"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

Antoninhos




Meu filho de nove anos, aos quatro, estudava em uma escola onde pela primeira vez conheceu um menino negro. Ele não me falou sobre este fato. Até que um dia, dentro do carro, soltou: “Olha ali uma porção de Antoninhos!”. Senti em sua voz um tom de que não estava sabendo lidar com aquela informação.  Em poucos minutos, pensei tanta coisa. Pensei nos anos de preconceito no mundo. Pensei na Tia Anastácia e no livro “As Belas Histórias”, pensei em minha avó e seu preconceito velado tão próprio da mineiridade.

Rapidamente roguei aos deuses que acontecesse quase o impossível em um país tão miscigenado como o Brasil. Que passasse por ali um menino loiro indo para a escola como iam os Antoninhos. E passou. No mesmo ato, falei: “Olha ali, um Rafaelzinho!”. Ele se incomodou: “Mamãe, ele não se chama Rafael”. “Nem tão pouco aqueles meninos são Antoninhos, meu filho”.

Segregar, distanciar, rejeitar o novo, o diferente. Todos os dias convivemos com isso. Neste instante, enquanto escrevo, penso. Meu texto é uma crônica? A necessidade de uma forma e de uma fôrma. A necessidade humana da classificação

Sempre fui amante do novo, aberta ao diferente, curiosa pelos segredos guardados na caixa da vida. Entrelaço ideias, misturo, reinvento e só assim encontro o colorido que me encanta. Para logo depois ir em busca de um outro começo. A vida só tem sentido na eterna descoberta.

Meu filho ainda tem em sua essência a desconfiança pelo desconhecido. Sejam sapatos novos, viagens, sabores. Espero ter sempre a iluminação necessária para guiá-lo enquanto ele precisar. Hoje, alguns de seus melhores amigos são negros. E para dizer a verdade, isso já não faz a menor diferença.

(Escrito durante a oficina "As performances do corpo na criação literária", ministrada por Anelise Freitas na programação do Sesc Literatura, promovido pelo Sesc Juiz de Fora.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O senhor do tempo




Levante a mão quem nunca teve vontade de arrancar os ponteiros de um relógio ou de jogá-lo na parede. Este medidor de tempo que determina o que podemos e não podemos fazer na nossa interminável lista de tarefas. Este senhor de barbas longas, que parece tão sábio, e que ainda não sabemos lidar com ele.

E de repente chega para muitos de nós a maternidade. Quem tem filhos sabe que cada idade é preciosa e guarda as suas descobertas. Mas o período entre os 3 e 5 anos de idade são especiais pela espontaneidade e as famosas pérolas que guardamos para relembrar ano após ano em almoços e encontros familiares e naqueles bate-papos sobre maternidade e paternidade.

Coleciono histórias de amigos e tenho as minhas próprias para contar. Como quando meu filho, aos 4 anos de idade, depois de uma travessia de 2 horas pelo mar até a Ilha Grande, sentado na janela do quarto, com as pernas dobradas, os braços segurando os joelhos e com os olhos perdidos naquela imensidão, filosofou: “É... papai, mamãe, eu, a gente não sabe nada”. Ou quando aos 3 anos, depois de escutar uma ladainha de “ordens” dadas por mim, respondeu: “Mamãe, “pesta” atenção – cová dente, tomá banho, não precisa nada disso mamãe, entendeu?”.  Isso dito com a maior tranquilidade do mundo, no melhor estilo larga do meu pé sua chata!

E não é isso que nos tornamos, nesta ansiedade doentia de ocupar o tempo com o que temos que fazer? A minha ansiedade é a do dever a ser cumprido. O dever que imputei a mim mesma dos horários rígidos para minhas ocupações. 

E eis que chegam até nós estas almas também ansiosas, mas um anseio pelo novo, pelas descobertas da vida. E de repente uma pracinha perto de casa pode ser tão fascinante quanto qualquer Disney World e esconder tesouros de pirata e pedras preciosas de duendes.

O tempo das crianças é um tempo à parte, como o tempo dos mais velhos. É o tempo sem culpa de ser gasto. É aquele tempo gostoso da conversa jogada fora, que na verdade é jogada dentro da alma e alimenta sorrisos e compartilha sentimentos verdadeiros.

Peço desculpas ao meu filho pelas vezes que o fiz correr por estarmos atrasados, peço desculpas por imputar a ele uma correria doentia da qual eu mesma tento me livrar.

Hoje, sinto-me uma mãe menos dona da verdade e mais aprendiz, ao lado do olhar curioso do meu filho que já sabe ver as horas, mas não está nem ai para elas, a não ser se for para ir à aula de Kung Fu, sua nova paixão.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Chato é ser bruxa


Recentemente fui convidada para escrever no site LUGAR DE MÃE É AQUI. O site tem uma proposta muito boa para falar sobre maternidade e vale ser adicionado nos favoritos. Transcrevo aqui a minha contribuição.
A mulher sábia, significado da palavra bruxa em sânscrito

E foram felizes para sempre. Contudo, como dizem, para sempre é muito tempo e, para quem já tem mais de 25 anos, já ficou óbvio que felicidade é um estado inconstante do espírito, um sentimento bem fragmentado que pode durar segundos, se ausentar por horas e retornar por poucos minutos várias vezes em um mesmo dia.

As crianças são assim. Do “eu te odeio” para a frase oposta é só uma questão de se interessarem por outra cena, outro brinquedo ou jogo. Mas não se iludam. Quantos sentimentos estão sendo elaborados em um sim e em um não que damos aos nossos pequenos. E como nos corrói a alma quando nos sentimos inseguros na hora de dizer estas palavrinhas.

Para o leitor, pode parecer bobo, mas só há pouco tempo descobri que as bruxas dos contos de fadas na verdade são mulheres idosas com suas vastas e mal cuidadas cabeleiras brancas e, em muitas histórias, detentoras de uma cobiçada sabedoria e conhecimento da vida. Mas é compreensível a minha ignorância. Afinal, eu nunca me identifiquei com a bruxa da história! Sempre me via na alma de princesa a espera do belo e valente príncipe.

Mas isto fica para outra vez. Nosso tema aqui são as crianças e as bruxas. E de repente me vejo interpretando perfeitamente a madrasta má da cinderela, a bruxa de João e Maria ou a de Rapunzel. Ser mãe é ser bruxa. No entanto, é preciso ter outra leitura do que seria bruxaria. Estamos forjando pequenos seres para um mundo melhor e nem sempre sabemos se estamos certos das nossas escolhas. Por isso Freud já dizia: “relaxa, mãe, de qualquer maneira você terá fracassado”.

Mas espera aí! Também não é porque a perfeição é impossível que não vamos nos esforçar ao máximo para oferecer o que há de melhor aos nossos meninos e meninas, não é mesmo? Mas o que seria oferecer o melhor? Roupas de marca? Passeios caros? Toda a rede de fast food com seus brinquedos descartáveis a qualquer hora do dia ou da noite? Trocar o jantar pela batata frita? Deixar que assistam livremente a qualquer programa na TV? Qual o limite entre a tolerância e a imposição de nossas vontades? Dizer ao filho que ele pode tudo é tão nocivo quanto dizer que ele não pode nada.

A melhor herança que podemos dar aos nossos filhos são raizes e asas


Citando mais uma vez os psicanalistas, 99% do problema dos filhos estão nos pais. A questão não é o problema em si, mas a maneira como o enfrentamos. E, como diriam os budistas, a serenidade da alma é que vai ditar a destreza de conduzirmos cada situação vivida. Quanto mais turbulenta a água, maior a probabilidade de fracasso. Opa! Olha ela aí de novo. Essa palavrinha que assombra a cada mãe e pai consumidos na desonra diante de uma presumível falha. Somos seres imersos na probabilidade da culpa. E, quanto mais nos debatemos neste rio, maior a nossa possibilidade de afogamento.

Então, respirar fundo e sustentar um não bem fundamentado e argumentado, pode render aos nossos príncipes herdeiros um reino alicerçado na confiança do que é certo, do que é ético e do que é ser responsável pelos seus atos. Apoiar os sonhos, sempre, mas com a responsabilidade de nossas escolhas.
Quem é mãe de meninos e meninas por volta dos 9, 10 anos de idade, escutam com frequência a argumentação: “Isso não é justo!” O que seria justo e injusto aos nossos pequenos?

Sigo invocando “las brujas”, as mulheres sábias, para que eu possa educar meu pequeno príncipe com justiça (quase sempre) salomônica. Vamos usando uma tintura ali, um cremezinho aqui, para ficarmos por mais tempo ainda belas, mas é preciso assumir o papel de que ser mãe (e ser pai) nem sempre será o de mocinhos e mocinhas adoráveis. Bom, ninguém disse que seria fácil. Mas não há como negar que é muito bom quando acertamos nesta sintonia. Afinal, quase sempre após um não bem colocado, nossos filhos se apresentam seguros pelo caminho que estamos construindo com eles.

sábado, 5 de maio de 2012

Histamina

Definitivamente tenho uma incompatibilidade com tapetes. Falo daqueles grandes, felpudos, que decoram o chão em baixo da mesa de jantar.
Por de baixo do tapete sempre se esconde alguma coisa não muito agradável.
Restos de comida, poeira mal varrida, chão arranhado. O cheiro de casa fechada é mais forte quando se há tapetes espessos.Tapetes são como pessoas obscuras. Acumulam sujeiras e me causam alergia.
Tenho alergia crônica à falsidade.

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal aprovando a interrupção da gravidez de anencéfalos me deu vontade de escrever e pensar sobre o assunto. Há anos sou ativista do parto humanizado e do respeito ao direito da mulher escolher o seu parto. Digo isso porque, misteriosamente, embora pesquisas apontem que cerca de 70% a 80% das mulheres brasileiras desejam um parto normal para os seus filhos, apenas uma média de 10% conseguem. Veja artigo publicado no site Guia do Bebe.

A mulher do século XXI, vivendo no mundo ocidental, ainda sofre muita violência. E existe um tipo de violência pouco discutida e pouco difundida em nossa sociedade. Todos os dias, centenas de mulheres são violentadas no momento que lhe deveria ser mais sagrado, o momento do nascimento de um filho. E o mais absurdo ainda, a grande maioria nem chega a ter consciência desta violência. Outras acreditam que é assim mesmo que deve ser.

No Brasil de hoje, se uma grávida tem um plano de saúde e tiver condições financeiras para um parto particular, pode contar que será levada a ser submetida a uma cesariana. Ótimo, se este for o desejo da futura mamãe. Mas o que dizer da enorme estatística que inicia uma gestação sonhando com um parto normal que não se realiza? Enquanto isso no SUS, mulheres são moralmente agredidas com frases do tipo ”na hora de fazer, você não pensou na dor, agora aguenta”. Achou forte? Mas é bem mais comum do que o leitor imagina. E não para só por aí.

O que tem de comum entre a decisão do Supremo e o desejo feminino de se ter um parto normal? Direito de escolha. Este é o ponto. E quando este direito é negado, seja legalmente, seja por desculpas mal dadas que levam milhares de mulheres a uma cirurgia cesariana todos os dias, este é sim também um ato de violência.

Sobre a falsidade, quero apenas dizer que parabenizo médicos cesaristas que deixam claro na primeira consulta que não fazem parto normal. Eles, pelo menos, dão a gestante a oportunidade de saírem de seus consultórios e buscarem (sabe lá aonde ainda existam) profissionais dispostos a apoiá-las em suas escolhas.

Em tempo, cesariana é muito bem-vinda. Apenas em casos de verdadeira necessidade.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Deus proteja os meninos e São Francisco proteja meus gatos!


Borrachinhas tiradas da minha bolsa semana passada

Rafael, meu filho de 7 anos, andava sozinho, cabisbaixo. Resolvemos, então arrumar companhia para ele. Um cachorro, disse o pai. Um gato, disse eu. E na briga entre cão e gato, o menino deu o veredicto: Nem um, nem outro. Eu quero é uma tartaruga!


Fomos pesquisar e descobrimos que um jabuti, daqueles grandes, custa uma base de mil reais a licença no IBAMA. Mas o menino queria uma tartaruguinha de água. Essa, custa duzentos e cinquenta. Deixamos a idéia amadurecendo e esquecemos o assunto.


Faz um mês, mais ou menos, que visitamos a casa de amigos que têm três cachorros e três gatos. Todos vivendo muito bem, obrigado. E não é que o menino sentou no chão e foi se engraçar com os felinos?


Vitória da mãe !
Coitada da mãe, eu diria. Meu marido, convencido pela alegria do menino, animou-se e quis arrumar logo duas. Gatas. E eu fui na onda toda feliz. 


Agora ando correndo tomando conta de três filhos! Meu menino tem ataques de Felícia. E as gatas correm o dia todo pela casa. Ah, elas estão muito alegres. Ele também. Eu, nem tanto.


Meu amigo Marco, da Ello Comunicação acabou de publicar no blog da empresa dele um texto sobre Meninos da Eliane Zimmermann e me alertou para o conteúdo.


No texto, a autora fala do famoso bolso de menino que tem de tudo. Aqui em casa não é o bolso. É a minha bolsa que, além de todos os possíveis objetos femininos, abriga fios de plástico, espiral de caderno, papel picado e uma coleção de lacres de latinhas de refrigerante e cerveja. Vai tudo parar na minha bolsa e fica meses sendo carregado. 


E aí de mim quando jogo algo fora. É justo o que ele me lembra de pedir. Como aquela última borrachinha arrebentada de segurar dinheiro e o papel amassado que ele ganhou do homem do estacionamento.


Meu amigo me ajudou neste último. Acaba de me dar uma idéia salvadora para a mãe desalmada: "Diz que guardou com carinho no seu trabalho para se lembrar dele".


Bom, um dia ele vai ler este post. Aí eu vou ter que pagar o analista para ele. Até lá, quem paga o meu?

sábado, 11 de setembro de 2010

Saci é lenda !

Na esquina da rua havia um canteiro com flores.

O canteiro caiado de branco chamava minha atenção pelo contraste com as pétalas carmim, amarelas, roxas e azuis.

Sentada na janela de madeira na casa do outro lado da rua, buscava o colorido do dia naquele pedacinho de terra. De onde viriam? As cores.

Durante muitos anos da minha infância essa pergunta me perseguiu em sonhos e nas longas viagens do Rio de Janeiro à casa de minha avó materna no interior de Minas Gerais.


Tudo para mim naquela cidade – e naquela idade – tinha sabor e um colorido especial. Buscar leite na vizinha, o cheiro de pão quentinho que exalava na esquina da rua e que em um minuto tomava conta de toda vizinhança. Do brincar na rua até altas horas e só entrar porque não havia mais luz que permitisse novas travessuras.

Banho no gato, a contra gosto do bichano, é claro, cavar buraco no quintal só para encontrar as mãos do outro lado, roubar goiabas pelo simples gosto de fazer coisa errada, tocar campainha na casa dos outros, coisa danada de boa, sô!


Outro dia, saindo de uma aula de pintura com os dedos sujos de giz pastel, brinquei com meu filho e sua amiguinha de escola: Vindo para cá, para me encontrar com vocês, vi um arco-íris tão baixinho que consegui passar os dedos por ele e olhem como minha mão ficou repleta de cores. A menina de quatro anos arregalou os olhos e perguntou: Verdade? Meu filho, com seis, Foi certeiro: Mentira, mamãe!


Passado dois dias, nós dois no carro, ele me indaga: Mamãe, hoje você encontrou com aquele arco-íris?


Das férias de verão na casa de minha avó materna, guardo esta ingenuidade, este jogo de querer e não querer acreditar no improvável. Como dormir com a cabeça coberta por um cobertor e no dia seguinte acordar transformada em lobisomem. Os primos contaram e até hoje não consigo dormir com o rosto coberto. 


Olhando para trás, fico muito feliz de ter tido infância. Olhando para frente, arregalo as vistas com muita curiosidade quando meu filho me diz: 



- Mamãe, a fada do dente vai levar meu dentinho e deixar um presente debaixo do travesseiro. - Verdade? Mas às vezes ela deixa o presente e o dentinho, meu filho. 
- Não, mamãe, ela leva mesmo.

No dia seguinte, a “fada” havia deixado um livrinho de histórias muito bem embrulhado e ele me diz:



 - Mamãe ! A fada do dente pediu ajuda para o Papai Noel!

Passando por um caminho cheio de árvores para ir para sua escola, sempre brincamos que ali é uma floresta aonde habitam seres mágicos.

Há dias, no entanto, que ele me responde solene, com ares de adulto:

- Mamãe, Saci é lenda.