"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pra lá dos contos de fadas




Breve conto sobre "feminismo" moderno.
Era uma vez um jovem que passeando com o amigo pelo mundo chegou a uma aldeia bem pequena e nela encontro uma bela jovem por quem logo se apaixonou. No primeiro dia, após a primeira noite de amor entre o jovem e a jovem, a moça não mais arrumou seus longos cabelos como tranças, mas os prendeu em um coque, como era o costume das mulheres casadas por ali. Ele despediu-se do amigo e resolveu ficar.

Viveram felizes, quase sempre, por dois anos. Então, o moço e a moça já não mais se olhavam com a mesma paixão, já não tinham mais os mesmos ideais e resolveram se separar.

O moço, mochila nas costas, partiu em busca de novas descobertas. A moça cortou os cabelos e passou a vida a escrever poemas.

Porque, um dia, foram dois, que não eram um, e que nunca mais seriam os mesmos.

P.S. Poderia ter dito que a moça passou batom e foi à luta. Mas aí já seria conto de fadas.

domingo, 11 de agosto de 2013

É preciso as cinzas para germinar





Um dia a gente acorda, sai para trabalhar e no meio do expediente se pergunta: o que estou fazendo aqui? Acho que você que está me lendo já deve ter passado por isso alguma vez, ou duas, ou sempre.

Aí chega uma hora em que ou você larga tudo ou simplesmente enlouquece. Eu não larguei tudo, por isso me sinto enlouquecendo. Há anos. Envolta em milhares de “e se” , mestra na arte de ponderar e de esperar.

Uma manhã qualquer você acorda e se acha feia, vazia, um nada. Então é hora de realmente fazer faxina na alma. Mas não é tarefa fácil essa não. Tem coisas arraigadas, pré-conceitos, a tão sonhada e tão aprisionadora estabilidade que nos promete uma certeza em um mundo que é feito de incertezas.

De um terreno em cinzas é que brotam sementes, trazidas pelo não-pensamento, o tempo livre, o pseudo-ócio, o vento do norte e os pássaros do oeste.

A ousadia não pede planejamento. Antes, precisa ser vivida. Como se lançar em um terreno fértil e ainda não trabalhado. Se desconstruir para reconstruir.

Porque a vida é curta. E, pelo menos nesta minha existência, uma só.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Rei acuado




Sempre admirei os jogadores de xadrez, aqueles que conseguem ficar horas pensando estratégias, antecipando cada passo de seu adversário. Xadrez é o jogo dos reis e nas grandes guerras da humanidade a estratégia historicamente é disposta no tabuleiro. Meninos com seus exércitos de bonecos.

Porém, o tempo está mudando. A comunicação cada vez mais ágil deixa o rei nu. Vide o que anda aprontando por aí blogueiros como Yoani Sánchez, sem falar da Turquia, Portugal e as recentes manifestações no Brasil.

Existe uma outra questão neste boot de informações que andamos vivenciando. Em meio a tantas bandeiras, que mundo almejamos? Para onde caminhamos?

Seria sonhador de mais dizer que procuro por um mundo, como diria Rubem Alves, de relacionamentos de frescobol, onde quando um perder todos perdem e não de ping pong, em que para um lado ganhar o outro necessariamente precisa perder?

A humanidade ainda está longe de abandonar o tabuleiro de xadrez ou de pelo menos curtir o jogo pelo jogo. Mas, com certeza, algo grande está para acontecer. E não haverá como esconder as intenções e os jogos duplos de outrora, expostos de uma maneira totalmente nova neste milênio. Se antes andávamos em terra de cego, agora temos mil olhos, em toda parte, em todo canto. Não há mais onde se esconder.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O homem que plantava livros



Tzviatko Kinchev_Open ArtGroup



O ser humano só se realiza quando se expressa ou será apenas mais um na multidão

Ele comeria tomates todos os dias. Com bastante azeite.  Tomates vermelhos, bem maduros, tomates carnudos. Comeria de se lambuzar. Devoraria tomates como devorava livros. Sim, livros estão mais ao seu alcance do que os tomates. Tomates brasileiros são verdes e sem gosto. Os livros revelam gostos requintados e infinitos.

Ele montou uma quitanda –biblioteca: Compre um quilo de batatas e leve um livro emprestado. Se trouxer um livro, pode trocar por outro. Pensou em estender a troca com as verduras e legumes: Traga um livro e leve um quilo de cenouras. Em pouco tempo estava lotado de livros mal cuidados e com as contas no vermelho. Voltou ao modelo antigo.

Após os primeiros meses, os livros estavam lambuzados de todas as matizes; do verde quiabo ao roxo berinjela. E ficaram menos atrativos. A vigilância sanitária implicou. Por ele, pararia com as verduras e ficaria com os livros. Mas isso não pagava suas despesas.

Acabou desistindo dos livros. Tornou-se amargo, mal humorado. Envenenado, sem cor.
Um dia, passou por ali uma cigarra esperta que o convidou a segui-la para o campo, onde ele poderia plantar sonhos. Ele aceitou. Hoje cultiva textos e sorri.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O querer e o fazer


Hoje andei passeando por uns blogs queridos e percebi algumas semelhanças entre eles. Percebi a busca por um novo paradigma, romper com o mundo estabelecido no egoísmo e na falta de amor, respeito e tolerância. Percebi a vontade de mudar de rumo, de expulgar as dores próprias da vida, a vontade de quebrar tudo e se reconstruir.

Talvez este seja o propósito de muitos de nós que escrevemos. O principal leitor de um escritor é a tentativa de compreender a si mesmo a cada dia. O fato é que a maioria de nós sucumbiria se não colocasse no papel seus sentimentos, mesmo que sejam textos que nos desnudem e que ainda sim nos ocultam. E, então, na incapacidade de melhor expressão, explodimos nossas emoções em letras.

A medida que escrevo fico pensando se o ato de escrever não me escraviza no que sou. A catarse e a continuidade. A expressão e a volta à normalidade. O querer e o de fato fazer.

É um passo difícil de se tomar. A mudança. Não há certezas. Apenas o se lançar em outra vida, outra possibilidade de vida.

Em um tempo que não existe mais, os pequenos membros de uma tribo tupi-guarani faziam assim sua iniciação: deveriam ir à montanha mais alta e esperar a noite toda. Cada um na sua noite, sozinho, deveria vencer e dominar seu medo do desconhecido.

Enquanto enfrentava seu medo interior, cada menino ouvia um som que vinha das folhagens em meio a floresta: “ecoeté, ecoeté.” Eram os homens da tribo, escondidos, zelando para que tudo saísse bem.

Hoje vou escrever cem vezes ecoeté. Até sonhar com a palavra, até que eu me convença de que ancestrais zelam por minha escolha. Até fazer brilhar a escuridão.

Ouçam! Estão ouvindo? Ecoeté, ecoeté. Courage, courage. Coragem, coragem.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Vida fugidia




O fogo enebria
desafia, fia o contorno de silhuetas
O fogo embriaga, abriga e transporta a alma
O fogo me leva e eu sumo em meio à intensa luz
O calor acalma a vida
E por um instante, sou plena
Leveza do ser solta no universo
Sem preocupações.
Apenas sendo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Belezas ocultas

Um ano sem escrever neste blog e quem diria que num dia frio, propício à hibernação, é que justamente sairia da minha. Bom, escrever é um ato de alma, e por vezes simplesmente não querer escrever é um ato de se reconhecer ou de não querer se conhecer. Um voto de silêncio, imersa em outros pensamentos, em outras experiências. E eis que a vontade de compartilhar renasce, em uma primavera fora de cronos, em plena sensação de 2 graus negativos, muito para um país tropical como o nosso.
Na placenta deste planeta azulzinho andei descobrindo coisas interessantes. Como este chá chinês (tudo é chinês hoje em dia), o Flowering Teas.

No início da primavera, no sudeste da China, mulheres acordam antes do amanhecer para colherem pequenas flores, ainda tenras, cobertas de orvalho. Depois, são ressecadas e envoltas em folhas de chá verde ou de chá branco, também secas. Os bulbos são amarrados com uma fina linha de algodão. Essas trabalhadoras do campo nem sequer podem comer alimentos com cheiro forte, como cebola e alho, que possam alterar os aromas da planta, que absorve facilmente odores.

Curiosamente encontrei esta iguaria em uma casa de chocolates em Gramado, Rio Grande do Sul. Mais do que experimentar a novidade exótica, me desperta o encantamento, a delicadeza, a feminilidade e efemeridade de todo este processo.

O tecer, o cuidar, o maternar. Meses de espera, horas de trabalho delicado para segundos de beleza.

Quando tinha meus 16 anos, fui assistir a uma palestra de um professor em um encontro nacional de estudantes de Biologia. Ele estudava a biologia humana. Entre os seus slides (era isso que usava na época), o professor mostrou uma tribo indígena que levava meses plantando, colhendo, amassando e secando mandioca para seu consumo em uma espécie de pasta. Depois, mostrou um grupo de macacos-japoneses ou macacos da neve, que em um inverno rigoroso apenas lavam sua comida em água corrente e se alimentavam.

A pergunta que o professor deixava no ar aos futuros biólogos era: quem aproveitava melhor o seu tempo? Os macacos-japoneses nas fontes de água quente ou a tribo indígena com preparo alimentar mais elaborado?

Sai de lá sem uma resposta e hoje quando me deparo com delicadezas como as flowering teas fico a pensar que nos detalhes, no fazer, consiste a beleza humana. Viver vivendo. Há horas de apreciar e há horas de produzir. A medida de cada um é o segredo mais bem guardado. O quanto de tempero devemos colocar em nossas vidas? Ou quantas doses de absinto devemos nos permitir?

Hoje acordei com vontade elaborada. Preparei um chá e ouvi boa música. Deixo aqui para vocês um pouco dessa minha experiência. Espero que gostem.