"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

domingo, 27 de março de 2011

A compra, o descarte e o valor afetivo pelo fazer



Sapatinhos Escola Paineira - Foto Malu Machado
Continuando o tema da blogagem anterior que pode ser lida aqui, queria compartilhar com vocês uma experiência que estou tendo na escola onde meu filho estuda. É uma escola que segue a pedagogia Waldorf e desenvolve o conhecimento através da prática, o que nos impulsiona a vivências o tempo todo.


Por isso, não é incomum que os pais desses alunos se reúnam com freqüência nos fins de semana ou após às sete da noite para confeccionarem velas, tricotar, fazer uma bolsa ou simplesmente falar sobre educação.

E de repente eu me vi a aprender a costurar a mão um presépio em feltro com enchimento de lãs de carneiro. E há dois anos bordei o primeiro colete para Festa Junina do meu filho.


Trabalhos Manuais Escola Paineira
E enquanto costuro para ele, vejo a todo o momento como ele se orgulha deste ato. A relação dele com objeto confeccionado em todas as etapas dentro de casa tem um componente que não está à venda nas lojas de shopping. Tem afeto. Tem amor.


Eis que meu filho atende ao telefone e alguém do outro lado provavelmente pergunta: Onde está a sua mãe? E ele responde: está costurando o meu colete. Nossa, que felicidade no brilho de seu olhar. E como enquanto costuramos, ou fazemos um arco e flecha de bambu, ele acompanha atento, sereno, compreendendo, dentro da sua capacidade limitada à idade de sete anos, a importância daquele ato.




Neste fim de semana meu marido fez agulhas de tricô esculpidas de um bambu gigante. A atividade com o tricô é muito valorizada nas escolas Waldorf para desenvolver a coordenação motora fina, principalmente na alfabetização.


Duende em tricô presente professora Aline
Agulhas de bambu by Paulo e Malu
Eu tenho pelo menos três agulhas de tricô em casa. Uma de madeira e duas de plástico. Poderia ter ido a uma loja e comprado tamanho e cor desejados. Mas não é esse o exercício da prática. Estas agulhas serão eternas em nossas lembranças.


Com também serão eternos os bolos e biscoitos que fazemos juntos, as brincadeiras com argila e as pinturas em aquarela. 




Um fim de semana aqui em casa não tem televisão ligada. Por vezes cantarolamos ou ouvimos uma boa música. Ou optamos por ouvir apenas os pássaros no quintal e o miado de nossos gatos.


Enquanto escrevo, tenho no braço esquerdo uma pintura de um sol e um trevo de quatro folhas feitos pelo meu filho com lápis aquarela. A cada descoberta, percebo o quanto a vida pode ser simples, cheia de significados e tão pouco consumista.


Abaixo coloco uma excelente carta que recebi por e-mail da minha amiga Kátia Dias, do blog Simples, Sim! 


Foto Casa de Pau a Pique Escola Paineira /
alunos do 3º ano 2008 - Foto Malu Machado
Ilustro a carta com a foto de uma casinha de pau a pique confeccionado pelos alunos do 3º ano - Escola Paineira. Preciso falar mais sobre a diferença de visão de mundo?


Querida Arezzo,

Eu sempre fui uma boa cliente para você. Apesar das vendedoras
esnobes, dos preços absurdos e das campanhas publicitárias cafonas, eu sabia que valia a pena comprar os seus sapatinhos.

Ao longo de todos esses anos, foram pelo menos umas 20 sapatilhas, mais scarpins e sandálias e até uma rasteirinha – a única que eu tenho, imagine, logo eu que não uso rasteirinha! Tudo bem, eu sei que não é muito e que tem gente que compra bem mais que eu, mas eu sou uma jornalista pobrinha; se levar em consideração a despesa em relação ao salário, olha, eu fui muito legal com você.

Aí um dia, eu comprei aquele scarpin de “couro” (cof, cof) preto.
Salto alto. Plataforma. Eu fico com mais de 1,80m com ele, Arezzo! Tão bonito, tã confortável. Como (quase) tudo que você faz.
Justamente por ele me deixar tão alta, usei pouco; guardei essa
preciosidade de R$ 270,00 para ocasiões especiais – principalmente
quando elas envolviam também o uso do meu vestidinho lindo da Saad.

Comprei o pequenino há dois anos. Usei cinco vezes, e poderia citar
todas elas aqui. Durante todo esse tempo, ele ficou guardado no
saquinho dele, na caixinha dele. Como muitos outros sapatos lindos que eu tenho, sabe?

Mas tem uma diferença entre os meus sapatos lindos e o seu scarpin. Sabe qual? Eles não se desmancharam. Pois é, Arezzo. Você sai por aí vendendo sapatos que são supostamente de couro (afinal, por esse preço!) e, depois de serem usados cinco vezes, eles desmancham, revelando um tecido vagabundo pintado de tinta texturizada para imitar couro. O sapateiro riu de mim. Riu.

Eu achei que você fosse me explicar isso, que fosse passar a mão na minha cabeça, dizer que pedia desculpas e que isso não aconteceria mais, que foi um erro, mas o que você fez? Me esnobou. “Não nos responsabilizamos por sapatos comprados há mais de três meses.” Como assim, Arezzo? Eu tenho sapatos Topshop, Sommer, tenho até Melissas guardadas há mais tempo do que guardei esse scarpin, e sapatos usados muito mais vezes que esse scarpin e que não se desmancharam!

É por isso, Arezzo, que eu quero que você vá se danar.
Sabe o que eu fiz hoje? Eu comprei um scarpin seu. No Paraguai. Por R$40,00. Ok deve ter algum pequeno defeito, mas se é pra se desmanchar mesmo, né? Que seja a preço de pano pintado.
Se é como lixo que você vai me tratar, então é assim que vai
funcionar. E prepare-se, porque eu vou espalhar essa história e ainda contar para todas as pessoas que eu conheço que tem Arezzo no Paraguai a preço de Moleca. Aliás, nem a minha Moleca se desmanchou como a porcaria do seu scarpin.

Então, é isso. Passe bem com as suas vendedoras esnobes, suas
sapatrocidades cor de caneta marca-texto e seus sapatos de pano
mentirosos. A mim, você não engana mais.
Atenciosamente,

Fabiane  Ariello
Foz do Iguaçu, PR, Brazil
Jornalista, tradutora, revisora e escritora.

16 comentários:

  1. Minha cara Malu, Não vou largar o tema. Ainda não postei nada mas vou fazer isso pensando na ideia que agora me deu. Falar da minha experiência de relação com o meu neto Diogo.

    A carta de reclamação é plena de imaginação. :))

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  2. Olá Malu! Adorei.Para mim, felicidade é tudo aquilo que vc desecreveu. São essas coisas que eu valorizo. Estar com a família, com os amigos, enfim.
    Sou contra o consumismo desenfreado e também abordo temas assim no meu blog. Tem um texto lá chamado "O bom não basta, tem que ser o melhor" a autora fala dessa mania de não se contentar com o que se tem de bom e ficar buscando o tempo todo pelo "melhor".

    Um grande abraço.

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  3. Malu Querida
    Nisto que acabo de ler existe felicidade sim. Sabes Malu eu por não gosto do Natal e outras datas que todo mundo comemora, simplesmente porque acho que existe nuita hipócresia e um consumismo absurdo. Eu prefiro curtir a família durante todo o ano sem essa coisa de prendinhas e outras coisas mais, por vezes as pessoas não têm dinheiro, mas lá têm que comprar a prenda de Natal, para mim não existe melhor prenda, melhor riqueza que é a presença daqueles que amamos sejam família ou amigos, curti-los enquanto vivemos. Belissímo post.
    Beijinho boa semana

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  4. Ei Rogério, aguardo ansiosa a sua postagem sobre este tema.

    Aliás, passa lá no blog do Lufe, ele colocou um vídeo muito bom sobre o assunto.

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  5. Oi xará, obrigada pela dica. Vou lá conferir.

    Um abraço,

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  6. Querida Flor, eu gosto e curto o Natal por te criança em casa, mas tentamos não ser tão consumistas nesta datas. Aliás, este tem sido um exercício diário na vida da minha família.

    Um grande beijo, amiga,

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  7. Malu,

    Eu entendo bem e compartilho o seu entusiasmo e a sua motivação na educação de seu filho.
    Eu tive o privilegio de fazer o pré e o primario em uma escola, o Instituto Santa Helena, fundada pela Helena Antipof, que depois foi criadora do Instituto Pestalozzi.
    Helena era uma pedagoga russa e trouxe o método Piaget, para BH. ( Se não a conhece e se interessar em saber mais sobre ela: http://pt.wikipedia.org/wiki/Helena_Antipoff )
    O método atuava nas estruturas mentais, ou cognitivas, pelas quais os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o meio. As crianças eram exortadas a não aceitar afirmações gratuitamente, sem questionar e verificar a realidade
    A proposta ia além da simples transmissão dos conteúdos, pois se preocupava com um ensino motivador e que levasse os alunos a pensar, criando cidadãos capazes de atuar e transformar a sociedade.
    Pelo método dela, cada ano tinha três turmas e os alunos permaneciam ou mudavam de turma de acordo com o seu desenvolvimento, mantendo as turmas mais homogenias possível, facilitando assim a percepção e o aprendizado.
    È muito parecido com o método da escola de seu filho, embora haja diferenças filosóficas. Os trabalhos manuais, artísticos e intelectuais eram constantes.
    Era como a gente costuma dizer: Preocupava-se com o “ser”, não com o “ter”. O ter é conseqüência natural da realização de seus desejos. E eles são bem diferentes dos desejos de indivíduos com uma formação tradicional das escolas brasileiras.

    bjos

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  8. Oi Lufe, não é que nos conhecendo vamos descobrindo mais coisas em comum? E é tão diferente o querer das crianças que crescem sobre uma ótica educacional diferenciada como essas não é? Veja você, que belo adulto rendeu! A primeira infância é tudo, meu caro.

    Um beijo grande prô cê. Adorei o carinho comigo lá no Buteco, viu.

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  9. oi amiga,passando para conhecer seu blog,gostei muito....convido para fazer uma visita ao meu...aproveito e ofereço meu Award com todo carinho....boa semana...

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  10. Malu!
    Que bela surpresa seu post. Como estamos sedentos por esperança nesse mundo que nós mesmos estamos criando. E essa experiência de afeto e estar mais perto é fundamental para desenvolvermos contatos mais acolhedores.
    Grande beijo

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  11. Oi Selma, farei visita. Pode esperar.

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  12. Feliz de te ver por aqui, Elenir. Sim, afeto é uma moeda que deveria estar mais em alta. Quem sabe não mudamos o mundo com pequenos exemplos de resistência?

    Assinado, Poliana e Jhon Lennon rss

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  13. Achei o tema interessante e se vc tivesse me falado sobre, eu teria ido ai, na vez em que fui ao Barsil, fotografar e publiacr num jornal daqui.


    A carta á Arezzo...acho que a maioria dessas marcas é fajuta, cara e...sem nenhum respeito pelo cliente...

    Eu nao gosto da Arezzo...prefiro a DATELLI. Acho o couro mais molinho...

    kkkk
    mas, o que eu tenho percebido é que o brasileiro tem que brigar pelo que quer...Se paga 270 tem que exigir o que pagou...Ela, a escritora da carta, está certa.

    Bjs e dias felizes




    Ah, O curso é ACOES HUMANITARIAS INTERNACIONAIS. Lutei calada, por que, na era da internet, a gente encontra inimigos ocultos, do nada...gente que nao sabe fazer outra coisa, a nao ser sugar nossas energias...e eu só consigo as coisas que quero, quando dou um tempo da internet, Malu.ou nao falo sobre o que ando batalhando.

    kkkk

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  14. Malu,

    Que bom que todos tivessem este tipo de apreço , não pelo consumo , mas pelo afeto.
    Eduquei meu filho em uma escola Logosófica , o que muito nos aacrescentou .
    Nas festinhas , aniversários , era proibido levar presentes.
    O presente era o abraço , um desenho ou cartinha de cada amiguinho ou professora.
    Guardo tudo até hoje ...Rs.


    Bjo e um Dia Feliz.

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  15. Oi Malu, obrigada pela visita no meu blog.. ele tava desativado. Mas volteia carga e pretendo continuar. Dá uma olhadinha lá.. um abço TPM do Guará.. srsrssrrsr

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  16. Oi Malu! Que saudades dos tempos de Paineiras! Como crescemos e mudamos nossa visão das coisas! Um grande beijo p/ vc, Rafael e Paulo

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