"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Açucarada


Pecado seria não o ter comido.
Aquele feito com o açúcar mais doce.
O vermelho vivo da anilina me chamava.
Saboreio cada pedaço, mas meus dentes rangem.
Hoje prefiro o amargo da vida que o doce dos sonhos.
(Gato escaldado tem medo de água fria, diria a minha avó).

Mas o doce de festa, este rompe por um instante as minhas reservas.
Devoro-te, Delicio-te com a respiração de saudade.

(Escrito durante a oficina Experiência e narrativa na produção literária,
ministrada por Julio Satyro na programação do Sesc Literatura,
promovido pelo Sesc Juiz de Fora.

terça-feira, 19 de abril de 2011

1 aninho parabéns !


O Buteco do Lufe está completando um aninho e, para marcar a data, o proprietário nos convida a recordar a nossa infância e marcar presença com fantasia do nosso personagem inesquecível.


Foram tantos. Não posso esquecer da Turma da Mônica que ainda hoje gosto de ler e ver com o meu filho, do Sítio do Picapau Amarelo, que quando foi lançado o DVD da primeira versão da TV Globo rendeu lágrimas a mim e minha cunhada por um tempo bom que já se foi.


Daniel Azulai! Algodão doce pra você! Vila Césamo, passeio na Feira da Providência no Rio de Janeiro procurando o gigante Garibaldo, Fantasminha Pluft e, minha primeira leitura infanto juvenil, Peter Pan. 


Ainda há espaço para relembrar do bisavô dos Power Rangers, o Ultraman e do desenho animado Carangos e Motocas (Wheelie and the chopper bunch), onde o personagem mais marcante era a lambretinha que infernizava seu líder com o jargão: “Eu te disse, não te disse?” E como o mundo parava para eu assistir a corrida espetacular com Speed Race.


Mas a minha primeira lembrança ao desafio laçado pelo Lufe foi para o inesquecível Capitão Asa. Era mágico vê-lo na TV Tupi. Era como se fosse possível tocar as estrelas. Era real a promessa de um mundo de paz.


Estranho dizer isso de um personagem criado em plena ditadura militar cuja interpretação era feita por um policial civil da época? Sim, é, no mínimo, curioso.



O Capitão veio a falecer em 3 de Maio de 2003, com 75 anos, vítima de seu terceiro enfarte. 


Eu corria para frente da TV, ainda em preto e branco, para ouvir a chamada do programa e fica imaginando que seria possível viajar além do planeta azul. Este homem com óculos que mais pareciam olhos de uma enorme mosca foi um dos que me fez acreditar em sonhos.

Rudolf Steiner diz que na primeira e na segunda infância a mensagem que deve ser resguardada às crianças é de que o Mundo é Bom e de que o Mundo é Belo. Se alguma coisa deve ser sagrada neste mundo, é a inocência infantil. Pois elas, as crianças, terão todo o resto da existência para árduas jornadas.

Agradeço aqui a todos que fizeram da minha infância um mundo cheio de imaginação. Se sou hoje uma pessoa otimista, forte o bastante para dar a volta por cima quando a vida nos dá aquela rasteira inevitável, devo aos heróis da minha infância. Pais, tios, primos, vizinhos e os encantados personagens da televisão e dos livros.

Hoje vou vestir meu macacão de astronauta, entrar em minha nave espacial, chegar rasgando o céu de Belo Horizonte e aterrizar no Buteco do Lufe. Lá vou tirar meu capacete e pedir uma dose de Absinto.
Parabéns, Lufe, e obrigada por me permitir este doce resgate da minha memória.

Querido Wilson Vianna, alô, alô, onde você estiver, por este espaço sideral, receba um abraço de sua eterna fã.



quarta-feira, 6 de abril de 2011

Deus proteja os meninos e São Francisco proteja meus gatos!


Borrachinhas tiradas da minha bolsa semana passada

Rafael, meu filho de 7 anos, andava sozinho, cabisbaixo. Resolvemos, então arrumar companhia para ele. Um cachorro, disse o pai. Um gato, disse eu. E na briga entre cão e gato, o menino deu o veredicto: Nem um, nem outro. Eu quero é uma tartaruga!


Fomos pesquisar e descobrimos que um jabuti, daqueles grandes, custa uma base de mil reais a licença no IBAMA. Mas o menino queria uma tartaruguinha de água. Essa, custa duzentos e cinquenta. Deixamos a idéia amadurecendo e esquecemos o assunto.


Faz um mês, mais ou menos, que visitamos a casa de amigos que têm três cachorros e três gatos. Todos vivendo muito bem, obrigado. E não é que o menino sentou no chão e foi se engraçar com os felinos?


Vitória da mãe !
Coitada da mãe, eu diria. Meu marido, convencido pela alegria do menino, animou-se e quis arrumar logo duas. Gatas. E eu fui na onda toda feliz. 


Agora ando correndo tomando conta de três filhos! Meu menino tem ataques de Felícia. E as gatas correm o dia todo pela casa. Ah, elas estão muito alegres. Ele também. Eu, nem tanto.


Meu amigo Marco, da Ello Comunicação acabou de publicar no blog da empresa dele um texto sobre Meninos da Eliane Zimmermann e me alertou para o conteúdo.


No texto, a autora fala do famoso bolso de menino que tem de tudo. Aqui em casa não é o bolso. É a minha bolsa que, além de todos os possíveis objetos femininos, abriga fios de plástico, espiral de caderno, papel picado e uma coleção de lacres de latinhas de refrigerante e cerveja. Vai tudo parar na minha bolsa e fica meses sendo carregado. 


E aí de mim quando jogo algo fora. É justo o que ele me lembra de pedir. Como aquela última borrachinha arrebentada de segurar dinheiro e o papel amassado que ele ganhou do homem do estacionamento.


Meu amigo me ajudou neste último. Acaba de me dar uma idéia salvadora para a mãe desalmada: "Diz que guardou com carinho no seu trabalho para se lembrar dele".


Bom, um dia ele vai ler este post. Aí eu vou ter que pagar o analista para ele. Até lá, quem paga o meu?

domingo, 13 de março de 2011

O velho casarão da Rua Carlos de Vasconcelos


Foto: Júlio César Ferreira
Havia um encantamento, uma magia que envolvia as crianças do lugar em torno do velho casarão. Era um desejo, quase um pedido em oração, que ele guardasse mesmo fantasmas e almas de outro mundo.

Restos de velas encontrados constantemente na escadaria do portão enferrujado não deixavam dúvidas aos pequenos. Embora este fato não se configure como nenhuma prova irrefutável, fazia todo o sentido às crianças do bairro.



Os fantasmas, achávamos, eram seres deliciosamente perigosos. O gosto pela aventura, pelo proibido rendia a todos nós sonhos que preferíamos esquecer ao amanhecer e horas de conversas arquitetando planos para capturar as criaturas aladas.


Retiro as teias de aranha do meu pensamento e redescubro o prazer de aprender coisas novas. Em meu coração continuo guardando com carinho a vontade pelo não-saber.


Desafios são o alimento da vida. O medo e o desejo caminham juntos na infância e continuam a nos instigar por toda a vida como um poderoso elixir da juventude.


Por onde andarão as crianças e suas lembranças do velho casarão? Foram tantas em tantas gerações. Não sei se a velha casa, cansada de guerra, ainda abriga seus fantasmas ou se cedeu lugar a algum prédio frio e sem sonhos.


Por um instante imagino os fantasmas sem teto em um balé acrobático pelas ruas da Tijuca, procurando desesperadamente os olhos curiosos de suas eternas crianças.


E nós não estávamos mais lá.


Restarão para eles as nossas lembranças e as deles guardadas com carinho em dimensões distintas no tempo e no espaço.


Esta noite, sonharei com meus fantasmas queridos e farei a eles uma oração de até breve.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Crianças necessárias

Uma relação de pais e filhos construída pelo significado do gesto
Outro dia assistia uma palestra na escola do meu filho, onde também estava presente minha mais nova amiga, Nina Veiga. E foi dela que ouvi pela primeira vez a expressão crianças necessárias. 


O termo foi a melhor definição encontrado por Nina para descrever o envolvimento da criança no contexto familiar. 


Responsável por cursos de formação de professores e cursos de acolhimento para pais, Nina desenvolve estudos sobre a participação efetiva da criança nas tarefas diárias do mundo que a cerca.


Após a segunda guerra, as crianças começaram a ser percebidas de outra maneira em seus lares. Pela primeira vez elas foram ouvidas.


Dentro deste cenário, a humanidade iniciou um processo de valorização e de preservação da infância. Assim, o combate ao trabalho infantil passou a ser um dos pilares dessa nova visão de mundo. 


“A educação pedagógica está se especializando na infância, tendo esta fase como um momento importante do ser. Porém, tudo tem o seu efeito colateral. Não sabemos como lidar com esta criança”. 


Para a educadora, o cuidar da infância nos dias de hoje resumiu-se ao entretenimento do tempo infantil. “Não podemos preencher a vida de alguém, se esse preenchimento não tiver um sentido, um significado do ato”.




Ou seja, colocar o seu filho em aula de inglês, informática, judô, balé e futebol é realmente preencher a vida dele? Ou será que estamos apenas cumprindo agendas para ocupar nossos filhos enquanto fazemos coisas mais importantes e não sabemos o que fazer efetivamente com eles dentro do nosso tempo?


Qual é realmente o papel desta criança dentro da família?


Minha mãe, uma senhora de quase 77 anos, diz que proibir crianças de trabalharem é uma coisa muito burra. E aí vem todo o discurso de que ela cresceu trabalhando e que por isso ela aprendeu a gostar.


E não é que ela está certa? Aqui ninguém vai fazer apologia ao trabalho infantil em canaviais ou de vender balas nas esquinas. Mas e o trabalho dentro de casa, dentro do contexto familiar?




Colocar um caixote na beira da pia para que seu filho lave a louça enquanto você faz o almoço pode ser uma experiência muito gratificante para ambos.


E o que dizer da alegria indescritível de ver seu filho fazendo pequenos consertos com o pai ou fazendo um caramanchão no quintal?




Crianças aprendem com a imitação. E com o significado do gesto. É outra coisa que Nina me exemplificou muito bem quando conversamos. 


Imagine agora que você está me vendo sentada em uma cadeira olhando para frente. O que eu estaria fazendo? Lendo um livro? Assistindo TV? Checando e-mails? Não é possível decifrar, não é mesmo?








E agora, se eu estiver mexendo os braços como a varrer ou a pintar ou fazendo a massa de um bolo? Mais fácil imitar esse gesto, não?





O que a revolução pós Segunda Guerra nos ensinou é a preciosidade da infância. Agora, vemos uma adolescência e uma juventude com um sentimento de não pertencimento familiar. 


Nós pais as ensinamos a ficar distantes porque não eram necessárias. E agora, quem não é mais necessário?


A maternidade nos ensina a duras penas que precisamos ceder. E como cedemos. Não é mais todo programa que podemos participar, quantos livros abrimos mão de ler, quantos filmes, quantas conversas.


Porém, os filhos não enxergam esses gestos. Eles enxergam às vezes que sentamos ao chão e brincamos com eles, os livros que lemos juntos, as vezes que andamos de bicicleta junto com eles, quando costuramos ou bordamos uma roupa especial para uma fantasia.







Ou seja, quando ocupamos o nosso tempo com o tempo deles em um tempo de vida viva juntos.


O que precisamos é reaprender a curtir cada momento no seu tempo, para preencher as nossas vidas e as vidas de nossos filhos de boas e eternas lembranças.



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Segredos de menina



Todas as manhãs quando acordava, permanecia alguns minutos ainda deitada na cama de olhos fechados apenas com a sensação gostosa de ouvir vozes na cozinha de minha avó. Sempre me punha a imaginar que escutaria dali um segredo de família que nunca houve. Entre as frases recortadas seguia-se o cheiro do café que desde menina minha mãe me ensinou a apreciar.

Eram férias de verão. A casa de minha avó não tinha forro. No teto, era possível ver as telhas e ouvir, por vezes, sons de morcegos que sobrevoavam a noite. Os visitantes, mesmo não sendo freqüentes, rendiam histórias sem fim entre os primos e primas já debaixo dos cobertores.

Em janeiro sempre chovia. E nas tardes de chuva intensa, nossos olhos seguiam pregados nas janelas atentos aos rios e lagos que se formavam pelas ruas. Ficávamos a calcular em uma matemática ainda não aprendida qual o melhor local para darmos um grande salto, capaz de molhar quanto mais pudéssemos o nosso corpo.

O tempo também se media pela quantidade de barquinhos de papel que conseguíamos produzir para lançá-los após a chuva intensa. Muitos afundavam antes da curva na rua de baixo. Outros seguiam heróicos pelos caminhos da enxurrada, enchendo de orgulho o seu construtor.

São histórias singelas de uma infância querida, na qual a passagem das horas era medida pelo matar da fome, da sede e do sono e por insistentes apelos dos tios e tias para tomarmos pelo menos um banho por dia.

Relógio de criança é diferente.

Hoje, se eu fosse uma maçã, me dividiria em pedaços iguais:

1/3 para meu trabalho 

1/3 para ser mãe 
1/3 para me apaixonar 
1/3 para conhecer o mundo
Outro pedaço para ler, outro para fazer nada, outro para aprender a desenhar, outro para dançar, outro para minha aula de canto, outro para comprar um vestido novo, outro para sair com os amigos, uma lista sem fim.

Sinto que não sobrou maçã e ainda tenho um bocado de aventuras a serem vividas.

Complicando ainda mais esta equação, há dias em que quero ser inteirinha uma maçã moleca, pronta para vadiar, em outros me dá uma vontade danada de reunir amigos. Há dias de querer estar só e divagar com meus mil pensamentos.

Em todos os dias sou uma alma fracionada. Deliciosamente imprevisível, atrapalhada com tantos afazeres e possibilidades, derrotada pela percepção de   viver imersa em uma ampulheta de areia, transgressora com apetite de virar à mesa e fazer tudo diferente. Feliz com algumas rotinas, como gato vira-lata que sempre volta ao aconchego do lar.


Saudades do café de minha vó.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O pé de caju e a pós-modernidade

Ele surgiu assim como surgem as coisas boas em nossas vidas: sem avisar, sem expectativas.

E, de repente, um dia olhei o pequeno vaso aonde dias antes havíamos depositado a semente de caju e lá estava o pequeno pé brotado, um daqueles milagres que a ciência já revelou, mas que, pela singularidade e pela absoluta raridade da cena, me deixou sensibilizada.

Então eu tinha um pequeno cajueiro em minha casa. E agora? Aonde vamos plantá-lo? Como assim, plantá-lo?? Argüiu meu companheiro. E se a raiz dele atingir o muro? 


Moro em uma pequena casa, com um pequeno quintal, cujos limites dos fundos se faz por um muro de seis metros de altura por 12 de comprimento. 


Embora as medidas possam parecer, no mínimo, razoáveis, a topografia não é amigável para plantas, digamos, de grande porte.

Eis o meu dilema: em tempos modernos, quiçá pós-modernos, em que o desejo coletivo gira em torno de uma tal qualidade de vida, cultivo a graça de ter um pequeno cajueiro em minhas mãos e simplesmente não posso ficar como ele?

O cheiro do caju convive com minha infância, a fruta comprada na feira-livre todas as semanas e devidamente coada no pano branco. Talvez o único utensílio doméstico que minha mãe não me permitia brincar. “Este não, filha, este é o pano de coar o caju”. Era quase o Santo Sudário.  


O perfume da fruta ficava na trama com que eu furtivamente queria enfeitar minhas bonecas. Diante destas lembranças, como poderia eu consumir em uma gôndola de supermercado alguma dessas polpas congeladas?  

Decidida a encarar os fatos de ser eu uma mulher dos tempos modernos, há seis meses apanhei dois pacotinhos, um de goiaba, outro de manga, e joguei-os para dentro do carrinho certificando-me de que ninguém me olhava.  

Todavia, embora cometida a heresia da compra, não consegui consumar o ato e os dois pacotinhos continuam no meu congelador aguardando que eu aceite o inevitável: sou uma cidadã do mundo fast food, não é mais necessário esperar um pomar inteiro crescer para saborear uma simples fruta.




Mas eu posso! Eu posso ter o meu pomar! Eu já tenho até um pequeno pé de caju que nasceu como devem nascer os pés de caju, rompendo a semente em busca de luz.

Mas ele não cabe no meu quintal. Talvez o ato da doação seja o mais acertado neste caso. A quem darei, então?

A alguém que certamente não mais se lembrará de me presentear com uns pequenos cajus em sua primeira florada?

Alguém que talvez não saiba a medida certa da água e do amor que a ele devam ser dispensados?

A alguém que não sabe que o melhor suco de caju é coado no pano e tem cheiro de mãe?

Neste instante, meu companheiro chega perto de mim e diz: Está decidido. Que o muro caia, mas o caju fica!


Fico com uma gostosa sensação de que a humanidade está salva.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Dia das Crianças - Do que realmente seu filho precisa?

Este vídeo foi publicado no blog da Carolina Duarte
Gostei tanto que trouxe para cá e complemento 
com um pequeno diálogo entre mãe e filho. 
Boa reflexão !


- Mamãe, você me compra um carrinho que muda de cor quando molha?

- Meu filho, você nem gosta de brincar de carrinhos.

- Então, me compra um dinossauro, aquele enooorme que anda e faz barulho?

- Aquele é muito caro, meu filho. Com o dinheiro que pedem por ele, dá para compra um tantão de outras coisas.

- Mamãe, eu não aguento mais de vontade de ir ao Mac Donald´s!!!

- Por que, meu filho?

- Porque toda hora aparece na TV e eu fico com uma vontade danada de ir lá ganhar um brinquedinho.

- Meu filho, você nem gosta da comida de lá! E os brinquedinhos acabam encostados em algum canto logo no dia seguinte.

- Mamãe, o que você vai me dar de Dia das Crianças?

- Vou brincar com você o dia todo do que você quiser.

- A gente pode brincar de fazendinha com chuchu, batatinhas e colocar pernas de fósforos?

- Pode, meu filho.

- Mamãe, eu te amo !

sábado, 11 de setembro de 2010

Saci é lenda !

Na esquina da rua havia um canteiro com flores.

O canteiro caiado de branco chamava minha atenção pelo contraste com as pétalas carmim, amarelas, roxas e azuis.

Sentada na janela de madeira na casa do outro lado da rua, buscava o colorido do dia naquele pedacinho de terra. De onde viriam? As cores.

Durante muitos anos da minha infância essa pergunta me perseguiu em sonhos e nas longas viagens do Rio de Janeiro à casa de minha avó materna no interior de Minas Gerais.


Tudo para mim naquela cidade – e naquela idade – tinha sabor e um colorido especial. Buscar leite na vizinha, o cheiro de pão quentinho que exalava na esquina da rua e que em um minuto tomava conta de toda vizinhança. Do brincar na rua até altas horas e só entrar porque não havia mais luz que permitisse novas travessuras.

Banho no gato, a contra gosto do bichano, é claro, cavar buraco no quintal só para encontrar as mãos do outro lado, roubar goiabas pelo simples gosto de fazer coisa errada, tocar campainha na casa dos outros, coisa danada de boa, sô!


Outro dia, saindo de uma aula de pintura com os dedos sujos de giz pastel, brinquei com meu filho e sua amiguinha de escola: Vindo para cá, para me encontrar com vocês, vi um arco-íris tão baixinho que consegui passar os dedos por ele e olhem como minha mão ficou repleta de cores. A menina de quatro anos arregalou os olhos e perguntou: Verdade? Meu filho, com seis, Foi certeiro: Mentira, mamãe!


Passado dois dias, nós dois no carro, ele me indaga: Mamãe, hoje você encontrou com aquele arco-íris?


Das férias de verão na casa de minha avó materna, guardo esta ingenuidade, este jogo de querer e não querer acreditar no improvável. Como dormir com a cabeça coberta por um cobertor e no dia seguinte acordar transformada em lobisomem. Os primos contaram e até hoje não consigo dormir com o rosto coberto. 


Olhando para trás, fico muito feliz de ter tido infância. Olhando para frente, arregalo as vistas com muita curiosidade quando meu filho me diz: 



- Mamãe, a fada do dente vai levar meu dentinho e deixar um presente debaixo do travesseiro. - Verdade? Mas às vezes ela deixa o presente e o dentinho, meu filho. 
- Não, mamãe, ela leva mesmo.

No dia seguinte, a “fada” havia deixado um livrinho de histórias muito bem embrulhado e ele me diz:



 - Mamãe ! A fada do dente pediu ajuda para o Papai Noel!

Passando por um caminho cheio de árvores para ir para sua escola, sempre brincamos que ali é uma floresta aonde habitam seres mágicos.

Há dias, no entanto, que ele me responde solene, com ares de adulto:

- Mamãe, Saci é lenda.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os morangos que não mofaram

Outro dia eu e um amigo combinamos de comer manga ubá no quintal de minha casa. 

Será numa tarde com gosto de aula cabulada. Bem no meio da semana.

Ele vai chegar e tocar o sino que serve de campainha.
Melhor seria se pudesse chegar e ir entrando, anunciando-se ao som de palmas.

Antes que alguém me pergunte, as mangas, infelizmente, não nascem no meu quintal. Este é o trato. Eu entro com o lugar, ele com as mangas.
O tempo passou e ainda aguardo o dia desse encontro marcado. As agendas nem sempre permitem honrar compromissos importantes como estes. E a vida vai passando de janeiro a janeiro e cotidianamente adiamos a felicidade.


Na casa da minha avó a porta sempre estava entre aberta até o anoitecer. Até o dia em que roubaram um filtro de barro da casa vizinha e as chaves e trancas passaram a ter serventia em sua cidade.


Mesmo depois disso, o entra e sai de amigos era gostoso de se ver. Um dia, sem avisar, um primo chegou de carro trazendo um tucano que ganhara de um amigo. Tempos em que as leis do país não eram tão precisas quanto a guarda de animais silvestres.


Um dia era um tucano, no outro era um violeiro, era tanta gente que se chegava, trazendo frutas, feijão, galinha, ovos, e amizade.
E os verões eram mais alegres e os invernos mais acolhedores.


Outro dia meu amigo me ligou e me disse todo animado: vou promover a Festa do Morango em Alfredo Vasconcelos e eu, toda alegre com a notícia, logo emendei: então, já que não é tempo de manga, que venham os morangos.


Nesta deliciosa expectativa, fico esperando que o dia de fazer gazeta chegue logo, pois sei que nesta amizade não há o amargor dos morangos de Caio Fernando Abreu, mas apenas a correria das cidades grandes e das almas pequenas.

sábado, 27 de março de 2010

Mil objetos em um baú de madeira

Do meu avó paterno, herdei o gosto pelas coisas míticas, pela arte em madeira, um banquinho e um velho baú.

O banquinho sumiu no meio dos meus anos sem deixar rastro. O baú, ainda cumpre o discreto papel de guardar segredos.

Dele posso tirar um vestido preto que só a mim revela lembranças inconfessáveis. A primeira roupa do meu filho, um álbum antigo de fotos de família, uma caixa aonde guardo antigas cartas desde o tempo de colégio.

O baú de meu avô tem tesouros só meus, como pedrinhas retiradas do riacho, lembrança do dia mais feliz de minha infância na fazenda – o primeiro banho de cachoeira sem biquíni aos oito anos de idade.

De um lado do rio, mulheres e crianças, do outro, os homens. Entre eles, uma montanha intransponível vigiada pelos mais velhos com rigor de quem guardava as muralhas da China. Milho assado na fogueira, passeio a cavalo, coisas do interior.

Cada peça me remete a outra fração da minha memória. A primeira vez no leme de uma embarcação, as cachoeiras de Teresópolis, verão em Ibitipoca, outono em Abrolhos, aonde fiz meu primeiro mergulho noturno, inverno em Ouro Preto, todas as estações com toques de primaveras.

Lembro da cada passagem com carinho. As boas e as más. Engraçado como que com o passar dos anos essas últimas vão se desbotando e as primeiras ganham uma tintura especial. E as ruas vão ficando maiores, os rios mais cheios e as pessoas da nossa caminhada se tornam únicas.

Ao mexer neste baú, fico pensando se meu avô, quando deixou este legado, imaginava o quanto esta peça utilitária de tempos em tempos revolveria a minha alma.

E como Augustine no filme Uma vida iluminada, descubro que revolvemos a alma pela simples razão da existência dos acontecimentos. Objetos, imagens, renovam o prazer de se sentir viva.

sábado, 20 de março de 2010

Volevo un gatto nero !


Tenho um amigo que volta e meia usa a seguinte frase: “Eu quero agora e é de morango!” para designar aquelas pessoas que solicitam alguma coisa em tom de exigência e ainda escolhem o sabor. Como meninos caprichosos.

O mundo está pleno de pessoas assim. Posso listar algumas que se quer evoluíram do egocentrismo infantil. Costumo brincar com meu filho: olhe ao redor do seu umbigo e veja se há algum planeta girando em torno dele !

Tudo bem que com sua vibrante imaginação ele consiga até ver detalhes e contornos de algum astro fictício na órbita de seu lindo ubiguinho. O perigo é ele crescer e continuar acreditando nisso.

No toma lá dá cá da vida, encontramos muitos de nós com a prática do só faço isso se você fizer aquilo. E perdem a essência do vivenciar junto. O desapego, o fazer por fazer. A troca espontânea é rara. É obvio que as pessoas se relacionam porque pressupõe trocas. Mas a exigência é perigosa.

Aprender a dizer não é tão difícil quanto a digerir um não. Compreender que certas parcerias não são possíveis, simplesmente porque não satisfazem amplamente os lados. E nem por isso outras parcerias não serão concretizadas, até entre as mesmas partes.

Lembro-me que quando era bem pequenina, uma prima distante veio me visitar nas férias. Brincamos juntas como siamesas até o momento em que ganhamos presentes iguais, mas de cores diferentes. Um era rosa, cor que as duas, embora meninas, abominavam. A outra, objeto do nosso desejo, azul. Nossa linda amizade se desfez naquele verão porque colocamos todo o nosso querer e gostar em uma simples espreguiçadeira de plástico comprada nas Lojas Americanas.

Foram dias até que o bico se desfizesse. Tenho que confessar que a errada era eu, a quem o destino havia reservado, na escolha, a espreguiçadeira cor de rosa. Hoje rio da história, embora, como qualquer ser humano, ainda cobice e relute em aceitar as parcerias não possíveis.

Para ilustrar esta nossa incapacidade, deixo este delicioso clip italiano com uma graciosa cantiga infantil.






Un coccodrillo vero,
Un vero alligatore
Ti ho detto che l'avevo
E l'avrei dato e te.
Ma i patti erano chiari:
Il coccodrillo a te
E tu dovevi dar
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Mi hai dato un gatto bianco
Ed io non ci sto più.
Volevo un gatto nero, nero, nero,
Siccome sei un bugiardo
Con te non gioco più.

Non era una giraffa
Di plastica o di stoffa:
Ma una in carne ed ossa
E l'avrei data e te.
Ma i patti erano chiari:
Una giraffa a te
E tu dovevi dare
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Mi hai dato un gatto bianco
Ed io non ci sto più.
Volevo un gatto nero, nero, nero,
Siccome sei un bugiardo
Con te non gioco più.

Un elefante indiano
Con tutto il baldacchino:
L'avevo nel giardino
E l'avrei dato e te.
Ma i patti erano chiari:
Un elefante a te
E tu dovevi dare
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Mi hai dato un gatto bianco
Ed io non ci sto più.
Volevo un gatto nero, nero, nero,
Siccome sei un bugiardo
Con te non gioco più.


I patti erano chiari:
L'intero zoo per te
E tu dovevi dare
Un gatto nero a me.

Volevo un gatto nero, nero, nero,
Invece è un gatto bianco
Quello che hai dato a me.
Volevo un gatto nero,
Ma insomma nero o bianco
Il gatto me lo tengo
E non do niente a te.

domingo, 11 de outubro de 2009

Feijão Guandu



Dos sabores da minha infância, o mais forte que permanece na minha lembrança é o do feijão guandu. Todas as quartas, eu ia à feira com a minha mãe, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Feira na Visconde de Figueiredo, próxima à Alzira Brandão, famosa pelas comemorações nos jogos da copa do mundo.
Ainda me lembro do ir e vir dos carrinhos com rodinhas conduzidos pelas senhoras e meninos que ajudavam a carregar as compras por uns trocados. Minha mãe levava sacolas de pano ou de nylon colorido. E eu sonhava com o dia em que ela compraria um carrinho de feira, o que nunca aconteceu.
As paradas eram as mesmas: na barraca de peixe, as sardinhas vendidas às dúzias. Todas limpinhas, prontas para fritar ainda no almoço do dia; o caju de um vermelho intenso e aroma singular (minha mãe fazia o suco coado no pano de algodão); e o feijão guandu, medido no copo de vidro americano.
Não era raro ouvir o grito de alerta:“olha o rapa!”, anunciando aos ambulantes ilegais que a polícia se aproximava. Bastava chegar um pouco para o lado e dar passagem. Em tempos de fim de ditadura, eu, ainda sem entender o que se passava no país, secretamente desejava que os vendedores conseguissem fugir dos homens de farda.
Mais da feira não me lembro. Exceto por um homem cego que vendia bananadas e que por vezes minha mãe comprava para mim. Um dia, após longa ausência, encontramos com ele em uma rua da Tijuca. Paramos e ele disse: “- Como sua filha cresceu!” Daquele dia em diante, passei a desconfiar de que ele não era cego. E muito tempo se passou para eu compreender que temos cinco sentidos para reconhecer o outro.
A memória é seletiva. Trazemos à tona o que nos convém e damos aos fatos as cores que queremos, para o bem ou para o mal. Sorte que a maioria de nós tende a esquecer os eventos ruins e dar novo sentido as coisinhas antes sem graça do nosso cotidiano. E ainda delineamos um contorno especial às nossas aventuras juvenis, algumas até hoje inconfessáveis.
Como na música de Cesária Évora, hoje regressei no tempo, uma saudade com gosto de infância.

Mamãe velha venha ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão

É um bater de amigo que
vibra dentro do meu coração

Venha Mamãe velha venha ouvir comigo
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou, mantenha
e bate dentro do meu coração

A chuva amiga mamãe velha a chuva
Que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha a ilha toda
Em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
E a terra agora é mesmo cabo verde
É a tempestade que virou bonança


Venha comigo mamãe velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou, mantenha
e bate dentro do meu coração

A chuva amiga mamãe velha a chuva
Que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha a ilha toda
Em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
E a terra agora é mesmo cabo verde
É a tempestade que virou bonança