"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Feijão Guandu - releitura





Dos sabores da minha infância, o mais forte que permanece na minha lembrança é o do feijão guandu. Todas as quartas, eu ia à feira com a minha mãe, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Feira na Visconde de Figueiredo, próxima à Alzira Brandão, famosa pelas comemorações nos jogos da copa do mundo.

Ainda me lembro do ir e vir dos carrinhos com rodinhas conduzidos pelas senhoras e meninos que ajudavam a carregar as compras por uns trocados. Minha mãe levava sacolas de pano ou de nylon colorido. E eu sonhava com o dia em que ela compraria um carrinho de feira, o que nunca aconteceu.

As paradas eram as mesmas: na barraca de peixe, as sardinhas vendidas às dúzias. Todas limpinhas, prontas para fritar ainda no almoço do dia; o caju de um vermelho intenso e aroma singular (minha mãe fazia o suco coado no pano de algodão); e o feijão guandu, medido no copo de vidro americano.

Não era raro ouvir o grito de alerta:“olha o rapa!”, anunciando aos ambulantes ilegais que a polícia se aproximava. Bastava chegar um pouco para o lado e dar passagem. Em tempos de fim de ditadura, eu, ainda sem entender o que se passava no país, secretamente desejava que os vendedores conseguissem fugir dos homens de farda.

Mais da feira não me lembro. Exceto por um homem cego que vendia bananadas e que por vezes minha mãe comprava para mim. Um dia, após longa ausência, encontramos com ele em uma rua da Tijuca. Paramos e ele disse: “- Como sua filha cresceu!” Daquele dia em diante, passei a desconfiar de que ele não era cego. E muito tempo se passou para eu compreender que temos cinco sentidos para reconhecer o outro.

A memória é seletiva. Trazemos à tona o que nos convém e damos aos fatos as cores que queremos, para o bem ou para o mal. Sorte que a maioria de nós tende a esquecer os eventos ruins e dar novo sentido as coisinhas antes sem graça do nosso cotidiano. E ainda delineamos um contorno especial às nossas aventuras juvenis, algumas até hoje inconfessáveis.

Como na música de Cesária Évora, hoje regressei no tempo, uma saudade com gosto de infância.





Mamãe velha venha ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão

É um bater de amigo que

vibra dentro do meu coração



Venha Mamãe velha venha ouvir comigo
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou, mantenha
e bate dentro do meu coração

A chuva amiga mamãe velha a chuva
Que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha a ilha toda
Em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
E a terra agora é mesmo cabo verde
É a tempestade que virou bonança


Venha comigo mamãe velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou, mantenha
e bate dentro do meu coração

A chuva amiga mamãe velha a chuva
Que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha a ilha toda
Em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
E a terra agora é mesmo cabo verde
É a tempestade que virou bonança

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Chato é ser bruxa


Recentemente fui convidada para escrever no site LUGAR DE MÃE É AQUI. O site tem uma proposta muito boa para falar sobre maternidade e vale ser adicionado nos favoritos. Transcrevo aqui a minha contribuição.
A mulher sábia, significado da palavra bruxa em sânscrito

E foram felizes para sempre. Contudo, como dizem, para sempre é muito tempo e, para quem já tem mais de 25 anos, já ficou óbvio que felicidade é um estado inconstante do espírito, um sentimento bem fragmentado que pode durar segundos, se ausentar por horas e retornar por poucos minutos várias vezes em um mesmo dia.

As crianças são assim. Do “eu te odeio” para a frase oposta é só uma questão de se interessarem por outra cena, outro brinquedo ou jogo. Mas não se iludam. Quantos sentimentos estão sendo elaborados em um sim e em um não que damos aos nossos pequenos. E como nos corrói a alma quando nos sentimos inseguros na hora de dizer estas palavrinhas.

Para o leitor, pode parecer bobo, mas só há pouco tempo descobri que as bruxas dos contos de fadas na verdade são mulheres idosas com suas vastas e mal cuidadas cabeleiras brancas e, em muitas histórias, detentoras de uma cobiçada sabedoria e conhecimento da vida. Mas é compreensível a minha ignorância. Afinal, eu nunca me identifiquei com a bruxa da história! Sempre me via na alma de princesa a espera do belo e valente príncipe.

Mas isto fica para outra vez. Nosso tema aqui são as crianças e as bruxas. E de repente me vejo interpretando perfeitamente a madrasta má da cinderela, a bruxa de João e Maria ou a de Rapunzel. Ser mãe é ser bruxa. No entanto, é preciso ter outra leitura do que seria bruxaria. Estamos forjando pequenos seres para um mundo melhor e nem sempre sabemos se estamos certos das nossas escolhas. Por isso Freud já dizia: “relaxa, mãe, de qualquer maneira você terá fracassado”.

Mas espera aí! Também não é porque a perfeição é impossível que não vamos nos esforçar ao máximo para oferecer o que há de melhor aos nossos meninos e meninas, não é mesmo? Mas o que seria oferecer o melhor? Roupas de marca? Passeios caros? Toda a rede de fast food com seus brinquedos descartáveis a qualquer hora do dia ou da noite? Trocar o jantar pela batata frita? Deixar que assistam livremente a qualquer programa na TV? Qual o limite entre a tolerância e a imposição de nossas vontades? Dizer ao filho que ele pode tudo é tão nocivo quanto dizer que ele não pode nada.

A melhor herança que podemos dar aos nossos filhos são raizes e asas


Citando mais uma vez os psicanalistas, 99% do problema dos filhos estão nos pais. A questão não é o problema em si, mas a maneira como o enfrentamos. E, como diriam os budistas, a serenidade da alma é que vai ditar a destreza de conduzirmos cada situação vivida. Quanto mais turbulenta a água, maior a probabilidade de fracasso. Opa! Olha ela aí de novo. Essa palavrinha que assombra a cada mãe e pai consumidos na desonra diante de uma presumível falha. Somos seres imersos na probabilidade da culpa. E, quanto mais nos debatemos neste rio, maior a nossa possibilidade de afogamento.

Então, respirar fundo e sustentar um não bem fundamentado e argumentado, pode render aos nossos príncipes herdeiros um reino alicerçado na confiança do que é certo, do que é ético e do que é ser responsável pelos seus atos. Apoiar os sonhos, sempre, mas com a responsabilidade de nossas escolhas.
Quem é mãe de meninos e meninas por volta dos 9, 10 anos de idade, escutam com frequência a argumentação: “Isso não é justo!” O que seria justo e injusto aos nossos pequenos?

Sigo invocando “las brujas”, as mulheres sábias, para que eu possa educar meu pequeno príncipe com justiça (quase sempre) salomônica. Vamos usando uma tintura ali, um cremezinho aqui, para ficarmos por mais tempo ainda belas, mas é preciso assumir o papel de que ser mãe (e ser pai) nem sempre será o de mocinhos e mocinhas adoráveis. Bom, ninguém disse que seria fácil. Mas não há como negar que é muito bom quando acertamos nesta sintonia. Afinal, quase sempre após um não bem colocado, nossos filhos se apresentam seguros pelo caminho que estamos construindo com eles.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um Dia de Gato


Sempre me sinto incomodada com o termo sala de estar.  Este é aquele espaço da casa onde passamos pouco ou nenhum tempo e em que tudo que olhamos nos envia a mensagem: Proibido tocar. Como um santuário, a sala de estar costuma ter móveis caros, peças de vidro, um lugar que espanta crianças e cultuar o passado das cortes reais onde recebia-se o visitante com pompas e distanciamento.

A sala de estar é um lugar sem alma, um fake da vida. Esta, a vida, encontra calor e aconhego na cozinha, nas varandas, no quarto. Por isso fiz na minha casa a sala do fazer. Dos trabalhos manuais, dos deveres escolares repletos de cola, tesoura e lápis colorido, dos jornais mal dobrados e revistas marcadas para serem lidas mais tarde. Do sofá gasto das conversas com os amigos regadas a café e cerveja.

Uma vez fiz um almoço em minha casa para amigos de um antigo trabalho. Foi um dia de mão na massa preparando coletivamente um delicioso bobó de camarão que foi digerido com um bom vinho branco. Embora alguns estivessem visitando minha casa pela primeira vez, fizeram cesta após a refeição. E um destes amigos confessou-me mais tarde como foi mágico dormir sem reservas em uma casa que não era a dele. Naquele dia, todos se sentiram em casa.

Talvez, porque celebrávamos a vida, simplesmente. Naquele dia, tiramos o domingo para sermos felizes. Foi um dia de gato. Dia de Gato é dia de ficar curtindo o nosso lar, dia de cantar sem se importar de ser desafinado, dia de se sentir poderoso por aproveitar o tempo livre que se tem da melhor maneira possível. Aproveitar com quem se quer bem.

Ando preocupada com o relógio na parede da sala de estar. Nele, existem minutos para tudo. Escovar os dentes, arrumar a cama, hora de levantar, hora de dormir, hora de trabalhar, todos os dias da mesma maneira. Onde estão os ponteiros que marcam a hora da vida? Sinto que o compasso do tempo anda acelerado e há tanto que se fazer. Não que a rotina não seja uma parte da vida, mas onde colocar o tempo do improviso? Como conciliar o tempo livre de toda a família, os diferentes quereres e a deliciosa preguiça de simplesmente se jogar na rede? Para onde fugiu o meu Dia de Gato? Dia de lamber a cria, de acordar tarde e não arrumar a cama, de almoçar na rua ou desistir de sair?

Somos almas aceleradas em um grande planeta não tão mais azul, sentadas em suas “salas de estar”, em estado constante de cumpridores de tarefas. Onde está a sala dos pensamentos? Onde está a sala das novas realizações? Vou procurar no telhado, atrás das cortinas, no alpendre da janela. Em algum lugar vou encontrar, quero reencontrar o meu Dia de Gato.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Santuários da alma

                                                               Apenas um minto e quatorze de natureza 
Um lugar perfeito. Será que existe? Um lugar capaz de nos harmonizar, de nos fazer perceber que qualquer stress, raiva ou tristeza seria um sacrilégio? Existem por aí alguns santuários da alma. Tenho certeza que você já esteve em algum deles. Eu tive o privilégio de visitar um recentemente em Bariloche, Argentina. Este é um lugar especial, seja qual for a estação do ano. Um lugar de onde é possível ver a grandiosidade da Cordilheira dos Andes emergindo do lago Nahuel Huapi. Os pinheiros se encurvam ao som do vento frio, brindando a luz fria do sol de inverno. Os pássaros, esses deuses alados, completam a paisagem que seria perfeita, apenas com um só desses elementos.

Se pudesse escolher, seria um pássaro andino, acostumado aos cumes e o verde das profundezas. Peixe bom e bom clima. Em outras palavras, boa comida e bela paisagem. O que precisaria mais para viver? Boa companhia? Talvez eu tenha esquecido de citá-la.

domingo, 24 de junho de 2012

Poda de inverno


Beija-flor tesoura
Escrever é a arte de cortar palavras, alguém escreveu um dia.

E a primeira vez que li esta frase a sensação foi de estranhamento total. Depois de alguns dias refletindo, entendi. Ou pelo menos penso que sim.

Escrever é decodificar o pensamento e todo pensamento é refratário, é um fragmento de um todo. Quando seleciono meu pensamento em alguma coisa, outro lado meu, outras ideias, restarão adormecidas.  Logo, pensar é canalizar todo o sentimento em um só momento, um só aspecto da vida. Pensar é restringir. É escolha.

Escrever é a decodificação dessa escolha. Hoje resolvi pensar no ato de pensar, no mecanismo da escrita. A sedução é importante para uma boa leitura, mas o que realmente faz o que se escreve inesquecível, atemporal, é a veracidade de nossos sentimentos. Quanto mais verdadeiro for um texto, mais universal ele será. É preciso acreditar no que se escreve. É preciso ter vivenciado o que queremos que o outro compreenda.

Ser verdadeiro não significa ser superficial nem demasiadamente profundo. Isto não tem haver com exposição, tem haver com alma, com crenças.  Eu creio, eu decodifico, eu escrevo. E serei mais ou menos aceita pelos que se identificarem comigo.

Escolhi a escrita como maneira de expressão por absoluta incompatibilidade com as artes plásticas. Talvez um dia me aventure pelas palavras com os pincéis, ou quem sabe consiga realizar o sonho de modelar em argila. Por hora, fico com o desenho maus traçados da literatura. Sejam eles parcos, minguados, completamente esporádicos, é o melhor que consigo na arte de registrar minhas emoções.

Cortar palavras é a arte de registrar ideais, fazer escolhas e concretizar sonhos.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A Operadora de Telemarketing

Há uma crença popular que mulher quando é feia compensa pela inteligência. Gislene não era nem uma coisa, nem outra. A morena até tinha curvas interessantes, mas não sabia se valorizar. Não tinha a menor vaidade. Não sabia combinar roupa, não se preocupava com os cabelos nem com maquiagem. Na escola, as notas eram apenas medianas. Sempre quieta pelos cantos, tinha poucos amigos. Saia pouco, lia menos ainda.

A menina cresceu e não deu nem para intelectual, nem para modelo. Tentou ser manicure, mas não conseguia tirar uma cutícula sem machucar as clientes. Como atendente de padaria, não conseguia se recordar dos pedidos, como garçonete, a mesma coisa. Um dia preencheu formulário para Operadora de Telemarketing.

Depois de passar por todas as etapas de treinamento, ficou como última colocada em uma lista de 365 nomes. Acabou por ser chamada para assumir o cargo, por absoluta falta de opções.

O que Gislene tinha a seu favor é que não compreendia bem as broncas que levava, nem tão pouco as ironias dos clientes e dos colegas de trabalho.
Como não conseguia decorar, nem seguir os scripts de atendimento, resolveu improvisar. E foi assim que iniciou uma revolução no atendimento da empresa onde atuava:

- Bom dia senhor, percebo que está com a voz um pouco fanha. Está gripado?
- Estou sim, respondeu a voz do outro lado, estranhando a pergunta.
- Minha avó fazia um chá muito bom para isso.  Anote aí. Um limão cortado em cruz,  deixe ferver na água. Adoce com mel. Tenho um mel puro que vem da roça do meu primo, se o senhor quiser, posso te dar um pouco. O senhor pode pedir para alguém pegar aqui na portaria, deixo no seu nome.

- Bom dia senhora, tem um instante?   
- Não, minha filha, estou atrasada para buscar meus meninos na escola.
- Há então vá, senhora, porque criança não pode ficar esperando, dá trauma. Olha, cuidado com o trânsito, viu? Não corra muito. Seus filhos precisam de mãe! Mais tarde eu ligo.

Mais tarde...

- Boa tarde, senhora, correu tudo bem o seus meninos na escola hoje? Pode falar agora?
A mulher, em um misto de desconfiada e sem graça:
- Na verdade, vou começar o jantar...
- Hum, hoje está bom para uma sopinha de legumes.
- Sim, mas meus filhos não se convencem a tomar uma.
- Eu tenho uma receita que criança A-D-O-R-A.
E dá-lhe receita e do outro lado da linha a senhora anotando tudo.
- Posso ligar após às 21h? Presumo que a esta hora já tenha colocado os pequeno para dormir e possa falar um pouquinho.
- Liga sim, e te conto o resultado da sopa.

No primeiro mês Gislene bateu a meta. No segundo, começo a receber telefonemas:

- A Gislene está? Não, só serve ela.

E também começaram a chegar cartas, visitas. Gislene se tornou popular. Sempre tinha receitas e mandingas para febres, resfriados, espinhela caída. Em cinco meses era pauta da reunião de diretoria:

- Vão nos processar pelo exercício ilegal de curandeirismo! - alertou o advogado da empresa.
- Ela sozinha bateu a meta da minha seção – respondeu o supervisor de área.
- Os rendimentos aumentaram 45%– disse o diretor-financeiro
- A empresa agora é a primeira do Top of Mind – informou o diretor de marketing.

Gislene fica. Promoção? Ela poderia treinar os seus colegas e a empresa iria colocar seu modelo revolucionário no script.

É claro que não deu certo. Faltavam alguns itens fundamentais que não podiam ser transferidos: espontaneidade, criatividade, humildade e, principalmente, sinceridade.

Gislene perdeu o emprego por não dar conta de ser supervisora de área e implantar seu método revolucionário, que acabou sendo esquecido com o passar do tempo.

Mas ganhou amigos. Mudou-se para a fazenda do primo e hoje mantém um apiário em sociedade com aquele senhor que ajudou a curar da gripe.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Café sem capuccino


Respingo de chuva incomoda. Mesmo sendo chuva rasa. Ele já havia molhado boa parte das calças de sarja cor de areia. Os sapatos tipo tênis estavam encharcados. Bueiros de metrópoles transbordam logo, como a paciência das pessoas que mudam de humor na mesma velocidade que os semáforos. O suéter vermelho, jogado sem compromisso pelos ombros, cobria a camisa verde e, de alguma maneira, velava o rosto do rapaz. A barba por fazer, os olhos tensos, a boca era a única parte do seu corpo que restava seca.

Entrou no bar e pediu um café. Como sempre. Amargo e forte. Sentado no balcão, ocupava aquele estado de corpo e de espírito em que não podemos ser notados. Por isso, também não pode perceber quando a moça morena de olhos negros passou por ele quase esbarrando em seu braço. A moça também não poderia tê-lo visto e só por isso seguiu seu caminho para todo o sempre.
 
 
Diego continuou sentado com o olhar perdido. Tirou do bolso o celular e pensou em ligar. Tecla Redial. Mas faltou a coragem ou teria sido tomado pelo excesso de orgulho. O fato é que não estava disposto a pedir desculpas. E não pediu. Acabou de tomar o café. Procurou a letra B em sua lista de contatos e deletou o seu número. Pagou a conta e seguiu pela chuva fina. Ao dobrar a esquina, ouviu de um ambulante que vendia guarda-chuvas: “Chuva de molhar bobo”.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O velho jardineiro



Era uma rua comprida e sem saída, onde na última casa, a mais larga de todas, ocupando dois quarteirões, morava um senhor de muitos anos. Tantos que ninguém arriscava a dizer quantos. Talvez nem tantos, se fôssemos observar o andar esguio e reto. O tônus dos braços bem torneados ainda podia ser notado quando ele usava camisas de mangas curtas. Era um homem misterioso, como todos que vivem na solidão. Poucas palavras, poucos sorrisos. Mas o que deixava claro o sinal dos anos vividos era o olhar perdido, muito além das rugas colecionadas em sua face.

O homem levantava cedo pelas manhãs e cuidava dos jardins de toda a vizinhança em um raio de 10 quilômetros por ali. Chegava, botava preço no serviço, que era alto, mas pago de bom agrado, depois que viam o capricho com que cumpria a tarefa confiada.

Gostava mesmo de trabalhar em dias que sucediam nuvens de água. Terrinha boa era aquela, vinha com cheiro de chuva. Metia as mãos até o fundo e remexia tudo, minhocas, cascas de caramujos. Dava um prazer danado desmanchar os torrões de terra. Dedos esmagadores.  Por horas passava assim, replantando vasos, retirando mudas, fazendo a poda.

Por muitas vezes entrava nas casas sem ser notado e, assim como entrava, saia. Porém, quando terminava o seu ofício, o que ficava não era um jardim capinado, era mais como uma pintura de Monet, sendo possível a quem passasse sentir até mesmo o aroma de tinta fresca, tão vivo era o verde das folhas e o colorido das flores. Um toque mágico vinha daquele velho homem. Com cabelos grisalhos e um rosto marcado como sulcos em terra seca, agia delicadamente, a pesar dos dedos grossos e pesados da lida.

José Euzébio de Jesus era o seu nome de batismo, mas há muitos anos era conhecido como Zé Bezouro. Morava no fim da rua e quase não recebia visitas. O muro alto era feito de um emaranhado de enormes coras de cristo que alcançavam a espantosa marca dos dois metros e meio de altura. Um caramanchão de bougainvilles vermelhas cobria a entrada principal, onde de ambos os lados, guardavam a moradia altivas espadas de São Jorge. Era tudo o que se conseguia ver da casa de Zé Besouro.

Diziam as más línguas que o apelido era por conta das ferroadas que ele dava àqueles que queriam se chegar sem ser convidado. Mas não era verdade.

Um dia de chuva fina, um carro espaçoso e moderno parou na porta de sua casa. De dentro saiu uma moça de cabelos cor de trigo e pele tão branca que parecia nunca ter se aquecido ao sol. A moça nunca havia sido vista por ali, mas tinha as chaves do portão de cedro da casa de Zé Besouro.

Ela abriu o portão há muitos anos fechado, entrou com o carro, deixando a passagem livre para quem quisesse entrar também. E muitos foram o que assim fizeram. Um a um, olhares curiosos seguiram os passos da moça branca de cabelos cor de trigo.

Era uma casa pequena cercada de um imenso jardim. Jasmins, hibiscos, hortênsias, jabuticabas, mangas, laranjeiras. Uma horta bem cuidada com hortelã, couve-manteiga, salsa e cebolinha. Mas o que mais chamava atenção era um imenso campo de roseiras com pequenas placas fincadas em cada uma delas. 

Mais tarde os vizinhos ficaram sabendo. A cada amigo falecido, Zé Besouro havia plantado uma roseira. Todas devidamente com os nomes de seus homenageados. As roseiras tomavam conta da maior parte do terreno que se perdia de vista à medida que se avançava por dentro dele. Eram muitos os amigos de Zé Besouro. Talvez porque o tempo houvesse aparentemente se esquecido dele, o velho homem, de tão cansado, teria se cansado também de fazer amigos.

A moça branca de cabelos de trigo estava ali para enterrar o tio-avô e cumprir seu último desejo. A casa das rosas teve seus portões arrancados transformando-se em um jardim aberto a todos que por ali passassem. No centro do jardim, bem no meio onde antes havia a casa de Zé Besouro, uma roseira branca foi plantada. E dela nasceram rosas tão brancas, como a moça. Mas tão brancas que pareciam terem saído de uma pintura de Monet.

Quem cuidava do jardim? Ninguém sabe dizer ao certo. Talvez as almas amadas que por ali foram por tanto tempo cultivadas na lembrança, talvez anjos, talvez.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O tatu



Contar histórias é um dom que um dia eu espero alcançar.

Meu tio contava histórias muito bem. Sabia valorizar cada cena, cada pausa para tirar de nós o mais profundo suspiro de agonia do que viria depois.
Certo dia ele chegou tarde à casa de minha avó, com um saco de mandioca nas costas e outro com um bicho amarrado. Ficamos todos curiosos para saber o que estaria ali dentro. Seria um leitão? Um gato do mato? Era um tatu. Um tatu-canastra, hoje em risco de extinção. Um tatu bravo que meu tio foi contando como achou.

- Eu estava vindo para cá com a caminhonete e parei no meio da estrada para descansar um pouco, beber um pouco d´água antes de seguir viagem. Em dias quentes, viajar em chão de terra parece que acalora mais a gente. 

Quando pus a ligar o carro, ouvi um gemido estranho. Pois o tatu havia entrado debaixo da caminhonete e, sabe lá como, ficado preso no fundo. Até agora estou sem entender como o bicho foi parar lá. O fato é que o peguei no colo e coloquei-o na beirada do caminho e já ia pegando o volante, quando vi o tatuzinho indo para o meio da estrada, se colocando entre mim e a passagem a seguir. Pensei comigo, este danado tá querendo a morte. 

Desliguei o motor, desci novamente e tentei espantar o bicho para o canto. Mas ele ficou ali como mula empacada. Peguei-o no colo e coloquei-o no meio do milharal que crescia na margem da estrada. Subi e virei a chave. Não andei nem meio metro e sai o tatu do meio dos pés de milho mais adiante. Vinha correndo com suas patas curtas para parar justo na curva de chão batido. 

Já comecei a pensar em alma penada. Fiz o nome do pai e desci meio desconfiado. Procurei pelos lados para ver se não enxergava alma deste ou de outro mundo. Apenas um vento fraco fazia as folhas de milho balançarem, formando um som que até me agradava, mas que naquele instante começava a me dar arrepios.

Olhei o tatu nos olhos. O bicho parado. Desviou o olhar, depois, lentamente mexeu o rabinho e mais nada. Deu pena e mais uma vez peguei-o no colo e, desta vez, coloquei-o na beirada da estrada na direção contrária a que eu seguia. Subi e fiquei procurando o bicho pelo retrovisor, mas que bobagem a minha. De tão pequeno, não poderia mesmo enxergá-lo.

Liguei o motor e pisei levemente no acelerador. Fui observando para ver se via o bicho na estrada à medida que tomava distância. Em vão. Desapareceu como havia aparecido.

Neste instante meu tio parava de contar o causo e saboreava demoradamente o café que minha avó havia lhe servido. Na verdade, ele saboreava observar nossos olhares atentos ávidos para saber o que havia acontecido com o pequeno tatu. Foi quando minha avó disse:

- Continua Olímpio, que você vai matar essa meninada de tanta curiosidade.

- Pois então, minha mãe. Andei 200 km de estrada de chão até pegar a estrada principal. (Nova pausa para o café). E quando, enfim, encontrei um posto para abastecer, foi que percebi que da boleia havia caído um pedaço de saco de linho, onde o danado do tatu cravou as unhas e seguiu viagem de carona. Ele veio surfando de um lado para o outro e eu nem percebi a toada deste maroto. Agora está aí.

- E o que você vai fazer com ele, meu tio? Perguntei, ansiosa, já sonhando em levá-lo comigo para o apartamento da Tijuca quando as férias de verão acabassem. 

- Vou comer, ora essa!

Fiquei horrorizada. Como teria coragem de comê-lo depois de tudo o que passaram juntos?

- É que ele não olhou nos meus olhos, respondeu meu tio que a estas horas já me encarava no fundo da minha íris, com o corpo arqueado e os braços apoiados nos joelho. Um olhar que pedia reverência e respeito aos mais velhos.

Baixei meu olhar e sai calada sem saber o que fazer.

De repente, todos da família e os vizinhos haviam sido avisados que ia ter tatu assado no dia seguinte.

Pois o fato é que quando meu tio foi tirar o bichinho do saco, ele o encarou de perto, parecendo que havia escutado toda a história, olhou fundo nos olhos do meu tio, que não pode mais fazer guisado. 

O tatu-canastra viveu solto na casa de minha avó por muitos anos, se enroscando entre os pés de goiaba e a horta de ora-prono-bis. Um belo dia, como veio se foi, sem deixar rastro. No mesmo dia em que meu tio faleceu. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Desvelo


Olhar dentro do olho é coisa de gente doida, parece. Ninguém olha profundo, Olha no além, aquele olhar perdidim sem entregas nem compromisso. Olhar subterfujo.

Desafio a você a olhar dentro dos meus olhos. Sabe que cor eles são? Sabe se têm brilho ou não? Eles sorriem para você ou estão opacos como gata parindo a cria?

Meus olhos são castanhos escuros. Não são azuis, nem verdes, nem negros como jabuticabas. São comuns à América Latina onde nasci. Mas eles sorriem. Quase sempre.

Devolvo o desafio. Esta semana quero te olhar de perto, bem de pertim mesmo. Dentro de ti, através da sua íris. Quero ver se está feliz ou triste, como se me encarasse no espelho.

O olhar deveria ser diagnóstico de exame médico. Não o fundo, o branco, o entorno e contorno. Lá dentro, na menina (dos olhos), saltam todas as mazelas, todos os dengos. Salta a vida.

Quando olhar dentro dos meus olhos, verá o quanto de mim pode conhecer. Encontro em ti um infinito de possibilidades. Entrego a mim um infinito de procuras. Mas só se olhar, dentro dos meus olhos.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Lua branca


Foto de Jeanne Look, Florianópolis

Esta semana tem lua cheia. A mais bela de todas.
De tão cheia e brilhante dá até vontade de uivar para ela.
Lua,lua,lua, impossível ser insensível a ela. Mesmo o instante sendo triste.
Mesmo que eu estivesse na mais profunda apatia, nem que fosse para invejá-la, ainda sim eu a admiraria.

Soberana, dona de si. Até o sol a ela se rende, posto que a ela o astro-rei empresta seu brilho mais bonito, transformando o céu em branco-neve.
Lua mulher, encantadora, perfeita em suas curvas, dona de si.

A claridade invade o quarto. Corro lá fora para ver a deusa-branca sobre o verde das árvores no quintal já anoitecido. Da claraboia, boia o delírio de prata.

Esta noite não é para ser dormida nem sonhada.

sábado, 5 de maio de 2012

Histamina

Definitivamente tenho uma incompatibilidade com tapetes. Falo daqueles grandes, felpudos, que decoram o chão em baixo da mesa de jantar.
Por de baixo do tapete sempre se esconde alguma coisa não muito agradável.
Restos de comida, poeira mal varrida, chão arranhado. O cheiro de casa fechada é mais forte quando se há tapetes espessos.Tapetes são como pessoas obscuras. Acumulam sujeiras e me causam alergia.
Tenho alergia crônica à falsidade.

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal aprovando a interrupção da gravidez de anencéfalos me deu vontade de escrever e pensar sobre o assunto. Há anos sou ativista do parto humanizado e do respeito ao direito da mulher escolher o seu parto. Digo isso porque, misteriosamente, embora pesquisas apontem que cerca de 70% a 80% das mulheres brasileiras desejam um parto normal para os seus filhos, apenas uma média de 10% conseguem. Veja artigo publicado no site Guia do Bebe.

A mulher do século XXI, vivendo no mundo ocidental, ainda sofre muita violência. E existe um tipo de violência pouco discutida e pouco difundida em nossa sociedade. Todos os dias, centenas de mulheres são violentadas no momento que lhe deveria ser mais sagrado, o momento do nascimento de um filho. E o mais absurdo ainda, a grande maioria nem chega a ter consciência desta violência. Outras acreditam que é assim mesmo que deve ser.

No Brasil de hoje, se uma grávida tem um plano de saúde e tiver condições financeiras para um parto particular, pode contar que será levada a ser submetida a uma cesariana. Ótimo, se este for o desejo da futura mamãe. Mas o que dizer da enorme estatística que inicia uma gestação sonhando com um parto normal que não se realiza? Enquanto isso no SUS, mulheres são moralmente agredidas com frases do tipo ”na hora de fazer, você não pensou na dor, agora aguenta”. Achou forte? Mas é bem mais comum do que o leitor imagina. E não para só por aí.

O que tem de comum entre a decisão do Supremo e o desejo feminino de se ter um parto normal? Direito de escolha. Este é o ponto. E quando este direito é negado, seja legalmente, seja por desculpas mal dadas que levam milhares de mulheres a uma cirurgia cesariana todos os dias, este é sim também um ato de violência.

Sobre a falsidade, quero apenas dizer que parabenizo médicos cesaristas que deixam claro na primeira consulta que não fazem parto normal. Eles, pelo menos, dão a gestante a oportunidade de saírem de seus consultórios e buscarem (sabe lá aonde ainda existam) profissionais dispostos a apoiá-las em suas escolhas.

Em tempo, cesariana é muito bem-vinda. Apenas em casos de verdadeira necessidade.

domingo, 8 de abril de 2012

Um bom dia para nascer

Foto: Malu Machado

A coisa mais bela da vida é o nascimento.

Nasci em um dia de primavera, sob o signo de virgem e ascendente em capricórnio.

Nasci em um sábado 13, e, pelo que me consta, esse dia dá muita sorte.
De tempos em temos é necessário renascer. Mudar de vaso, ajeitar a mente com adubo fértil.

Para se ter florada, é preciso remexer a terra. Tudo o que for estático, só perdura em fotografia. Na vida, é preciso nos reinventar o tempo todo.

Prendi o passado na gaveta do meu quarto. Hoje abri a janela, vi um outono ainda quente, com cheiro de esperança. 

Como as sábias da floresta, ando mexendo o meu caldeirão. O cheiro está bom. Parece que algo muito especial se avizinha.

Vou cozinhando o caldo em fogo brando. Cautela é bom para quem renasce. Aos poucos, a dor da mudança já vai ficando para trás. Agora vou curtindo cada minuto de uma nova gravidez, parto de mim mesma, gerando um novo ser, forjado há muitos anos. 

Retiro a casca e renovo a pele. Dói. Mas é bom.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Partiu Glorinha de Lion - A estrela sobe



Ainda não me acostumei com a fluidez permitida pela tecnologia de nosso tempo.

E, por falar nela, quem sabe, um dia, textos como este que aqui escrevo, sejam analisados por historiadores do futuro com a curiosidade de quem convive muito bem com as possibilidades da internet.

Mas o fato é que hoje trago em mim um misto de tristeza e de estranhamento. De tal maneira que tomei conhecimento a pouco pelo meu amigo virtual Alexandre Mauj que postou em seu facebook a notícia do falecimento de nossa querida Glorinha de Lion.

A escritora, guerreira, mulher, minha amiga de um mundo estranhamente novo para mim e, acredito, para tantos. Como posso me sentir tão íntima de uma pessoa que convivi apenas por comentários em nossos blogs?

Mas o fato é que por muitas vezes Glorinha fez a diferença na minha vida como sei que, por algumas vezes, fiz diferença na dela.

Guardava em mim a esperança de um dia nos conhecermos pessoalmente. Não posso, se quer, enviar meu sentimentos aos seus, pois não conheci seu círculo familiar.

Mas não poderia deixar de escrever aqui a minha mensagem de saudades e lamento pela minha querida amiga que tanto me ajudou em palavras. Sentimentos iguais de almas que nunca se encontraram no mundo real, mas qual seria mesmo o mundo real?

Eu acredito em forças espirituais e por isso, emano todo o meu afeto a este ser especial que passou por minha vida. Sua lembrança em mim nunca morrerá.

sábado, 24 de março de 2012

Gente grande, gente miúda

O legado maior que alguém pode dar a uma criança é a capacidade da imaginação. Chega a estação em que tudo dói dentro da gente. Dói o coração e os joelhos e dói profundamente suspirar pelo tempo que passou. Tenham sido bons ou maus tempos.

Tudo dói no pensamento.Penosas são as horas de insuportáveis desesperos, fadiga, impotência, um vazio sem muito um porque, uma sem vontade danada da vida.Nessas horas, o que alimenta a alma é o alicerce dos anos de alegria em que os dias e as noites passavam como relâmpagos que nem dava para brincar de tudo e os meses e anos eram longos, longos e sem fim.

Nos meus tempos de criança, vi figuras grandes que passavam e pareciam tão tristes. Hoje sou eu quem passo com meu rosto caído. Embora o outono se avizinhe revelando a chegada do inverno, ainda sinto o calor do sol e o brilho da esperança. Ainda consigo me alegrar com o canto dos pássaros.
Talvez porque algum dia, algum grande me ensinou a acreditar em coisas mágicas e simples. Bem simples.

"Não ensines a teu filho que as estrelas
Não são do tamanho que parece ter:
Maiores do que a terra!
São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias
Assim que o sol começa a escurecer...
Não diga a teu filho
Que as asas dos anjos
Só existem na imaginação
Já vi meu anjo em sonho e posso jurar
Que ele tem asas claras
Que até parecem feitas de luz.
Não encha a cabeça do teu filho
Ensinando-lhe hipóteses precárias
Que amanhã de nada servirão.
Povoa de beleza
O olhar inocente do teu filho.
Dá-lhe uma provisão de bondade
Que chegue para a marcha da vida.
Infundi-lhe na alma o amor de Deus
E tudo mais por acréscimo ele terá.
"
Dom Helder Câmara

sexta-feira, 16 de março de 2012

A ansiedade e a arte do silêncio

Tenho aos poucos podido retomar o hábito da leitura. Depois que se é mãe de um menino cuja frase mais pronunciada quando você está por perto é: Manhéee, vem cá !!!!!!!!!, alguns textos parecem estar escritos em sânscrito para mim. Mas eis que os dias passam e a criança cresce e conseguimos administrar melhor o nosso tempo.

Neste instante começo a me deliciar novamente com o mundo literário e, como no filme a Rosa Púrpura do Cairo, absorvo o que leio e começo a levar o novo conhecimento para o meu dia-a-dia. Nesta gostosa divagação percebi um elo entre a minha leitura atual e a realidade que me cerca. Foi, então, que observei um mundo de ansiedade à minha volta. E um mundo extremamente feminino. Como, nós mulheres, somos ansiosas! 
Há sete dias me persegue a ansiedade alheia.  E, com apenas um sorriso de silêncio, apenas escuto, sem deixar nenhum rastro que possibilite perpetuar a agonia que paira nos corações de minhas confidentes. Há sete dias tenho exercitado esta difícil postura. E, é lógico, não sei por quanto tempo conseguirei manter esta atitude.
 
Seria a arte de ouvir para iniciados? Por que teimamos em dar nossa opinião sobre todos os fatos que chegam até nós sem ao menos esperar conhecer todos os ângulos de uma questão? E por quantas vezes percebemos que alguém está à nossa frente com olhar distante sem realmente escutar nada que desejamos compartilhar? Mais do que isso, necessitamos compartilhar, como se isso dependesse a continuidade dos batimentos do nosso coração?
 
Pois esta semana eu posso dizer que ouvi. Realmente ouvi pessoas que chegaram até mim com problemas diversos e eu realmente apenas escutei. Da minha boca não sairá palavra de julgamento ou de esperança, que incite à luta ou mesmo que console. 
As pessoas ansiosas não necessitam cultivar mais apreensão em suas vidas. Necessitam apenas e tão somente de um olhar atento que confirme que estão sendo escutadas. Que no silêncio da sua voz, possa o outro encontrar suas próprias respostas e seguir o seu caminho com menos atropelos, menor velocidade e mais felicidade. 

A mudança de curso não acontece em minutos ou mesmo dias, às vezes se leva uma vida toda. A serenidade é um hábito que pede um cultivo delicado. Nem muito sol, nem muita chuva, nem muita sombra. Só assim teremos uma árvore bela para apresentar ao longo da nossa caminhada.

domingo, 4 de março de 2012

40 graus à sombra


Foto - Malu Machado
O verão chegou aqui nas terras brasileiras tão intenso como o inverno europeu. Os termômetros marcam 40 graus em minha cidade, que não é famosa por verões intensos. A sensação térmica é bem maior. Sinto até dores no estômago de tanto calor, calor, calor. Minhas gatas renderam-se ao barulho ensurdecedor do ventilador e deitam-se em frente a ele. Que importa o medo deste bicho estranho? Querem se refrescar. 

Ontem a noite
o clima ficou um pouco mais ameno por aqui. O suficiente para as duas “meninas” caírem no mundo. Voltaram bem tarde, aproveitando a rara brisa do sábado. Felizes essas meninas. Eu e meu marido ficamos sentados na rede olhando as estrelas serem engolidas pela claridade da lua cheia que se aproxima.

Lua que meu filho tem como dever de casa observar e dizer à professora como ela está. Tarefa vivenciada com alegria, tão gostosa como saborear sorvete às oito da noite, coisa rara por aqui. (por que no Brasil temos o hábito de tomar sorvete só quando está quente?).

O verão de 2012 me lembra o verão em que meu filho nasceu. Um dia de nascido e lá estava ele só de fraldas. E suando por todos os poros após intensa mamada. Menino forte este meu filho, regado a leite materno com seus mistérios e sabedoria.

Lembra-me os verões cariocas da minha infância e da vida adulta. Dias e dias sem ânimo para nada. Sucos de laranja com limão, água de coco, chop gelado, tomar banho frio no meio da noite, chupar gelo com prazer de quem devora a melhor das iguarias.

Lembra-me os passeios em meio a matas, cachoeiras, a praias desertas. Mergulhos inesquecíveis de corpo e alma.

A pele dourada revela o vigor de energia renovada. O sol, astro rei, chegou! É tempo de celebrar toda a sua claridade. Não há como se esconder. Saiam às ruas, aproveitem a estação da luz. Em breve a Terra segue o seu curso e nossa estrela maior irá iluminar outros campos, outras mentes.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Porão de ideias


De vez em quando é bom fazer faxina. Limpar a casa é um ótimo remédio para nos sentirmos de bem com a vida. Sabe aquela arrumada nas gavetas, jogar papéis fora, tirar aquele sujinho da tomada atrás da porta que ninguém vê, que sempre te incomoda, mas que você sempre deixa para depois? E aí vem aquele merecido banho, gostoso e relaxante, de quem está em harmonia com o universo.

Mas fazer faxina é cansativo, dá preguiça, é chato. Até que começamos e nos entregamos ao estado de espírito de limpeza profunda da alma. E é nesta entrega que os pensamentos vagam entre uma poeira e outra. Os pensamentos fluem. Chegam e vão, por vezes trazem correntes atormentadas, por vezes leves plainando no ar, por vezes com lágrimas, por vezes com euforia. Mas seja qual for a roupagem, eles chegam, eles vão, pois necessitam dar espaço ao ato de tirar o pó, lavar o chão, limpar e limpar, deixando tudo mais claro. E de alguma maneira este mecanismo de fazer e pensar nos estabiliza por um tempo.

Até que chega a hora em que temos que descer ao porão e enfrentar o que vivemos e o que deixamos de viver. Este é o meu tempo hoje. Necessito ávidamente de retirar toda poeira das minhas veias. Necessito de vida. E de repente me vejo em uma correria louca para realizar todos os projetos que um dia sonhei e deixei, com se não houvesse mais tempo.

Toda dor vale a pena. A minha, a sua. Não preciso de julgamentos nem de perdões. A minha dor é a dor da humanidade. Não há nada de errado comigo e, ao mesmo tempo, há tudo de errado. E simplesmente preciso percorrer este caminho, com sede, fome, cansaço, desânimo.

Que bom seria que tudo fosse fluido como um rio tranquilo. Como o dia em que fazer faxina nos dá prazer (nem sempre). E talvez seja esta a busca do equilíbrio. É preciso encarar a preguiça e o medo de mexer nas coisas lá dentro, mais profundas da minha alma.

Talvez eu volte a fechar a porta. Talvez eu jogue tudo para fora e comece a limpar. Talvez.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sem rótulos, nem certezas

Foto - Malu Machado
Ainda bem que estava atenta aos sinais.

Quando percebi que não havia espaço para mais ninguém no jardim.
Quantas vezes nos sentimos forasteiros na terra onde vivemos?

Foi assim comigo quando me mudei da minha cidade natal. De uma cidade grande para uma pequena. Não tão pequena, mas formada por pequenas redes impenetráveis de amigos de infância, intermináveis almoços nas casas de avós com todos os primos e primas. Bem diferente da democracia das praias de Ipanema onde era só chegar e se enturmar.

Foram anos de convivência informal, cultivando um sentimento de não pertencimento.
E então, a cidade começou a ser invadida. Uma onda de migrantes vinda de cidades gigantescas, pessoas em busca de uma vida menos atribulada, mas que garanta um certo acesso à cultura, lazer e modernidades.
E, de repente, éramos mais de dez, vinte, cem, os forasteiros, vindos de diversas capitais brasileiras e, diante do estranhamento desta mineirice acabrunhada, fomos formando o nosso canteirinho, sem rótulos, sem cercas, com espaço para todos os sonhos e vontades.

E hoje posso dizer que, da casa onde ergui minha vida, cada vaso de planta, cada amigo que chega, é com se abrisse as cortinas e estivesse exatamente aonde gostaria de estar. Na verdade, pouco importa a terra. Aprendi a viajar no tempo e a ser feliz com minha eterna falta de contexto. 

Não sou o tipo de peça se que encaixa em um só quebra-cabeça. Antes, necessito germinar em diferentes quintais, necessito de enxertos contínuos aprimorando a minha espécie. Deixando em outros um pouco do meu sal, levo comigo a semente de muitos para um novo amanhecer, seja ele aonde for.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dia de domingo




Vou contar uma história de um dia de calor intenso.
Água de coco, ventilador ligado, um céu azul que há muito não viam.
Caminhar abraçados, criança brincando.

Preparar o almoço juntinhos, dia de descanso. Dia comum, que acontecimento!
Apenas pequenas coisas feitas, pequenas e significativas.
Apenas um olhar para se compreenderem.

E quem achava que a razão havia se perdido, bastou um dia de silêncio e de paz para confirmar que tudo está ali, ao alcance das nossas mãos. Precisamos apenas nos entregar à simplicidade do ato.

Dá gosto viver assim.

"Loves is old, love is new, love is all, love is you."

domingo, 22 de janeiro de 2012

Universidade de Pés Descalços



Acabei de ler no perfil do grupo Chiquinha Gonzaga no facebook, um material postado pela minha amiga Maristela Rocha. Na velocidade da informação pertinente à nossa contemporaneidade, nem sei bem o porquê que este grupo foi formalmente criado, mas acredito que o espírito da coisa seja para difundir e debater o pioneirismo do presente e do passado. Bom, mulheres não precisam de muito para se comunicar. Por vezes bastam os gestos, não é mesmo, Bunker Roy?
 
O fato é que o texto postado pela Maristela e que reproduzo abaixo, veio aparecer na minha vida logo após eu ter assistido o vídeo acima. E fazer a conexão do pioneirismo de um com o outro foi um pulo:

 
A frágil feminilidade tinha que ser manifestada no comportamento, na educação, no vestuário. O "Jornal do Século" traz o registro de duas mulheres agredidas, em 1911, por usarem saia-calça. O fato ocorreu às 17 horas na calçada em frente à redação do "Jornal do Brasil": "Duas mulheres não identificadas, trajando jupes-culotte (saias-calça), moda lançada em Paris no mês passado, pararam o trânsito na Avenida Central e escaparam de ser linchadas graças a dois delegados..."

 
A palestra do indiano Bunker Roy mostra pessoas mudando paradigmas através de práticas cotidianas. Eles reinventam um cenário usando os elementos que têm. As mulheres ganham um destaque à parte. O vídeo não mostra propriamente mudanças de costumes, embora elas vão acontecendo lenta e gradativamente e isso fica claro no relato final. Mas a sutileza da proposta é a transformação que as pessoas podem promover nas comunidades onde vivem com que cada um já traz em seu interior.

 
Há alguns anos aqui no Brasil tivemos a novela “O Clone” em que a personagem de Letícia Sabatela demonstrava toda a artimanha feminina necessária às mulheres marroquinas para conseguirem seus objetivos junto aos homens de suas famílias. Sempre achei fabulosa a construção da personagem Latiffa. Fica claro como em muitas culturas as mulheres continuam não tendo o direito de defenderem diretamente seus pontos de vista, e por isso, lançam mão de subterfúgios, pequenas mentiras, armadilhas e tramas, como as mulheres ocidentais de séculos passados que necessitavam escutar na alcova da casa o que os homens falavam na sala principal.

 
Mas a força feminina é universal. Vamos combinar, mulher é acima de tudo um bicho falante! Se não podemos nos comunicar com a voz, usaremos as mãos e a face, se esconderem nosso rosto, usaremos o olhar ou os passos miúdos ou ligeiros serão a nossa expressão. Ou ainda o cuidar dos filhos, o fazer a comida, varrer o quintal. Sempre encontraremos uma maneira de compartilhar.


 
Fiquei fascinada pela experiência da Universidade dos Pés Descalços. É como se naquele lugar alguém tivesse aberto um baú de destroços e descoberto que poderia construir uma nova história com tudo o que estava dentro dele. Acho que a Grace Olsson seria uma forte candidata a contribuir com este lugar, que agora já avança em outros continentes.

 
Hoje me lembrei da minha avó que sabiamente colhi ervas nas quadras certas da lua e não plantava em meses com a letra erre. No mais, conflitos deveriam ser sempre resolvidos com fantoches, vocês não acham?