"Absinto" é uma bebida destilada feito da erva Artemisia absinthium. Anis, funcho e por vezes outras ervas compõem a bebida. Ela foi criada e utilizada primeiramente como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês que vivia em Couvet na Suíça por volta de 1792.É também conhecido popularmente de fada verde em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Absinto, o blog, é um espaço para delírios pessoais e coletivos. Absinte-se e boa leitura.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sobre a mudança, o renascer das coisas e aquilo que não pode morrer nunca



Conto adaptado do livro O Jardineiro que Tinha Fé, de Clarissa Pinkola Estés.

"Vou lhes contar uma história sobre o tempo da paz e o tempo das cinzas, sobre como os jovens e os velhos aprendem sobre aquilo que não pode morrer nunca. Era uma vez, há muito, muito tempo, um pinheirinho que, embora pequeno em estatura, era imenso em espírito. Ele vivia nas profundezas de uma floresta e ouvia a história de que as
árvores cortadas de tempos em tempos naquele lugar eram levadas para um lugar maravilhoso, chamado casa. Ali, uma família inteira de pessoas se reunia ao seu redor e enfeitavam a árvore com belos objetos e depois cantavam e se alegravam em uma data muito especial para os humanos.

Com o passar do tempo, muitas árvores haviam sido retiradas da floresta e o pinheirinho teve bastante espaço para receber a luz do sol e assim ele foi crescendo, crescendo, até ficar muito mais alto do que antes. No fim do ano, chegaram os cavalos puxando um trenó com o pai, a mãe e crianças risonhas. 

Os cavalos empertigados passaram direto pelo pinheirinho. "Espere", gritou uma das crianças, "aquele ali atrás, aquele ali sozinho. Ah, olhem como os galhos são cheios de vida" E o pinheirinho começou a tremer de esperança. E o pai apanhou seu machado no trenó. Com o primeiro golpe, o pinheiro sentiu a maior dor de toda a sua vida e desmaiou.
 
Muito mais tarde, o pinheiro voltou a si, diante de um chalé coberto de neve, onde moravam um senhor e uma senhora bem idosos. Mergulharam o tronco cortado da árvore num balde de água fresca que aliviou grande parte da sua dor. E quando apagaram os lampiões, o pinheiro, que amava a profunda escuridão da floresta, começou a amar também a escuridão daquela casa.
 
Bem cedo na manhã do dia seguinte, as pessoas começaram a enfeitar a árvore com enfeites coloridos. As crianças gritavam e corriam ao redor, enquanto outros tocavam e cantavam. 

Os dias se passaram e uma a uma as pessoas foram deixando a casa. O pai, então, entrou com passos pesados e tirou todos os enfeites do pinheiro, guardando-os em caixas com camadas de enchimento de algodão. Depois, arrastou de maneira descuidada a árvore pela escada de madeira acima e a jogou dentro de um sótão escuro. E ali o pinheiro ficou muitos dias e muitas noites.
 
Certa noite, porém, com o canto do olho, o pinheiro viu quatro pontos vermelhos reluzentes. Eram os olhos de dois ratinhos minúsculos que ocupavam as paredes do sótão. "Ah, minhas senhoras, sabem-me dizer quando virão me buscar, quando voltarei para a sala especial?” "Querida árvore, sei que você sentia ter nascido para essa vida, tanto que não desejava que ela mudasse. Essa época já terminou. 

Mas agora começa um tempo diferente. Uma nova vida, um tipo de vida diferente sempre se segue à antiga.” E os dois camundongos fizeram companhia à árvore a noite inteira. Contaram histórias e cantaram todas as músicas que conheciam.
 
Pela manhã, a porta do sótão foi aberta com violência, e o pai, usando um gorro de lã e um sobretudo, agarrou o pinheiro e o arrastou pela longa escada abaixo, pela porta, até o quintal. Ali. Deitou o pinheiro num toco velho e ergueu muito alto um machado enorme, cortando a árvore em pequenos pedaços.
Muito tempo depois, o pinheiro acordou novamente no canto da sala especial. Nas poltronas diante da lareira, viu o velho casal que conhecera quando chegou à casa, vindo da floresta. Eram eles que haviam banhado seu ferimento com água fresca.

Ali estavam eles, bem juntinhos diante do fogo. Apesar do seu estado, o pinheiro sorriu com o amor que via entre os dois. O velho levantou-se e jogou um dos braços do pinheiro no fogo.
Noite após noite, o pinheiro permitia essa entrega. Era tão completa sua alegria por ser útil e ter vida desse modo que ele queimou e queimou até não restar mais nada,  a não ser as cinzas que jaziam no fundo da lareira. 

Então, o casal de velhos, com suas mãos velhas e sábias, varreu delicadamente cada fragmento de cinzas da lareira. Puseram as cinzas num saco macio e muito usado e o guardaram até a chegada da primavera, onde as jogariam no campo a ser semeado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Chuvas de Natal


Existe um estado de espírito natalino no clima da cidade onde eu moro. E ele apresenta-se em formato de uma chuva intensa e de uma persistência irritante.

Mas a irritação, diriam os budistas, não está na chuva. Está em minha alma consumidora, travada de sair de casa levando filho à reboque e enfrentando lojas cheias.

Então, resolvi respirar e mudar o jogo. Hoje não vou às compras de Natal. Hoje não vou se quer comprar uma maçã para ser deliciada ao longo da semana. Hoje vou ler mensagens de amigos no meu e-mail. Aquelas que ficam na fila de espera porque e-mail de trabalho é sempre mais urgente, porém não o mais importante.

Hoje vi desenhos na TV com meu filho. E vou fazer bobagens que ele gosta para o almoço.


Com a alma menos agitada dos afazeres que vem de fora, vou tentar mais uma vez aprender a iniciar o tricô. Tricô é bom para acalmar as almas. Tricô e chá de capim-cidreira.

E, sem pressa, vou observar a chuva. O barulho que ela faz ao molhar a clarabóia da minha casa, o peso das gostas nas folhas das árvores do quintal e os respingos nas janelas.

Paulo de Tarso falava que para combater o bom combate, é preciso aprender a observar os sinais. Paulo Coelho resgatou este ensinamento em seus livros. A chuva que passa o Natal em minha cidade é um presente divino soprando em nossos corações: “Aonde você vai com tanta pressa? Aonde você vai?”

Esta talvez seja a pergunta mais difícil para um ser humano responder. Tenho duas gatas e elas, aparentemente não têm estas perguntas existencialistas. Elas apenas vão. E apenas voltam.

Já montei minha árvore e, este ano, colocamos alguns instrumentos musicais próximos a ela. Sentiu vontade de tocar, toque. A música também acalma almas.

Não preciso de muito mais do que a chuva caindo lá fora e um lar quentinho. Há sim, um bom blog para postar alguns pensamentos e amigos que eu possa receber para o jantar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Tá tudo certo. Ou não?



Cansada estou, esgotada.

As forças anímicas parecem sair do meu corpo. Ontem tive uma dor de estômago maluca. Ou melhor, deve ter sido uma dor enviada pelos anjos para que eu ficasse de repouso e desse uma trégua a correria. 

A fadiga não tem haver com cansaço físico, mas mental. O que me faz ficar sem vontade de sentar e compartilhar qualquer escrito neste diário virtual de pensamentos. Mas sinto falta. Sinto falta deste exercício. Sinto falta de conversar sobre assuntos que me caem nas mãos inesperadamente.

Mas hoje, hoje apenas deixo um olá, um estou por aqui, ainda, curtindo este frio e engolindo sapos que não posso desabafar. Por hora. E talvez nunca me permita.

Os salmões lutam tanto para nadar contra a correnteza e se reproduzirem e a maioria morre nesta tentativa. Não por cansaço, mas pela quantidade de cortisol que produzem em seu corpo para vencer a situação de stress.

Não quero morrer de cortisol. (Mais nobre seria me embebedar de absinto). Se a chuva parar, vou fazer uma caminhada até à Lua. Talvez chegue até Marte, deus da guerra. Ando precisando recrutar alguns soldados para dizer umas verdades por aí.



quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dia das crianças, dia de brincar



Embora meus pais nunca tivessem ouvido falar de pedagogia Waldorf, orientação na qual hoje educo o meu filho, posso dizer que tive um primeiro setênio belo. Como não havia muitos recursos para brinquedos caros, o jeito era lançar mão do que estava por perto e de exercitar a imaginação.

Mesmo crescendo em um bairro relativamente grande do Rio de Janeiro, costumava brincar no chão da cozinha da nossa casa com boizinhos de chuchu, bonecas de pano e com várias sobras de tecido que ganhavam mil formas nas histórias que inventava.

Em minha infância fui limitada no colecionar de álbuns de figurinhas (que eram bem caras para o orçamento da minha família), e de sonhos de consumo como o Atari, o patins e muitos outros que se quer recordo. Meus pais ou não tiveram recursos ou simplesmente não acreditavam que ali estaria algum tipo de felicidade que efetivamente fosse essencial para minha formação.

Aprendi a conviver com essa negação. E, acredito, esse limite do que se pode ter e do que realmente é essencial, foi sendo forjado dentro de mim pelos exemplos que tive. Hoje, das lembranças que guardo de minha infância, não povoam brinquedos que tive ou os que não tive, mas as aventuras e descobertas que vivenciei neste período, como a primeira vez que tomei banho de cachoeira nas férias no interior de Minas, os banhos de chuvas e a cumplicidade dos primos e dos amigos.



Um dos brinquedos mais queridos de minha infância foi um buraco. Um enorme buraco aberto por seis mãos no quintal de minha avó. A finalidade era apenas abrir um túnel onde pudéssemos encontrar mãos e pés. A conquista deste objetivo foi comemorada em alto estilo com suco de uva e pão de queijo.



Recordo-me que em uma noite de forte chuva faltou energia na nossa casa e não tive que disputar meus pais com as novelas ou telejornais.  Por cerca de uma hora e meia, brincamos de sombras nas paredes à luz de velas. Cheguei a pedir que faltasse luz todos os dias para que aquele momento se perpetuasse.

Hoje, como mãe, dou ao meu filho mais do que tive em minha infância, mas tento não cometer exageros. Isso acaba me gerando alguns conflitos internos, é claro, pois sempre achamos que poderíamos dar mais. Mais afeto, mais brinquedos, mais tempo juntos.


Neste Dia das Crianças, meu filho não recebeu nenhum presente material. Já havíamos dado há alguns meses um brinquedo que ele queria muito. Ele sabia que este seria o seu presente e não teria outro nesta data. Passamos o dia juntos, passeando e brincando. E percebi que não fez a menor falta para ele receber ou não um novo brinquedo neste dia.

Preocupada com o legado que estou deixando para meu filho, neste Dia das Crianças, perguntei a ele: “Quando você pensa na mamãe, o que te vem à cabeça?” Ele me respondeu: “Carinho”. Bom, eu não poderia ter recebido presente melhor.



domingo, 2 de outubro de 2011

Bienal, até 2013


Bienal é um evento que se repete de dois em dois. Isto é o que nós organizadores esperamos.  E pelo sucesso da primeira Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes, acredito que este é um evento que veio par ficar.


Organizar um acontecimento deste porte, em uma cidade de tamanho médio, com poucos patrocinadores e contando com muita mão de obra voluntária (o que significa muitas vezes não poder contar com ninguém) é, sim, um desafio. Mas o desafio seria o mesmo se tivéssemos muito mais almas abnegadas do que as que pudemos contar e muito mais saldo na conta bancária. A questão maior é ter sido a primeira. Tem aquele gostinho de desbravamento que ninguém nos tira. E tem também aquele bater de cabeças de não saber bem o resultado que vamos conseguir alcançar.


Foram dez dias delexposições, mostras e palestras ocupando o maior espaço de cultura da nossa cidade, o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. No final, o saldo foi positivo. Posso afirmar, atrevidamente, que todos os que foram gostaram muito do que viram.


Esta primeira edição teve como tema central uma homenagem a Arthur Arcuri e Luzimar Telles, arquitetos modernistas de Juiz de Fora e de Cataguases, respectivamente. E contou com obras de um contemporâneo de peso - uma sala com desenhos e croquis de Oscar Niemeyer, feitos pelo grande arquiteto brasileiro para uma apresentação no George Pompidou no ano do Brasil na França, em 2005.


Foram 45 projetos profissionais inscritos para concorrer na primeira Bienal regional que se tem história no Brasil. A premiação garantiu aos cinco agraciados a participação na grande Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, que vai acontecer em novembro próximo.


A regra para os trabalhos acadêmicos era de cinco projetos selecionados em casa uma das três instituições da região aptas a participar. O primeiro lugar ficou com a solução arquitetônica encontrada para um abrigo de moradores de rua.  Contribuição social da arquitetura para um mundo melhor? Acho que esse deveria ser o viés dessa e de todas as demais profissões. E, como disse o arquiteto Sylvio Podestá,  na palestra de abertura do evento: “o primeiro cliente do arquiteto é a cidade”.


Para fechar a programação, contamos com o trabalho de dois artistas plásticos da cidade: Ramon Brandão, com sua Cidade de Papel, perfeição em cada detalhe nas maquetes de casarios e prédios históricos de Juiz de Fora, e de Filipe Matias, que preparou uma instalação interativa, onde o eixo do cenário foi mudado e os visitantes podiam ser fotografados no local.


Girando as fotos, quem fica fora de “lugar” é você. Além de divertido, uma boa reflexão sobre o que é certo e o que é errado? Onde estamos e onde não poderíamos de fato estar? Existem limites para a ousadia? Entre o grupo responsável pela Bienal, não houve. Pensamos e acreditamos num sonho e sua concretização nos aponta para outras edições ainda mais promissoras.


Vida longa à Bienal da Zona da Mata e Vertentes. Deixo vocês com o vídeo do evento e, é claro, estou de volta à vida de blogueira, visitando os amigos e pondo leitura em dia. 


A todos, um brinde de Absinto!



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Bienal de Arquitetura Delírio e Realidade


Dudu Lima e cia. Coisas da terrinha.
Absinto é bebida forte, mas não se pode verte impunemente.Toma tento menino, que isso é coisa de gente grande. Só adultos deliram? Não, o delírio é universal. A questão é o quanto somos capazes de delirar e voltar para a realidade. Bom acho melhor mudar o discurso, a imaginação infantil será sempre mais fértil.


Mas o que me traz aqui hoje é um delírio coletivo. Em Juiz de Fora, um grupo de delirantes arquitetos planejam invadir a cidade com a I Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes. O evento tem dia e hora para começar e, se tudo der certo, vai deixar muita coisa boa por aqui e por todo o país. 


Até lá, prometo estar ausente, para poder extravasar em outras companhias.





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Polianices


internet mapping 

O grande escritor James Joyce escreveu um livro muito interessante chamado Dublinenses, onde ele retrata a vida social em sua cidade natal. O livro de Joyce foi feito em uma época em que as diferentes artes buscavam questionar o comportamento social moldado nas aparências. Podemos citar muitas outras obras que perseguiram este mesmo tema, como todos os filmes de Buñel, por exemplo.

Refletindo sobre alguns acontecimentos recentes na minha vida, fiquei pensando na literatura atual. Hoje questionamos a nós mesmos. Não temos mais medo de nos expormos ao ridículo. Como diria Drumond, virou moda ser gauche na vida. E nos tempos de reality show, quanto mais expostos, melhor.

Seja no twitter ou no facebook ou em qualquer outra mídia social, o bacana agora é, a qualquer momento, deixar um recado aos “amigos”: Ei, eu estou vivo, estou por aqui e hoje me aconteceu isso e aquilo.

E todos querem ser engraçadinhos e arrancar um curtir ou um compartilhar, um “retuitar”. Ou seja, queremos saber que fomos lidos e repassados à diante.

Repassados à diante. Talvez para a eternidade. Um amigo meu faleceu no ano passado e os comentários dele no FB continuam vivos por aí de micro em micro. É, sem dúvida nenhuma a relação espaço/tempo nunca mais será a mesma.

Falar no FB é como passear por uma rua movimentada de nossa cidade, ou ir aquele point da moda em que com certeza você vai encontrar pessoas conhecidas. E, como na vida real não virtual, há os que falam mais, os que falam menos e os que apenas observam.

O mundo “retuitado” mudou. E, com ele, as relações de amizades e de trabalho. Pessoas que nem poderiam sonhar que eu mantenho este blog são avisados da sua existência via meu FB. Podem nunca entrar aqui, podem vir, ler uma vez e também não voltarem. Mas com certeza têm a chance de saber mais sobre mim do que em um contato não virtual.

Eu posso colocar meus filtros e deixar passar somente o que gostaria que vissem em mim (será?), mas o fato é que esta exposição me torna mais humana e mais igual, nem que seja no imaginário de quem me lê.

Podemos ser apenas um jogo de palavras bonitas (mesmo quando estamos tecendo comentários raivosos). Podemos estar jogando o jogo do contente, pintando um mundo cor de rosa. Mas, então, não estamos muito diferentes da sociedade retratada por Joyce em Dublin. Embora com uma roupagem internáutica, ainda arrastamos nossas longas saias pelos bondes e curvamos nossos chapéus aos poderosos.

Quebrar a casca do ovo, modificar nossa maneira de agir e de interagir com o outro, são desafios constantes para a humanidade. Talvez por tocar profundamente na ferida, Dublinenses levou tanto tempo para ser aceito por uma editora e ainda mais tempo para ser aceito por seus leitores. Talvez por isso Joyce continue tão atual.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Divagando



Algumas lembranças de minha vida saltam-me à alma como se fossem fatos ocorridos agora a pouco. No instante em que atravesso a rua do meu pensar encontro ali rostos, gestos, frases, lágrimas e sorrisos. 


O que a memória não dá conta, a mente se encarrega de preencher com a imaginação. Aquela vontade do que deveria ter sido e nunca foi. Ou foi, mas a lembrança me trai. Que seja.


E sigo neste labirinto tecendo meu caminhar. As memórias são muitas, um campo de batalhas constante. A memória é uma ligação afetiva com o passado e fenômeno de reconhecimento de identidade. 


Em meio a um mundo cada vez mais efêmero, é bom cultivar raízes.


E com o meu olhar anda atento para reconhecer tantos cenários. De repente, não sei o porque, o colorido das coisas parece saltar-me aos olhos. As flores ganham um vermelho intenso, próprio do inverno nesta época do ano. A terra com seu ocre forte. 


Vejo graça em folhas secas e me recordo de pisá-las em tantas estradas. E em cada uma delas há pessoas que deixaram suas marcas.


Um dia ouvi de um amigo que o pássaro só cumpre seu destino quando alça vôo. Da janela do meu quarto vejo muitos pássaros. Uns retornam, outros nunca mais. A lembrança, esta, continua, eternizada.


Foi assim que aconteceu certa manhã. Havia tempo que não nos falávamos. Mas em um dia triste acordei com uma mensagem no meu celular. Uma mensagem que provavelmente fora enviada a outras pessoas também. Mas que em suas entrelinhas dizia: ei, eu estou longe dos seus olhos, mas estou por aí e você ocupa a minha lembrança. 


Fiquei feliz o resto do dia. O resto da semana. É bom saber que lá fora há pássaros de todas as formas e de todos os encantos que me reconhecem e que, pelo menos alguns, me guardam com carinho em suas memórias.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Fora da rede é lixo


Wall e. Filme para crianças?

Há alguns meses fiz um post sobre o tema Obsolência Programada e agora me vejo novamente às voltas com o tema. Fiquei fora da rede por quatro dias por conta de um roteador que, com três anos de uso, enfim, faleceu. Durou muito, me disse o técnico. Como assim, durou muito? No tempo do meu pai, as coisas eram feitas para serem herdadas. Há amiga, você está obsoleta, out, completamente por fora! 


O lance agora é mudar a cor, o formato, o tamanho. E o tempo de testes de novos aparelhos nas fábricas não ultrapassa os três meses. Olha o número três aí novamente! Seria algo cármico? Não é chute não. Um amigo que atua nesta área me disse isso após visitar uma grande indústria do ramo tecnológico. 


Mais do que uma sociedade de consumo, nos tornamos a sociedade do descarte. Neste exato momento tenho em minha casa, dados como inoperantes e irrecuperáveis, um aquecedor a gás (10 anos), uma bomba de banheira (2 anos), um aparelho de som (idade de uso estimada em 17 anos), um aparelho de vídeo cassete (16 anos) e um roteador para internet (3 anos). Sem falar de um velho micro que resiste, mas já demonstra sinais de falência múltipla dos órgãos.


Os diagnósticos são os clássicos: “Pelo preço do reparo, você compra um novo”. “Não há peça de reposição”.


Se a minha cidade tivesse mar, poderia descartar todos esses equipamentos diretamente para as praias africanas. Talvez faça contato com Vik Muniz, para que ele reutilize as peças em suas obras de arte. Mas acredito que ele já tenha um vasto material à sua disposição.


Resta-me procurar por uma dessas empresas que compram equipamentos usados. Será que vão aceitar minha bomba de banheira? Meu amigo não quis ficar com o meu vídeo cassete. Fechou a oficina que mantinha nas horas de folga. Amante da eletrônica, não resistiu aos tempos dos circuitos fechados e totalmente descartáveis. Não precisa pensar, basta comprar um novo. 


Fazendo uma busca pela internet, descobri um blog muito legal sobre lixo eletrônico. Procurava saber se existia alguma lei que prevê multa para descartes industriais. O site traz uma notícia sobre uma lei em Nova York que multará em US$100,00 quem jogar qualquer tipo de equipamento eletrônico no lixo comum. Segundo o The New York Times a medida teria início a partir de 2010. 


Em uma busca rápida, não encontrei nada como desdobramento dessa notícia. Então lanço o desafio. Alguém sabe de algum estado, cidade ou país em que alguma medida como essa já foi adotada?


A Isis me disse agora pouco pelo facebook que ultimamente só faço pergunta difícil. Pode ser, mas se nós consumidores não nos preocuparmos com o nosso lixo, não acho que alguma empresa terá por si só bom senso para se ocupar com isso.


Espero a sua resposta.

sábado, 30 de julho de 2011

Pizzicato


Tem coisas que soam melhores quando feitas com as mãos.
Tirar “poeira” do nariz, remela dos olhos, raspar vasilha de bolo, e outras delícias que não precisam ser confessáveis, apenas subentendidas.
O importante é o toque.


Sempre estranho quando vou cumprimentar algumas pessoas e elas fazem movimentos negativos ao contato físico. Eu respeito, é claro. Mas como é revelador o ato de se afastar e o de se permitir ao outro.
O primeiro prefere o recato, a segurança do afastamento, um resguardo de uma pós-gestação que nunca se acaba.O segundo é a entrega, o desfreio, a desmedida pela vida, puro anseio e cega coragem.


Mas, para nenhum dos dois, a verdade se esconde. Um brinde à entrega. Tardia ou precoce, um dia ela sempre chega. 


E neste instante, não há recuos, apenas dedilhamos os corpos. Melhor quando também dedilhamos as almas.

domingo, 24 de julho de 2011

Havachakra


Consciência e pernas para cima. Depois da viagem MARAVILHA ando às voltas com a balança. Acho que foram os chocolates e vinhos. Pode ter sido né? Esta semana comecei a ler um livro de introdução ao Budismo. Um livro bem simples do Lama Padma Samten, bem propício para iniciantes, cheio de gravuras bonitas que cativaram o meu filho de 7 anos, ainda em alfabetização, que por dois dias se apossou do dito cujo e não se cansava de ver as folhas coloridas. “É um livro sobre Buda, meu filho”. “AH, é um livro do AHHH Uuuumm”. Acho que ele vai aprender a meditar cedo. Ou, então, será humorista...


Recuperada a posse do livro, “A Roda da Vida”, fiquei matutando sobre como as grandes verdades da existência humana nos são tão complexas. A felicidade, por exemplo, como cultivá-la, se passamos a maior parte do nosso tempo perdidos em um ciclo de pensamentos pouco evolutivos?


É impressionante como nos prendemos nas mesmas ideias mentais que nos corroem a alma. A mudança de hábitos é custosa, porque está arraigada em nossa genética familiar. 


Quebrar a casca do ovo, nascer novamente, tomar uma consciência própria da maturidade. Desculpem-me os mais novos, mas há coisas que só compreendemos após os 40, ou aos 50, e assim por diante.


Mas a consciência nem sempre nos leva a ação. Por isso, por mais que saiba exatamente o que fazer em tantas situações, carecemos de atitudes. Talvez seja falta de hábito, talvez a ausência de coragem, ou ambos. O fato é que ficar com as pernas para cima é ainda o mais confortável para muitas situações por nós já conhecidas. 


Além de tomar atitudes concretas para emagrecer, há outras mudanças que ando querendo implementar. A mudança de visão, de maneira que eu veja uma determinada situação não presa aos acontecimentos do momento, mas exercitando o distanciamento para melhor compreender os fatos. Confesso que sempre tive este pensamento em minha vida. Mas, por mais que se reflita, ainda é preciso exercitar. Calma e serenidade. Dar aos fatos apenas a importância devida. Nem mais nem menos. Seremos mais frios e calculistas? Seremos mais justos e menos intempestivos.


A Roda da Vida nos ensina que tudo sobe. Tudo desce. Tudo passa. O que não é um convite à inércia, mas à responsabilidade da contribuição, para que possamos olhar o nosso passado e perceber mais acertos do que erros, mais alegrias do que tristezas.


Hoje cozinhei para a minha família e foi muito bom. Porque cozinhar é fazer amor por dentro. Nos atos mais singelos e cotidianos encontro os momentos mais felizes da minha existência.


A caminhada, ela virá, no tempo certo, sem culpas. Cultivo a consciência de que faço ou não faço, sendo minhas as escolhas. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Viajar é preciso

Coisa danada de boa é sair andando por aí a passear. Foi o que eu fiz. Sai pelo mundo. Conheci alguns lugares lindos que há muito sonhava estar. Fui a Paris, Amsterdam, Lausanne, Monterosso al Mar, Roma e Florença. Muito? Pouco.


Até agora a ficha está caindo. Para nós que moramos ao Sul do Equador, uma viagem dessas é longa e cara. Doze horas e meia de avião como sardinha em lata. E olha que eu sou tamanho mignon. Mas vale cada centavo. Que eu tive para investir é claro.


Não dá para contar tudo em um único post. Nem sei o que contar. Foram tantas coisas boas bem-vividas que até agora imagens e sensações vão tomando conta da minha mente e do meu corpo. A mudança mais fácil de ser notada pelos amigos é que voltei mais vaidosa. Talvez como se tivesse despertado para um mundo bem grande. Bem maior do que o meu Brasil querido que já é enorme, mas não é o Planeta.


Também voltei com uma saudade danada da minha casa, da minha cidade. Ficou uma sensação gostosa de que aonde eu vivo é muito bom. Apesar de muita coisa ruim. É aqui que conheço o padeiro, o açougueiro, o jardineiro, a velhinha do final da rua, o motorista do ônibus.


Claro que quero voltar e conhecer ainda outros lugares maravilhosos. Mas saber que faço parte de um contexto é muito importante para mim. É bom lançar-se ao infinito e ter para onde voltar e para quem voltar.


Há muitos anos passava sempre um filme na televisão do meu país chamado O Pássaro Azul. Um filme infantil onde uma criança partia em busca de uma felicidade efêmera; em busca de um pássaro azul que, como o coelho de Alice, sempre teimava em fugir.

Descontando a limitação cinematográfica da produção citada, a menina (Shirley Temple) termina a sua história retornando para a casa e encontrando o pássaro em seu jardim. Surpresa, a menina pergunta para sua mãe: Esse pássaro azul está aqui? E a mãe responde: Você nunca percebeu? Ele sempre esteve aqui.


Eu achava a mãe da menina uma sem noção. Que papo furado de quem quer prender os filhos em casa. Eu queria é correr mundo. E ainda quero. Mas hoje compreendo perfeitamente e profundamente o pássaro azul. Pertencimento é a palavra que me vem à mente para descrever o que sinto.


Voltei com vontade de coisas simples, cozinhar e plantar em meu quintal. Voltei com vontade de flutuar e dançar.
Voltei com vontade de pintar telas depois de tantos quadros e tantas cores.


Bom, tudo isso é para dizer que estou de volta. Ainda meio aérea, mas aterrissando. Espero que não muito. Porque voar é preciso.

PS. Novas músicas na Play List. Confira.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Este blog vai entrar de férias



Evento que se repete todos os anos, graças a Deus, esta blogeira que vos escreve vai entrar em merecidas férias.

Aproveitem para ler postagens mais antigas. Ficarei muito feliz se deixarem mensagens em textos escritos antes de nos conhecermos.

Então, au revoir, ciao belos, e até qualquer momento em edição extraordinária ou até julho.

Dias Felizes para todos nós!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Para Letícia, guerreira

Há momentos na vida que nos deparamos com um alto muro intransponível. Algo difícil mesmo, que nos faz entregar os pontos. Mas, depois de alguns minutos (ou meses) de desespero e desamparo, começamos a aceitar aquela situação e milagrosamente percebemos que temos forças aonde não pensávamos existir mais nada, e que podemos, sim, superar. Mesmo quando tudo o que nos resta é a entrega à fé (como se isso fosse pouco), nela, na fé, conseguimos renascer. 


Como fênix, voltamos a sorrir, a dar de novo bom dia, a sonhar. Cada dia que passa é mais um dia de espera, mas também de superação. Tudo tem o seu tempo e nós, acostumados a correr contra ele, temos que reaprender a contar as horas no compasso do amor.


Certa vez uma prima da minha mãe, aos 74 anos, cheia de atrites e atroses por todo o corpo, enfrentou uma longa viagem  de ônibus até a nossa cidade para nos visitar. Na volta, seguiu para a casa de seu filho em Brasília. Lá chegando, me liga para dar notícias. Fiz a pergunta de praxe: "Boa viagem, Dora?" Ao que ela me respondeu: Viagem maravilhosa! Você imagina que, na entrada de Brasília, o ônibus furou o pneu e uma pessoa tão boa ao meu lado me emprestou o celular para eu ligar para o meu filho? Em 20 minutos ele chegou lá para me buscar. Eu acabei dando carona para minha nova amiga".


Não conheço muitos seres humanos que descreveriam este episódio como maravilhoso, mas posso me orgulhar por conhecer algumas pessoas assim.


O que me leva a constatação simples  e, me desculpem a obviedade, de que a felicidade é um estado de espírito. Por pior que seja o momento, ele terá o peso e a cor que a ele destinarmos.


Esta semana vou colorir meu coração para uma pessoa querida. Desejar a ela toda a felicidade do mundo. Uma paleta de cores alegres para pintar um quadro de um novo recomeço.


sábado, 28 de maio de 2011

Fogo-fátuo




Ah como a ansiedade lhe aguça
Libertino, aberto, mete os pés pelas mãos
Cautela é o que precisa, para dar o bote na presa
Mas não há paciência para coração aflito
Pulsa o sangue, a libido
Como segurar? 
A espera é preciosa
Até que o corpo exploda
Incêndio é certo, total e desejado desalinho
Fogo que se apaga, apenas, e só apenas, depois de muita água...


João-galafoice corta estrada no matagal, a luz azulada corre para dentro da mata. Não há temente a Deus que se atreva a atravessar o mesmo caminho. Fica quieto, menino. Menino não pode se aquietar. O fogo, já queima seus mais intensos pensamentos. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Redoma de Vidro


Responda em dois atos. O que mais vale, amores vividos ou amores sonhados?
Amores vividos são como casa com visitas. Arrastam móveis, arranham o chão, sujam o tapete, fazem bagunça na cozinha, causam risos à meia-noite.

Amores sonhados são perfeitos encerrados em nossas mentes. Não desalinham a cama, não despenteiam nosso cabelo. Também não criticam. Também não afagam. São como pipocas sem sal, sem doce, sem graça.

Eu? Eu gosto de comida temperada.


Era de tardinha quando chegou à pequena aldeia
Não havia vestígios de sol, apenas casas de janelas cerradas.
Pela fresta da porta vizinha rompia o ar um aroma gostoso de caldo quente misturado com o da tinta fresca. A casa simples estava totalmente caiada. 
Entrou no velho casarão ainda sentindo frio.
Na sala, o chão vermelho encardido e no canto esquerdo um velho filtro de barro.
Apenas o gato veio ao seu encontro. Fez festa. Deixou a mala no quarto e saiu pelas ruas procurando um bar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Caminhos de Absinto


Na minha terra há um ditado assim: 

Formiga, quando quer se perder, cria asas.
Eu vivo em total processo de enformigamento alante.

Tenho forte na minha mente o dia mais feliz da minha vida.
Não, não me joguem pedras, mas não foi o dia em que meu filho nasceu.
Este foi um dia muito especial, mas não é desta alegria que me recordo agora.
Também não foram os dias de amores correspondidos.

A minha lembrança de um dia de felicidade plena está registrada nos meus 7 anos, em uma fazenda perto do Alto Paranaíba, Minas Gerais.

Foi um dia de pés descalços, vestido comprido e banho de rio.
Foi a primeira vez que andei a cavalo e descobri que o mundo era bem maior do que o pequeno apartamento de dois quartos que eu morava no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.

Talvez por isso eu entenda perfeitamente o olhar perdido do meu filho sob o mar da Ilha Grande, quando, aos quatro anos de idade, ele me disse: “Eu, mamãe, papai, a gente não sabe é nada”. 

Não desdenhem o filosofar de uma criança. A mente dela está aberta a receber e perceber bem mais do que pensamos em estar dizendo para elas.
Por isso, naquele dia de verão eu comi milho assado na fogueira e me senti cigana.Queria ganhar mundo, mata, queria viajar e conhecer e me afogar de conhecimentos.

A alma itinerante faz bem ao meu corpo.

Ando cabisbaixa cumprindo rotinas de vida adulta. Mas o tempo da viagem está chegando

Em breve partirei para novas aventuras. Quem sabe me encontrar com aquela menininha de plena felicidade diante de um mundo a ser revelado?

Nesses dias em que estive adoentada, uma amiga me falou, porque você não escreve da necessidade do corpo parar para descansar. Na verdade, meu corpo não necessita de descanso, necessita de aventura em terras mais quentes do que a que estou agora. O sol sempre me anima e me movimenta.

Talvez ela esteja certa. O corpo reclama para que eu mude o curso e ouse novas trajetórias.

Já estou fazendo as malas. Poucas coisas. Um caderno de memórias, um par de sandálias e um coração pulsando pela vida.

sábado, 14 de maio de 2011

De volta




A ausência de dias neste blog me faz pensar o quão efêmera é a nossa existência.


Não chegou há um mês, mas os amigos, pela educação de não invadir o meu espaço, ainda não mandaram chamar a polícia.  Que bom, porque o caso era mais para médico.


Odeio o inverno. Odeio com todas as forças do mundo. Odeio ter crises de sinusite e ficar sem forças para nada.


Gostaria de ter nascido urso e hibernar até a primavera. Ele está chegando, o senhor do frio. E minha cidade fica coberta de uma névoa branca enquanto a minha cabeça dói. O corpo dói.  O peito fica sem ar e eu totalmente inerte ao ciclo do vírus maldito.


É claro que junto com a sinusite haveria uma gripe. E chás de limão, mel, remédios, e muita falta de paciência e improdutividade.


Bom, como não há mal que tanto dure, estou de volta. Ou quase.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Esperando Godot

Em um lugar indefinido - Estrada (caminho) do campo, com árvore, á noite (Route à la campagne, avec arbre. Soir) - dois amigos se encontram: Estragon e Vladimir. A primeira frase dita na peça, por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar:"nada a fazer" (rien à faire)... Aparece um garoto anunciando que Godot não viria hoje, talvez amanhã. Pensam em se enforcar na árvore, mas desistem, ante a impossibilidade do ato ser simultâneo. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:

Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?) (Well, shall we go?)
Estragon: Sim, vamos. (allons-y.) (Yes, let's go.)    
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.) (They do not move.)


De tempos em tempos o mundo gira, as coisas mais ou menos se modificam, as pessoas também. Ou não.

Quando entro em períodos de entressafra, aqueles espaços na nossa vida em que só nos resta a paciência para o desenrolar dos acontecimentos, trago à minha mente a lembrança de Samuel Beckett e seu Teatro do Absurdo. A imagem do teatro de Beckett ainda hoje é em mim tão forte que chego a expressar com amigos, quando me perguntam como vou: Estou esperando Godot.

Godot, God, foram vários a fazer esta analogia do francês para o inglês. O fato que esperar Godot para mim não é uma coisa confortável. A espera me causa ansiedades. E náuseas. E ganas de explodir. No entanto, é preciso meditar. Então, escrevo.

Esperar Godot é um ato que foge ao controle, e, principalmente, Godot nunca vem do jeito que queremos (como se houvesse um jeito perfeito capaz de atender as angústias do ser humano).

Calejada por alguns anos de vida bem vividos, percebo claramente os dias em que Godot não virá. E, também, os dias que ele, enfim, chega, de uma maneira totalmente diferente da qual eu esperava.

E então busco em meus gurus a imagem da serenidade para finalmente agir e modificar, da maneira que posso, a minha realidade. Moldar Godot. É isso que eu gosto de fazer. Porque ficar parada, não está na minha essência.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Metamorfose feminina



Ir ao médico é como consultar um sarcedote, um mediador entre os homens e a Divindade, capaz de orientar sobre os males do corpo e da alma. Assim a profissão foi forjada e assim ainda impera em nossa sociedade, mesmo que o paciente seja totalmente ateu.

Ele, o médico, detém um conhecimento que você não tem. Por isso só te resta a condição de entrega e de ser... paciente.

É como a relação de filho e mãe. Eu mando, você obedece. No entanto, qual é o filho que ao crescer não descobre que todo o saber de seus progenitores tem falhas? Ao tomarmos consciência de nossas imperfeições, encontramos, enfim, o livre arbítrio.

E diante a peregrinação a alguns consultórios, descubro revoltada que meus sarcedotes não são deuses! Começo a ouvir frases antes impensadas: “Não sei”, “vamos ter que investigar”, “virose”, “é hereditário”. Mas a pior e mais indefinida das respostas, aquela que dói na alma feminina é ouvir de quem quer que seja: “São os hormônios”.

Mulher é sinônimo de vulcão em atividade. Quem pensa que eles, os “hormônios”, aquietam-se após a menopausa, se engana. Então, desde que entra em seu primeiro ciclo menstrual, a mulher está fadada a ouvir: “são os hormônios”. Com se isso fosse o bastante, como se isso acalmasse e respondesse nossos humores.

Quem sabe são eles, “os hormônios”, os responsáveis pela nossa feitiçaria?  Chorar, brigar, entrar em uma grande melancolia, achar que vai morrer e um segundo depois perceber-se como a mais poderosa dos mortais na face da Terra.

Essa constante montanha russa assusta não só os homens, caros companheiros, mas às mulheres também. Insegura, irritada, mal-humorada, amável, sensível, pegajosa. Todos os papéis me cabem no espaço de trinta dias.

Enquanto a ciência continuar a se furtar em nos esclarecer termos como “viroses” e “hormônios”, a nós, homens e mulheres, restará aquela palavrinha irritante: resiliência. Perdoem-me o baixo calão, mas F..., porque, como diz uma amiga minha, depois de uma certa idade, não existe TPM, existe TPS – Tensão Para Sempre. E aí? Como fica, doutor?


Aviso da lua que menstrua / Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:

Cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço

Às vezes parece erva, parece hera

Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar...


domingo, 24 de abril de 2011

Aos portugueses, com carinho



Nesta data, eu tinha apenas cinco anos de idade a serem completados no mês de setembro. Mas vivi aqui no Brasil à sombra de uma ditadura. Pouca idade, mas a mente atenta, ainda percebi muitas coisas. Ouvia conversas entrecortadas dos adultos, o silêncio velado nas multidões. Era proibido pensar.
Minha homenagem ao povo português e a todos os que viveram e vivem sobre ditaduras. Ditaduras silenciosas, camufladas de democracia, ditaduras assumidas, religiosas, econômicas. Por vezes, os olhos de criança enxergam mais, quando os adultos estão cansados da labuta. Por vezes, os olhos experientes dos mais velhos servem para orientar aos mais novos o perigo que não é tão aparente. Este é o ciclo da vida.
A história precisa ser lembrada, sempre. Por isso, hoje dedico cravos a todas as lutas pelo bem comum. Como disse Pessoa, Tudo vale a pena...


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cai o pano


Assista acima ao trecho do filme Hanna e suas irmãs 
e veja ao final do post a versão musicada do poema de E.E. Cummings por Zeca Baleiro


Mesmo que eu adore ler e escrever, não posso negar. Eu como o mundo é com os olhos. Sou da geração do cinema e ainda peguei filas para conferir bons filmes em salas gigantes do meu saudoso Rio de Janeiro (Hoje a maioria transformada em templos religiosos.)


Ontem fui assistir “Rio” com minha família e amigos. E não é que me deparei com filas novamente? São os tempos do 3D que andam levando centenas de volta à telona. Mas, tirada a sensação dos óculos que nos permitem a sensação do tridimensional, onde estão os filmes que sacudiam o nosso pensamento? 


Antes de continuar, preciso dizer que Rio é um bom filme para o que se pretende. Meu filho de sete anos adorou. Ponto.


Tenho saudades do tempo em que saíamos de casa para assistir ao último filme do Wood Allen. Não importava a temática. Importava o autor. Hoje saímos de casa para assistir a sequencia de algum filme que deu certo na versão I, II, III = resultado certo de bilheteria.


A audácia ficou restrita ao século XIX? Por onde anda o prazer e o gozo pelo experimento?


É tudo milimetricamente calculado: o filme, a venda casada com brinde da avezinha do filme (deste eu escapei!), o combo de pipoca + refrigerante. Eu saí de casa para assistir cinema, onde está escrito que eu teria que ingerir pipoca transgênica com um big copo de refrigerante??? Ver as pessoas repetindo os mesmos atos trouxe à minha mente a imagem Tempos Modernos, do imortal Charles Chaplin.


Na minha adolescência era proibido entrar com comida nas grandes salas. Não ficarei espantada se daqui a alguns dias for instituído o intervalo nas seções para venda de mais comida. Talvez façam isso com os jogos de futebol, a exemplo do que acontece com o basebol norte-americano.


Voltando ao tema principal, por onde andam os grandes diretores do cinema? Chaplin, Fellini, Vittorio de Sica, Win Wenders. Pessoas que eram odiadas ou amadas, mas nunca indiferentes.


O cinema autoral acabou. Não há espaço para novas fórmulas. 


Ando carecendo de pensamentos oxigenantes, pessoas inteligentes e papos criativos. Bem humorados, sempre, mas de crítica avinagrada, este é o gosto de quem lhes escreve.


Caio o pano por aqui. Vou dar um giro pelos blogs amigos em busca de vida sagaz. Infelizmente, fui ao cinema e voltei com falta de ar. Acho que foi o ar condicionado do Shopping. Tenho alergia às obviedades.


Poema de Edward Estlin Cummings por Zeca Baleiro



somewhere i have never travelled, gladly beyond
somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully, suddenly,

as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands