando chegou à casa, vindo da floresta. Eram eles que haviam banhado seu ferimento com água fresca.

Ali estavam eles, bem juntinhos diante do fogo. Apesar do seu estado, o pinheiro sorriu com o amor que via entre os dois. O velho levantou-se e jogou um dos braços do pinheiro no fogo.
Noite após noite, o pinheiro permitia essa entrega. Era tão completa sua alegria por ser útil e ter vida desse modo que ele queimou e queimou até não restar mais nada,  a não ser as cinzas que jaziam no fundo da lareira. 

Então, o casal de velhos, com suas mãos velhas e sábias, varreu delicadamente cada fragmento de cinzas da lareira. Puseram as cinzas num saco macio e muito usado e o guardaram até a chegada da primavera, onde as jogariam no campo a ser semeado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Chuvas de Natal


Existe um estado de espírito natalino no clima da cidade onde eu moro. E ele apresenta-se em formato de uma chuva intensa e de uma persistência irritante.

Mas a irritação, diriam os budistas, não está na chuva. Está em minha alma consumidora, travada de sair de casa levando filho à reboque e enfrentando lojas cheias.

Então, resolvi respirar e mudar o jogo. Hoje não vou às compras de Natal. Hoje não vou se quer comprar uma maçã para ser deliciada ao longo da semana. Hoje vou ler mensagens de amigos no meu e-mail. Aquelas que ficam na fila de espera porque e-mail de trabalho é sempre mais urgente, porém não o mais importante.

Hoje vi desenhos na TV com meu filho. E vou fazer bobagens que ele gosta para o almoço.


Com a alma menos agitada dos afazeres que vem de fora, vou tentar mais uma vez aprender a iniciar o tricô. Tricô é bom para acalmar as almas. Tricô e chá de capim-cidreira.

E, sem pressa, vou observar a chuva. O barulho que ela faz ao molhar a clarabóia da minha casa, o peso das gostas nas folhas das árvores do quintal e os respingos nas janelas.

Paulo de Tarso falava que para combater o bom combate, é preciso aprender a observar os sinais. Paulo Coelho resgatou este ensinamento em seus livros. A chuva que passa o Natal em minha cidade é um presente divino soprando em nossos corações: “Aonde você vai com tanta pressa? Aonde você vai?”

Esta talvez seja a pergunta mais difícil para um ser humano responder. Tenho duas gatas e elas, aparentemente não têm estas perguntas existencialistas. Elas apenas vão. E apenas voltam.

Já montei minha árvore e, este ano, colocamos alguns instrumentos musicais próximos a ela. Sentiu vontade de tocar, toque. A música também acalma almas.

Não preciso de muito mais do que a chuva caindo lá fora e um lar quentinho. Há sim, um bom blog para postar alguns pensamentos e amigos que eu possa receber para o jantar.